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Ásia em crise

O continente asiático, que é o principal centro produtor de têxteis e vestuário do mundo, está a viver um dos períodos mais complicados. Além da contração na China, outros países produtores, do Vietname à Turquia, estão a sentir os efeitos da pandemia no negócio.

Turquia

Tendo sido o epicentro da pandemia, com disrupções desde o início de janeiro, a China registou uma queda no PIB de 6,8% no primeiro trimestre de 2020, de acordo com um estudo da Euler Hermes, acionista da Cosec – Companhia de Seguro de Créditos.

A análise “China: In search of lost demand”, publicada recentemente pela Cosec, prevê, contudo, uma recuperação ligeira até ao final do ano, antecipando uma subida de 1,8% no PIB chinês em 2020, sendo que, a partir de 2021, as previsões indicam uma recuperação em U, com um crescimento de 8,5%.

Não obstante, os economistas da Euler Hermes ressalvam que alguns fatores podem condicionar significativamente a recuperação, nomeadamente o surgimento de novos surtos da pandemia, tanto na China como nos respetivos parceiros comerciais, políticas públicas de apoio ineficazes ou o facto de a orientação da política orçamental não ser suficientemente flexível.

No mesmo estudo refere-se que os níveis de produção da China encontram-se 15% a 20% abaixo dos valores habituais. Depois de se deteriorar em fevereiro ao ritmo mais acelerado desde que há registo, a atividade fabril da China começou a recuperar em março, mas o número de encomendas continuou a cair, à medida que a pandemia se propagou no resto do mundo. Após o recorde da maior queda, para 40,3, em fevereiro, o PMI (Purchasing Managers’ Index) do Caixin China General subiu para 50,1 em março. Este indicador revela as condições operacionais da economia industrial, sendo que um valor superior a 50,0 aponta crescimento da atividade fabril, pelo que a leitura de março sugere uma estabilização das condições de negócio. «Os dados do estudo, que foi realizado de 12 a 23 de março, confirmam que os fabricantes ainda estão a voltar ao trabalho gradualmente», afiança Zhengsheng Zhong, presidente do conselho de administração e economista-chefe do CEBM Group, subsidiário do Caixin. «A expansão de março no sector da produção regressou para um nível verificado antes da pandemia de coronavírus», acrescenta.

Menos encomendas na China

Contudo, embora o sector tenha apresentado melhorias ligeiras na produção, as encomendas diminuíram devido ao agravamento da situação relacionada com o Covid-19 no resto do mundo. O empresário chinês Shi Xiaomin, que produzia e exportava milhares de fatos e blazers para a Coreia do Sul, Holanda e EUA, sentiu na pele esta quebra de encomendas.

China

Segundo a Reuters, depois de meses parada, a empresa retomou a laboração para interromper poucos dias depois, devido ao cancelamento de encomendas ou suspensão dos envios por parte dos clientes europeus e americanos. «Sabemos que este ano vai ser mau e que o próximo vai ser melhor, mas a questão é quantas fábricas vão sobreviver até 2021», afirma à Reuters.

Dan Wang, analista da Economist Intelligence Unit, prevê que a taxa de desemprego em meios urbanos, que atingiu os 6,2% em fevereiro, possa aumentar mais 5% este ano, o que corresponderia a mais 22 milhões de pessoas desempregadas, a somar aos já 5 milhões que já perderam o posto de trabalho em janeiro e fevereiro. Além disso, 103 milhões de trabalhadores podem ser afetados por cortes salariais entre 30% e 50%, aponta Wang.

«O otimismo do mercado de uma rápida recuperação na China está a esbater-se», admitem os analistas da consultora Nomura numa nota. «Antecipamos que o crescimento das exportações caia mais 30% no segundo trimestre, em comparação com a descida de 13,3% no primeiro trimestre, e que o crescimento real do PIB continue negativo em -0,5%, em termos anuais, no segundo trimestre», indicam.

