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Auditório lotado para debater a ITV

A Casa das Artes em Vila Nova de Famalicão viu o seu grande auditório lotado com os 400 interessados no seminário do MTV –Movimento do Têxtil e do Vestuário, subordinado ao tema «A Têxtil Portuguesa no horizonte 2010: prospectiva e reflexão». Joaquim Cardoso, na qualidade de presidente do Conselho Geral do MTV, abriu a sessão realçando a actual pertinência no acompanhamento da evolução dos mercados, da concorrência, da tecnologia e dos canais de distribuição para a ITV nacional. Nelson de Souza, presidente da Comissão Executiva do MTV, apresentou uma agenda para a competitividade da ITV, com os desafios de uma mais agressiva concorrência internacional, dado o alargamento a leste da UE e a eliminação das barreiras alfandegárias em 2005 e respostas necessárias por parte das empresas, associações e poderes públicos. Urge um “reposicionamento em segmentos menos expostos à concorrência da mão de obra barata e integrar produção com distribuição”. Foram adiantados os projectos já aprovados pelo POE, designadamente a constituição de redes cooperação empresarial, plataformas de reflexão e proposta relativos a assuntos que melhorem a competitividade do sector, um estudo prospectivo denominado [email protected] com a participação do Cenestap e a colaboração no projecto de têxtil e calçado “infashion.pt”. Bill Lakin, director geral da Euratex, realçou que não se tem conseguido ir muito longe nas negociações em defesa do sector. Chegou a perguntar-se: ”O que se passa em termos de OMC? ” E respondeu laconicamente: “Nada!”. Fez questão de elogiar a participação nacional na ultima conferencia da OMC em Doha, e salientou que foram um «balde de água fria» as recentes políticas americanas no campo da agricultura e do aço, mas não se podem baixar os braços. Teresa Moura, ex-secretária de Estado dos Assuntos Europeus, salientou que a ITV é ainda hoje uma importante geradora de emprego e riqueza, e que “o futuro da UE já começou com a terceira fase da UEM e com a decisão do alargamento aos países de leste”. Falamos de um mercado de mais 170 milhões de consumidores. A Polónia merece uma observação mais atenta pelo seu recente desenvolvimento e a resposta nacional não pode passar por uma estratégia defensiva, mas pelo dinamismo, pela aposta em mercados até agora mais fechados e com a força das parcerias que se puderem estabelecer. Jorge Neto, deputado da AR, realçou a importância de uma estratégia de resposta para evitar tornar a nação numa economia de serviços e de sub-contratação, tendo em linha de conta os fulcrais desafios da globalização e do equilibro orçamental. A globalização pode significar aumento de riqueza, como se confirma com os casos da China e da Índia. Os reforços estruturais nas carentes áreas da Saúde, Justiça e Educação permitirão ajudar a resolver os problemas de eficiência e produtividade de que a economia nacional padece. Recorde-se que o investimento na educação foi o principal responsável pelo desenvolvimento económico no caso da Irlanda. Salientou a necessidade de priorizar a promoção de produtos e empresas portuguesas a nível diplomático, de fomentar uma maior cultura de rigor e responsabilidade e de investir no maior valor acrescentado do produto nacional. Augusto Mateus, ex-ministro da Economia e presidente do Conselho Estratégico do MTV, frisou que estabelecer uma estratégia nunca é perda de tempo, que o verdadeiro valor acrescentado está no conhecimento e que o governo deve apostar numa política industrial. A Europa dos quinze ainda é uma potência do têxtil – a representar em 2000 mais de 30% das exportações para o resto do mundo – mas continua a perder terreno neste domínio, tendo o valor exportado descido 13% quando comparado com 1999. No bloco europeu, destacou as descidas em 2000 dos valores da exportação do nosso país e do gigante alemão, e a notória subida da Espanha. No novo quadro competitivo, importa