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Ataque à reciclagem

A reciclagem de fibras vai permitir à moda avançar em direção a uma economia circular e são já vários os processos no mercado. Para além dos exemplos internacionais, também em Portugal há quem faça da reciclagem e da reutilização uma realidade, como é o caso da Penteadora, da JF Almeida e da designer Daniela Duarte.

Eileen Fisher

Com o tema da economia circular na ordem do dia, a reciclagem assumiu uma importância ainda maior e a indústria da moda tem procurado encontrar soluções que permitam melhorar a sua pegada ecológica e deixar de ser uma das indústrias mais poluidoras do mundo.

À medida que a população e o consumo atingem novos níveis, torna-se essencial encontrar sistemas alternativos para a produção de fibras, uma área onde a reciclagem têxtil se destaca, aponta o WGSN.

Há, por isso, uma grande margem de progressão e uma enorme oportunidade para as entidades envolvidas na cadeia de aprovisionamento adotarem práticas positivas. Ao selecionarem sistemas atuais para a reciclagem de fibras e investirem em inovações para o futuro, as empresas podem conseguir reduções de resíduos e de custos, ao mesmo tempo que respondem à crescente exigência, por parte dos consumidores. de sustentabilidade e transparência.

Resíduos pré-consumo

Os resíduos têxteis pré-consumo são, atualmente, o recurso mais viável para reciclar e regenerar fibras. Os restos de fios, tecidos e malhas recolhidos em fábricas e os desperdícios resultantes da produção são um recurso valioso que, de outra forma, acabam em aterros ou incinerados. Como primeiro passo, o foco tem de ser reutilizar os restos da produção, indica o WGSN, quer integrando-os de novo no processo de design ou reciclando e dando origem a novas fibras.

Para Kate Goldsworthy, da Textiles Environment Design, as fibras têxteis podem ser recicladas através de dois métodos: reciclagem mecânica e reciclagem química. Os processos mecânicos degradam as fibras com cada ciclo de reciclagem, enquanto a reciclagem química pode dar origem a fibras de elevada qualidade, cada vez mais semelhantes, em termos de qualidade, às fibras virgens.

Atualmente, a maioria dos processos de reciclagem à escala industrial existe apenas para a reciclagem mecânica de algodão. Contudo, sublinha o WGSN, as inovações na reciclagem química e mecânica estão a desenvolver-se para responder às composições com misturas e assegurar a qualidade das fibras recicladas. A Relooping Fashion Iniciative, por exemplo, desenvolveu um método que permite a reciclagem continuada de tecidos à base de celulose sem químicos perigosos nem a necessidade de adicionar fibras virgens.

Reciclar fibras naturais

À medida que a população mundial continua a aumentar, a prioridade para a utilização da terra será a produção de alimentos. Com menos espaço para cultivar fibras, é necessário reinventar as fibras naturais existentes no final da sua utilização. Atualmente, refere o WGSN, há apenas processos à escala industrial para reciclar mecanicamente algodão, não existindo unidades a grande escala para as composições com misturas.

Recover

As fiações estão, no entanto, a usar métodos inovadores para dar o melhor acabamento às qualidades recicladas. A Recover produz fios em mistura usando algodão reciclado, tendo feito o upcycling de mais de 2,9 milhões de quilos de resíduos têxteis em 2017. O Ecotec da Marchi & Fildi usa restos da indústria têxtil não-tingidos e transforma-os em fios prontos a tingir. A Lenzing desenvolveu a Refibra, que é feita de polpa e restos de algodão resultantes das operações de corte na indústria.

Em Portugal, há igualmente diversas iniciativas neste sentido. A JF Almeida está a usar os desperdícios da tecelagem para criar um novo fio, composto por 90% de algodão e 10% de poliéster, tudo completamente reciclado. Já a Penteadora usa os desperdícios das fiações do Grupo Paulo de Oliveira, separados por cor e composição, para a linha Reborn, que oferece fios 100% lã ou 60% lã/40% poliéster.

Na indústria de denim, a Alliance for Responsible Denim está a «trabalhar no sentido de um modelo de negócios para a introdução e aumento de escala da produção de denim reciclado pós-consumo». Isso poderá resultar em elevados ganhos em termos sustentáveis, já que as fibras recicladas são usadas na produção de denim.

Soluções para sintéticos

Com a produção de poliéster a usar óxido nitroso e grandes quantidades de água e energia, reciclar parece ser o melhor caminho. A utilização crescente de poliéster reciclado reduz a dependência do petróleo enquanto matéria-prima para a produção têxtil. Produzir poliéster reciclado é melhor para o clima, emitindo, alegadamente, menos 75% de dióxido de carbono do que a produção de poliéster virgem.

Atualmente, a maioria do poliéster reciclado é proveniente de garrafas PET, sendo que 60% do poliéster é usado em têxteis. As técnicas de reciclagem de PET usam calor para derreter as fibras sintéticas, mas as inovações para reciclar tecidos de poliéster e em tecnologias de separação de misturas estão a ser desenvolvidas.