Um estudo realizado pelo gabinete de estatística da China revela que «57,7% das fábricas inquiridas reportaram falta de encomendas. Algumas dizem que a procura do mercado é tépida, as vendas de produtos são difíceis e que vai demorar algum tempo para que as encomendas voltem», resume Zhao Qinghe, estatístico sénior no gabinete nacional de estatística.

Fábricas reabrem no Bangladesh

Cerca de um mês depois de ter sido ordenado o encerramento para evitar a disseminação de novo coronavírus, as produtoras de vestuário do Bangladesh regressaram à atividade. Cerca de 600 unidades fabris reabriram na última semana de abril e Rubana Huq, presidente da Associação de Produtores e Exportadores de Vestuário do Bangladesh revelou que, pelo menos, um total de 856 empresas deverão também voltar ao trabalho.

Bangladesh

A reabertura foi alavancada pela enorme pressão dirigida à indústria, segundo Huq, depois da pandemia ter já custado ao sector mais de 3 mil milhões de dólares (cerca de 2,7 milhões de euros) em encomendas canceladas ou suspensas. Cerca de 1.048 fábricas que fazem parte da Associação de Produtores e Exportadores de Vestuário do Bangladesh registaram mais de 900 milhões de peças de vestuário canceladas ou com produção adiada, o que pode afetar cerca de dois milhões de trabalhadores, uma vez que o ano fiscal do Bangladesh decorre de 1 de julho a 30 de junho.

Também Mohammad Hatem, vice-presidente da Associação de Produtores e Exportadores de Malhas de Bangladesh avançou à Reuters que o sector perdeu mais de 2,7 mil milhões de euros com todos os pedidos cancelados ou adiados até julho.

O Bangladesh tem a segunda maior indústria de vestuário do mundo, a seguir à China, registando anualmente exportações no valor de 35 mil milhões de dólares, sobretudo com os envios para os EUA e a Europa. O sector emprega 4 milhões de pessoas, a maior parte das quais mulheres de áreas rurais do país.

Camboja suspende operações

130 fábricas pediram ao Ministério do Trabalho autorização para suspenderem as suas operações, parcial ou totalmente. Com cerca de 750 mil trabalhadores, a indústria de vestuário é a maior empregadora do país, sendo ainda responsável por mais de 78% das exportações e 20% do crescimento económico anual. Os dados mais recentes dão conta de que 100 mil funcionários estão sem trabalho, de forma temporária ou definitiva.

Khun Tharo, coordenador de programa do Center for Alliance of Labor and Human Rights, assegura haver «questões sérias sobre a viabilidade financeira a longo prazo de algumas fábricas. Sabemos que algumas são detidas por grandes empresas multinacionais que provavelmente serão capazes de sobreviver, mas quando começamos a olhar para algumas das fábricas mais pequenas e para os subcontratados, que não têm os recursos financeiras dessas grandes companhias, o cenário é muito preocupante para o futuro próximo da indústria».

Camboja

A Garment Manufacturers Association in Cambodia (GMAC), que representa centenas de empresas, confirmou igualmente que muitas destas empresas podem não sobreviver, porque trabalham habitualmente com margens de lucro muito pequenas, e apelou ao cumprimento dos contratos. «Pedimos que respeitem os termos dos contratos de compra e cumpram as obrigações, recebendo as encomendas e pagando os artigos em produção e já produzidos», refere uma carta pública aos compradores. «Isto vai permitir que continuemos a dar trabalho aos nossos 750 mil colaboradores e continuar a pagar-lhes, garantido a subsistência de milhares de cambojanos. Apelamos a todos os compradores para manterem as responsabilidades socias e corporativas com os fornecedores e também com os empregados do nosso sector», conclui.

Pelo menos 14 marcas internacionais anularem encomendas e ou se recusam a pagar os produtos já fabricados ou exigem descontos, segundo a organização Worker Rights Consortium.