aperceber uma nova relação entre oferta e procura, podendo falar-se numa economia de procura, e no crescimento qualitativo da intensidade do conhecimento e do conteúdo da informação. A inovação é imprescindível, e deverá ser rápida e liderante, envolvendo soluções com produtos muito diferenciados e recursos específicos com competências dinâmicas. Mateus realçou que o problema nacional da falta de competitividade não é de falta de esforço, mas de inteligência e “afinação” das apostas que se fazem. Para além disso, “Portugal chega frequentemente com atraso aos desafios, e quando se chega atrasado não se pode ir com a maré, mas sim contra a maré”. Jean de Jaegher, presidente da Marzotto – empresa com 1.757 milhões de euros de volume de negócios em 2001, contando com cerca de 12 mil empregados e detentora da Hugo Boss e Marlboro Classics, entre outras – referiu a necessidade de redefinir mercados em termos de produção. Serão considerados três grandes protagonistas comerciais: Nafta e Mercosur, Ásia com a China à cabeça e uma zona Euro-mediterrânica. A Turquia e os países de leste são os países com maior crescimento de emprego no têxtil e vestuário, e Portugal já tem muitos países em situação de vantagem em termos de custo de mão-de-obra. A Europa deverá manter a liderança na criatividade e inovação tecnológica e será fundamental uma parceria global desde a matéria-prima até à distribuição do produto. Finalmente desvendou a actual aposta desta empresa nas marcas de vestuário, vulgo linhas da Hugo Boss, com a recente aposta na Boss Woman por exemplo, em detrimento do têxtil. José Maria Castellano, conselheiro-delegado da Inditex, explicou como o fenómeno deste grupo, detentor da Zara e Massimo Dutti, entre outras, passou de um negócio de 3 mil euros nos anos 60 para 3 mil milhões de euros em 2001. Pode falar-se em 3.250 mil milhões de euros de vendas em 2001, 340 mil milhões de euros de lucro, 1.359 lojas em 41 países e já com uma presença em Itália. Um crescimento anual das vendas de 26%, crescimento dos lucros de 28% e estar actualmente a enviar artigos para as suas lojas duas a seis vezes por semana completam o fenómeno. Espanha representa 46% das vendas do grupo, e o resto da Europa 31%, na lógica da rapidez de resposta que caracteriza a empresa. “Cativar os clientes, oferecendo a ultima moda a preços atractivos” é o lema anunciado, envolvendo 20 mil novos desenhos de peças por ano e um actualização diária do sistema informático global que regista as preferências do cliente. O veículo publicitário são as próprias lojas, criteriosamente localizadas e decoradas. Em termos de fabrico, recorre a subcontratação em 50% das colecções, sendo estas produzidas numa semana, contra três meses do modelo tradicional de produção. No encerramento, Joaquim Cardoso apresentou algumas vantagens comparativas da ITV nacional a não desperdiçar, nomeadamente a qualidade e a resposta rápida, que aliadas à moda e ligando a produção à distribuição formariam o modelo de sucesso. Salientou o papel regulador e incentivador do Governo, transmitindo-lhe algumas das actuais preocupações do sector. Independentemente das vantagens de redução da burocracia e do novo sistema de atribuição de incentivos por mérito, deverá ser readaptado, na revisão do POE, o acesso exclusivo ao SIME por capitais de risco e pela banca. Será imprescindível promover a regulação do mercado de trabalho e recuperarem-se os fundos reembolsáveis no âmbito do programa IMIT. Por fim, Carlos Tavares, ministro da Economia, referiu que veio para ouvir os empresários. Salientou que o Estado não tem criado o ambiente propicio à mudança e que, aludindo ao contexto do campeonato do mundo de futebol que decorre, grande parte da responsabilidade tem sido deste “árbitro”. Este doravante irá deixar jogar as empresas livremente, sentido para o qual estão definidos instrumentos e objectivos no actual programa para a Produtividade e Crescimento da Economia, mas sobre o qual