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Associações querem esclarecer máscaras

Com as máscaras comunitárias a serem postas em causa em diversos países europeus, a ATP e a ANIVEC emitiram um comunicado conjunto onde sublinham a importância das máscaras comunitárias no combate à pandemia e a falta de bases científicas para discriminar as máscaras têxteis de nível 2.

«Durante o período da pandemia, as máscaras têxteis foram utilizadas por milhões de pessoas, tendo demonstrado serem capazes de as proteger adequadamente», refere o comunicado assinado por Mário Jorge Machado, presidente da ATP – Associação Têxtil e Vestuário de Portugal, e por César Araújo, presidente da ANIVEC – Associação Nacional das Indústrias de Vestuário e Confecção.

As associações lembram que a diretiva emitida a 14 de abril de 2020 pelas autoridades portuguesas identificou as especificações técnicas e a categorização de máscaras por tipo de utilizador, tendo sido estabelecidos dois níveis: nível 2, para a utilização por profissionais expostos ao contacto com muitas pessoas, que não profissionais de saúde; e o nível 3, para a utilização pela restante população.

«A diferença entre estes dois níveis reside no desempenho da filtração de partículas, sendo acima de 70% para as de nível 3 e acima de 90% para nível 2», destacam as associações, que lembram que o teste da capacidade de filtração é definido pela norma EN 14683:2019, a mesma que é usada para máscaras cirúrgicas, «o que demonstra a confiabilidade dos testes de ensaio», salientam.

Mário Jorge Machado

As máscaras cirúrgicas tipo I têm uma capacidade de filtragem igual ou superior a 95%, as de tipo II igual ou superior a 98% e as de tipo IIR têm uma capacidade de filtração igual ou superior a 98%. Já as máscaras tipo FFP2 têm um requisito de filtragem superior ou igual a 94% e as de FFP3 acima de 98%, sendo estas últimas testadas sob a norma EN 149: 2001 + A1:2009.

«Na situação atual que existem novas estripes do SARS-CoV 2, com maior capacidade de contágio, será necessário fazer uma avaliação científica, que clarifique se as máscaras de nível 3 (filtração de partículas >= a 70%) deixaram de ser eficazes», consideram as associações, que sublinham, contudo, que «as máscaras de nível 2 (filtração de partículas acima de 90%), têm um nível de eficácia de retenção de partículas ao mesmo nível das cirúrgicas, pelo que qualquer discriminação relativa às máscaras de nível 2, não tem nenhuma razão sustentada cientificamente».

Mudanças nos critérios

O comunicado da ATP e da ANIVEC surge numa altura em que diversos países europeus mudaram de política em relação às máscaras comunitárias face à disseminação das variantes de Covid-19 provenientes do Reino Unido, África do Sul e Brasil. Na semana passada, a Alemanha tornou o uso das FFP2 obrigatório nos transportes públicos e em lojas, tendo sido seguida pela França, que proibiu as máscaras de tecido feitas em casa e aconselhou a utilização de máscaras cirúrgicas ou FFP2.

Já esta semana, a Áustria tornou obrigatório o uso de máscaras FFP2 por pessoas com mais de 14 anos em transportes públicos, estabelecimentos comerciais, farmácias, hospitais e clínicas.

César Araújo

Em Portugal, a Ministra da Saúde, Marta Temido, anunciou no início da semana que questionou a Direção-Geral da Saúde sobre a necessidade de rever as medidas de prevenção contra a covid-19. «Não há ainda recomendações adicionais concretamente sobre a questão das máscaras ao nível do Centro Europeu de Controlo de Doenças e temos sempre alinhado as nossas posições com as recomendações internacionais. Estamos muito atentos e logo que haja alguma informação que coloque alguma necessidade de adaptação, fá-lo-emos», indicou Marta Temido.

Já a Sociedade Portuguesa de Pneumologia divulgou ontem, 26 de janeiro, um parecer onde afirma que «deverá ser considerada a obrigatoriedade de uso de máscaras cirúrgicas, podendo ser considerado, apenas em alternativa, o uso de máscaras comunitárias certificadas pelo CITEVE que, cumprindo os critérios de filtração de partículas, respirabilidade e boa adesão à face e nariz, conferem uma proteção comparável». Considera ainda que «nos contextos de maior risco, nomeadamente os cuidadores de doentes ou famílias com elementos infetados por Covid-19, ou situações associadas a maior aerossolização e disseminação de gotículas respiratórias, deverá ser equacionado o uso de máscaras FFP2».

Adaptar a indústria

De acordo com as associações, se a proibição de utilização de máscaras têxteis na Alemanha, França e Áustria se mantiver e for alargada a outros mercados, pode significar uma perda de 15 a 20 mil postos de trabalho na indústria têxtil e vestuário. «Não faltam máscaras reutilizáveis em Portugal devidamente certificadas, de acordo com a norma EN 14683, ou seja, com as mesmas especificações técnicas dos dispositivos médicos, como as máscaras FFP2, garantindo uma capacidade de filtração acima dos 90%, por isso, não conseguimos entender estas medidas tomadas avulso e sem conhecimento científico», afirmou César Araújo ao Diário de Notícias.

António Braz Costa

«As máscaras sociais salvaram a economia. Foi graças a elas que pudemos pôr fim ao primeiro confinamento. E a grande maioria da população comprou as de nível 3, as que têm a capacidade de filtração mais baixa, acima dos 70%, mas que funcionaram perfeitamente. Os números dos contágios ao longo destes meses todos provam-no. Se agora as novas estirpes exigem uma proteção mais elevada, acima dos 90%, que isso não sirva para promover as máscaras cirúrgicas ou os respiradores, em detrimento das máscaras comunitárias de nível 2. Que garantem o mesmo nível de proteção da saúde, mas são ainda melhores porque são sustentáveis e reutilizáveis», acrescentou Mário Jorge Machado ao mesmo jornal.

Uma das soluções avançadas pode passar pela colocação de um selo visível nas máscaras têxteis certificadas pelo CITEVE, cujo diretor-geral, António Braz Costa, já alertou para os problemas das máscaras FFP2, nomeadamente a sua pior respirabilidade. «As máscaras FFP2 são muito boas no que diz respeito à filtração, mas têm um conjunto de outros problemas. Têm problemas no campo da respirabilidade, podem ter problemas no campo da acumulação de CO2», referiu, em declarações à Lusa.

Ao Diário de Notícias, António Braz Costa deixou a recomendação à indústria «que se prepare para a eventualidade dos níveis de proteção aumentarem, fazendo máscaras com capacidade de filtração acima dos 95%» e que as empresas «deem os passos necessários para obterem a marcação CE das suas máscaras».