Vietname perde milhões

A indústria têxtil e vestuário vietnamita pode sofrer perdas de aproximadamente 427 milhões de euros causadas pelo novo coronavírus. De acordo com um dos principais grupos têxteis do país, o Vinatex, a pandemia continua a ter impacto no sector, com o atraso e o cancelamento de pedidos de expedição, o que vai gerar perdas de postos de trabalho.

«Da forma como estão as coisas, 30% a 50% dos empregos terão desaparecido em maio», assevera o CEO do Vinatex, Le Tien Truong. A empresa, que tem uma quota de cerca de 10% no Vietname e é detida em parte pelo Estado e em 15% pela empresa japonesa de trading Itochu, contempla o despedimento temporário de até 50 mil trabalhadores entre as 100 mil pessoas que emprega nas suas cerca de 200 fábricas no país.

Vietname

O impacto do novo coronavírus emergiu em fevereiro, quando a China deixou de enviar matérias-primas. Quando se retomou alguma normalidade em março, uma segunda onda começou a arrasar a indústria vietnamita, devido à quebra da procura por parte dos EUA e da Europa. As fábricas no Vietname foram autorizadas a manterem-se abertas, mas as encomendas não estão a chegar, com o Ministério da Indústria e Comércio a estipular uma quebra de cerca de 70% em valor nas encomendas de têxteis e calçado. O Vinatex, que tem a Zara e a H&M como clientes, antecipa uma perda de um bilião de dong (cerca de 40 milhões de euros) mesmo que o surto fique controlado no final do ano. O valor corresponde quase ao dobro do lucro de 510 mil milhões de dong que teve em 2019.

O sector têxtil é responsável por cerca de 10% das exportações em valor do Vietname.

Sinais negativos na Índia

As fábricas de têxteis e vestuário estão a começar a reabrir em algumas regiões da Índia, mas a situação é pouco encorajadora, segundo os empresários. Empresas como a Century Textiles and Industry, Gokaldas Exports, Filatex e outras PMEs nas regiões de Karnataka, Ludhiana e Tiruppur encetaram a atividade a 25% da sua capacidade laboral. «Embora tenhamos iniciado as operações na nossa unidade, a produção de vestuário não faz sentido a não ser que 90% dos nossos mercados, interno e externos, reabram e a procura do consumidor retome», explica R K Dalmia, presidente da Century Textiles and Industry ao jornal Business Standard, afirmando que «o ano fiscal 2020/2021 pode ser um fiasco para os atores da têxtil».

Índia

O estudo “Measuring Impact of Corona Pandemic on Indian Apparel Export Industry” da Rajesh Bheda Consulting (RBC) revela que, em média, as fábricas de vestuário indianas registaram 1,5 milhões de dólares (1,39 milhões de euros) em pedidos adiados ou cancelados, o que se pode traduzir num impacto de 4,17 mil milhões de dólares em todo o país. Embora os resultados do estudo sejam baseados numa amostra pequena (77 inquéritos online), refletem a dimensão do desafio enfrentado pelas empesas inquiridas, assim como o seu potencial impacto numa indústria de vestuário avaliada em cerca de 17 mil milhões de dólares, refere a RBC. Mais de metade das empresas (56%) garantiu ter pagamentos adiados, enquanto 19% indicaram que as marcas se recusaram a pagar a totalidade dos pedidos. «Quando extrapolamos os resultados da pesquisa ao nível da indústria exportadora de vestuário, pode resultar em encomendas adiadas ou canceladas na ordem dos 4,17 mil milhões de dólares», aponta Rajesh Bheda, diretor da RBC, sublinhando que «isso representa quase 25% das exportações anuais de vestuário do país». Em risco está ainda a subsistência de 12,9 milhões de trabalhadores do sector.

Também na Turquia o cancelamento de encomendas e o alargamento do prazo para os pagamentos por parte de marcas e retalhistas mundiais estão a colocar uma enorme pressão sobre a indústria de vestuário do país.