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Automação promove regresso da confeção

Os robots de costura, conhecidos por sewbots, e a automação com base em inteligência artificial ainda não estão a fazer regressar a produção de vestuário aos países desenvolvidos, mas os especialistas acreditam que isso pode acontecer nos próximos tempos.

SoftWear Automation [©SoftWear Automation]

A utilização dos sewbots, que podem substituir as costureiras humanas, e de outros robots parecem estar prestes a transformar a cadeia de aprovisionamento do vestuário e a facilitar o regresso da produção aos países desenvolvidos, que atualmente dependem de centros de produção em outsourcing em países de baixos rendimentos, a maior parte das vezes a milhares de quilómetros dos consumidores.

Os retalhistas online e as pequenas marcas novas detidas por millennials estão atualmente a impulsionar o regresso da produção para os países consumidores, argumentando que envolve uma pegada ambiental mais baixa graças a uma redução no transporte e menos desperdício de inventário. Contudo, as grandes marcas estão hesitantes devido ao investimento e aos custos operacionais.

Palaniswamy Rajan, presidente do conselho de administração e CEO da SoftWear Automation, com sede em Atlanta, nos EUA, cujos sewbots conseguem confecionar t-shirts num processo completamente automático, avisa que as marcas maiores e mais estabelecidas vão continuar «retardatárias e não líderes» no regresso da produção impulsionada pela tecnologia. Vão esperar por massa crítica para desenvolver a produção mais próxima, antes de dar o salto e interromperem as rotas atuais da cadeia de aprovisionamento, prevê.

No entanto, destaca Palaniswamy Rajan, a tecnologia com inteligência artificial pode assegurar que esta visão está a tornar-se disponível para o sector do vestuário. «Os nossos swebots pegam em peças cortadas de tecido como input, colocam-nas numa série de passos automáticos e fazem uma t-shirt acabada», revela ao Just Style.

Palaniswamy Rajan [©SoftWear Automation]
O CEO da SoftWear Automation esclarece que a tecnologia de automação é uma combinação de «robótica avançada própria, visão computacional, inteligência artificial e tecnologias de Internet das Coisas», permitindo escalar a produção por encomenda. Uma t-shirt pode ser produzida e enviada em 48 horas, afirma, reduzindo os custos de transporte, o desperdício e a poluição.

Atualmente, 98% das t-shirts importadas para os EUA são fabricadas em países de mão de obra barata. «Queremos mudar isso», sustenta. «Queremos fazer mil milhões de t-shirts nos EUA na próxima década. As questões de sustentabilidade na indústria têxtil são horrendas e a automação e o regresso da produção podem resolver esses problemas», acrescenta Rajan. Os sistemas da sua empresa permitem, aos produtores, terem zero inventário e não fazer nada até ter uma encomenda.

Ironicamente, tendo em conta os custos mais baixos que levaram à busca por centros produtivos mais longínquos, o CEO prevê que vai haver uma segmentação da indústria entre os artigos de preços mais altos que devem ser feitos manualmente, talvez noutros mercados, e a «automação para itens de elevado volume e preço baixo, e é aí que a produção mais perto pode ser um verdadeiro benefício».

Covid-19 impulsiona mudanças

Um impulsionador do regresso da produção ao mundo desenvolvido tem sido a pandemia de Covid-19, que expôs a vulnerabilidade das cadeias de aprovisionamento globais, algo que foi sublinhado num estudo de 2020 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

A vulnerabilidade mais óbvia e imediata apontada foi a demasiada dependência das multinacionais da China, tanto em inputs intermédios como na produção, refere a OIT, que confirmou que a pandemia e a interrupção da cadeia de aprovisionamento «deu urgência às discussões sobre o reshoring e o onshoring e a reestruturação das cadeias de aprovisionamento mundiais em geral», incluindo uma avaliação mais profunda da automação.

O estudo, denominado “Robotics and reshoring – Employment implications for developing countries” sublinha que este processo pode significar más notícias para os países produtores low-cost que usaram as exportações de têxteis e vestuário para atingirem o crescimento económico. Se as tecnologias de automação substituírem o trabalho rotineiro manual relativamente barato, «as vantagens comparativas de custos dos países em desenvolvimento nas cadeias mundiais de aprovisionamento podem erodir-se e isso pode resultar num cada vez maior regresso da produção e do emprego aos países desenvolvidos», considera a OIT.