O The Regenerator, vencedor do mais recente Global Change Award, separa sistematicamente algodão e poliéster, enquanto a Worn Again usa um processo que separa corantes, contaminantes e outros polímeros para produzir poliéster e celulose equivalente a produtos virgens.

Regenerar fibras nobres

Fibras nobres como a caxemira, mohair e lã são recursos naturais e renováveis com um baixo impacto ambiental. Quando regulado, é possível minimizar a pressão sobre o meio ambiente provocada pelo excesso de pastagem, desertificação e químicos para tratamento da lã. Contudo, numa altura em que vários retalhistas estão a tomar uma posição contra a utilização de fibras derivadas de animais, que impacto é que isso terá na produção de fibras animais virgens? Com a Topshop, a H&M e a Marks & Spencer a proibirem a utilização de mohair e a Asos a retirar mohair, seda e caxemira da produção até 2019, as coisas vão ter de mudar.

Stella McCartney

As propostas resultantes da reciclagem de fibras nobres podem servir as marcas e os consumidores, diminuindo a necessidade de produzir qualidades virgens. A caxemira Re Verso é feita em Itália a partir de resíduos pré-consumo e permite, alegadamente, uma redução de 92% do impacto ambiental quando comparada com a versão virgem. Resíduos têxteis pré-consumo selecionados são convertidos em fibras através de um processo mecânico, que são novamente fiadas, numa linha de produção completamente rastreável e transparente. Os fios Re Verso têm sido usados por Stella McCartney, o que mostra a sua semelhança com as fibras virgens e adequabilidade para todos os mercados.

Resíduos pós-consumo

O estudo “Pulse of the Fashion Industry” sugere que «a maior parte das marcas de moda têm ainda de perceber as oportunidades de um foco maior na fase de utilização final na cadeia de valor».

Atualmente, os resíduos pós-consumo são incinerados, enviados para aterros ou reciclados para reutilização ou exportação. O envio de vestuário para países em desenvolvimento pode gerar negócio, mas há um argumento que sugere que, na verdade, os países desenvolvidos estão apenas a despejar lixo e a criar um sistema de dependência. Sistemas de identificação de têxteis mais sofisticados vão dar melhores oportunidades para a reciclagem de resíduos pós-consumo – o que é particularmente relevante com a mudança da legislação relativa à importação de têxteis.

Uniqlo

O Compromisso Sistema de Moda Circular 2020 pediu às marcas que se comprometessem a recolher e reciclar o vestuário, ao mesmo tempo que aumentam as fibras têxteis recicladas pós-consumo. Apenas um ano depois, 93 empresas, que representam 207 marcas e cerca de 12% do mercado mundial de moda, assinaram o compromisso. Os retalhistas da high-street estão a reagir aos sistemas de recolha de vestuário pós-consumo, com a iniciativa All-Products Recycling da Uniqlo a entregar 25 milhões de peças de vestuário a refugiados e deslocados a nível mundial desde 2006.

Consumidor exige mudança

O interesse dos consumidores na sustentabilidade está a aumentar rapidamente. Um estudo da Unilever concluiu que 33% dos consumidores procuram ativamente e compram marcas que são responsáveis em termos ambientais e sociais.

Filippa K

As credenciais “verdes” são essenciais para captar a atenção e a confiança destes consumidores. A Patagonia conseguiu isso através de uma mensagem clara de boas práticas, usando atualmente uma panóplia de matérias-primas recicladas, incluindo poliéster, poliamida, algodão, lã e até penugem.

Há mais marcas a perceberem a necessidade de explorar soluções de reciclagem, incluindo a Eileen Fisher, a Ecoalf e a Filippa K.

Designers em ação

A Redress é uma organização não-governamental com sede em Hong Kong que trabalha para reduzir os resíduos têxteis na indústria da moda. A celebrar o seu 10.º aniversário, a Redress, foi pioneira na Ásia como explicou a fundadora Christina Dean numa edição passada do Jornal Têxtil. A mais recente vencedora do concurso da Redress, lançado em 2010 com o objetivo de inspirar os estudantes e designers de moda a desenvolverem coleções de vestuário com o mínimo de resíduos têxteis, foi Kate Morris, que apresentou uma coleção completamente produzida com materiais reutilizados, incluindo excessos de fio pré-consumo doados pela fiação Filmar e resíduos pós-consumo da Traid.

Daniela Ponto Final

Também a marca de vestuário de senhora Reformation ganhou muitos seguidores pelo seu foco ecológico. O seu modelo de negócio usa stocks de tecido para reduzir o desperdício e faz pequenas produções para estimular o interesse dos consumidores.

Da mesma forma, embora seja um exemplo não citado pelo WGSN, também a designer portuguesa Daniela Duarte tem usado restos de stocks de tecidos vintage para produzir as coleções da sua marca daniela ponto final.