A organização cita estatísticas de 2016 que sugerem para que os trabalhadores da indústria têxtil, vestuário e calçado nos países da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) tenham o maior risco de perder o seu emprego por causa da automação: 64% dos trabalhadores na Indonésia, 86% no Vietname e 88% no Camboja.

No entanto, eles estão relativamente protegidos pelo «impedimento fundamental» colocado por questões técnicas da automação total na indústria de vestuário. «Isto resulta da flexibilidade dos tecidos, cujas peças têm de ser perfeitamente alinhadas antes de serem costuradas, algo que uma mão e um olho humano podem facilmente fazer, mas que coloca enormes desafios para a automação», salienta o estudo. Este desafio é exacerbado pela vasta gama de produtos de vestuário, pelas rápidas mudanças na procura de produtos (como na fast fashion), variedade de propriedades dos diferentes têxteis e pela gama de tamanhos.

Transformar desafios em oportunidades

Mas os desafios são oportunidades e a Sewbo, uma empresa sediada em Seattle, nos EUA, usa uma mistura de robots e máquinas de costura para criar t-shirts, enrijecendo temporariamente as malhas para permitir aos robots costurarem a peça de vestuário, como se estivessem a trabalhar com metal.

«As peças de tecido podem facilmente ser moldadas e soldadas antes de serem permanentemente cosidas» por robots.

O endurecedor solúvel em água da Sewbo é removido no final do processo de produção com uma passagem por água quente e pode ser usado novamente.

Este tipo de solução «pode, em princípio, acomodar a procura em rápida mudança da indústria da moda», realça o estudo da OIT.

Sewbo [©Sewbo]
Um outro relatório, também da OIT, mas de maio de 2020, chamado “Automation, employment and reshoring in the apparel industry – Long-term disruption or a storm in a teacup?,” destaca o facto da automação poder ser usada para fabricar, eficientemente, pequenas quantidades de artigos «de uma forma que os processos intensivos em mão de obra não seriam capazes. Neste contexto, responder à procura por bens customizados pode impulsionar a automação na produção de vestuário e calçado».

A subida nos custos dos transportes juntamente com os aumentos nos preços dos combustíveis e das questões internacionais de logística estão a criar «a tempestade perfeita» para impulsionar iniciativas de regresso da produção aos países desenvolvidos, admite o consultor Michael Sanders, da americana Digital Bias Consulting.

«Estamos num momento de viragem», afiança ao Just Style. «E a automação é a parte boa. Devemos voltar a fazer ótimos produtos de uma forma mais verde. Só é necessário que o nosso governo diga que quer os empregos de volta e podemos ter a indústria de volta aqui», acredita.

«Temos a força de trabalho mais cara com os equipamentos mais velhos, mas com novos equipamentos não precisamos de tanta mão de obra, por isso podemos pagar salários mais altos, o que significa que não faria sentido fazer em mais lado nenhum. Toda a gente está a ver o que pode fazer melhor localmente», sublinha.

Sanders considera que se o mercado americano de vestuário estiver baseado na produção no país, haverá menos dependência do negócio de exportação, assim como de importações, e essa transformação pode «mudar todo o cenário da cadeia de aprovisionamento».

Contudo, Patrick Van den Bossche, partner da empresa de consultoria Kearney, que publica anualmente um índice de reshoring, indica que trazer de volta a produção de têxteis e vestuário aos EUA tem de ser abordado de «uma perspetiva de cadeia de valor transversal para ter uma visão completamente dos custos, etc., para identificar oportunidades».

Segundo explica ao Just Style, «há um elevado grau de não-valor acrescentado, passos intensivos em termos de mão de obra em cada fase da cadeia de valor, assim como passos intermédios na cadeia de valor, por exemplo, no manuseamento dos materiais. Isso é particularmente verdade para o corte e costura, onde a maior parte das operações apenas têm cerca de 20% de tempo “ativo”, enquanto o resto é não-valor acrescentado. Essas ineficiências têm de ser reduzidas, automatizadas ou eliminadas».

É necessário igualmente que os produtores tenham em conta o custo de renovar as fábricas para a automação quando avaliam a possibilidade de trazer a produção para o país ou para mercados vizinhos de forma a reduzir os custos ao longo da cadeia de aprovisionamento, concluiu Patrick Van den Bossche.