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AuxDefense anuncia conferência mundial

A 3 e 4 de setembro de 2018, os especialistas em defesa vão reunir-se em Lisboa para partilhar conhecimentos na área dos equipamentos militares. Um evento no qual as empresas que trabalham para este sector terão igualmente um papel importante, como foi anunciado no workshop que decorreu hoje em Braga.

«Um dos objetivos do AuxDefense é responder ao triângulo de ligação entre a parte da ciência, os utilizadores e as empresas. Não faria sentido organizarmos uma conferência que não incluísse a parte técnico-científica ligada às empresas. Daí, as empresas que tenham soluções ligadas aos sistemas de proteção, às várias áreas de utilização na defesa, quer seja na parte do exército, da marinha ou da força aérea, vão poder apresentar essas soluções a partir de uma exposição de produtos físicos», detalhou, ao Portugal Têxtil, Raul Fangueiro, professor da Universidade do Minho e coordenador da plataforma Fibrenamics.

A quase um ano de distância, a conferência conta já com representantes de todo o mundo, dos EUA à Índia. «No início não estávamos a pensar numa coisa tão ambiciosa, que fosse uma conferência mundial nesta temática. Quando comecei a apresentar a ideia a alguns colegas a nível internacional, começámos a ver que a temática era importantíssima e que havia espaço para um debate alargado à volta dos materiais avançados para a defesa. É importantíssimo, além dos resultados que temos obtido, essa questão de nos afirmarmos a nível técnico-científico internacionalmente com o conhecimento que geramos cá», explicou Raul Fangueiro ao Portugal Têxtil.

Resultados promissores

Iniciado em 2016, o projeto AuxDefense – cuja proponente é a Tecminho, através da plataforma Fibrenamics, e que conta com o envolvimento da Universidade do Minho, da Força Aérea, do Exército, das empresas Fibrauto, IDT Consulting, Latino, LMA e Sciencentris e ainda da Universidade de Plymouth e da Universidade Politécnica de Hong Kong (ver Dar o corpo às balas) – está já na fase de «prototipagem e validação das soluções no terreno», indicou, durante o workshop, Raul Fangueiro.

No âmbito do projeto foram desenvolvidos capacetes, coletes balísticos e joelheiras e cotoveleiras e, embora parte dos resultados e dos processos envolvidos não possam ser divulgados, uma vez que estão sob a alçada do Ministério da Defesa Nacional, que financia o AuxDefense, os dados públicos mostram o sucesso da iniciativa.

No caso do capacete, os modelos atuais foram estudados e revelaram alguma dissimetria e uma espessura inconstante. Uma questão corrigida com o protótipo desenvolvido pelo AuxDefense, que além de uma estrutura tridimensional auxética, integra no interior uma estrutura biomimética das teias de aranha, com enchimento que garante a distribuição da carga em caso de impacto. Além disso, tem características que permitem um maior conforto ao soldado, nomeadamente respirabilidade, transferência de humidade e controlo térmico. A casca superficial do capacete, por seu lado, tem uma maior rigidez, conferida pela integração de nanotecnologia. «Mesmo reduzindo a massa dos capacetes em 45%, conseguimos com estes materiais ficar muito aquém do que é definido pela norma [em termos de perfuração e trauma]», apontou o professor da Universidade do Minho. O protótipo vai agora avançar para a fase de certificação.

No caso do colete balístico, os requisitos incluíam proteção ao corte e à perfuração, impermeabilidade, inclusão de um insert flexível e insert rígido de proteção balística e características de conforto, como, distribuição de cargas, facilidade de limpeza e ajuste. A solução encontrada integra nanotecnologia, polietileno de elevada densidade molecular, estruturas 3D funcionalizadas e materiais auxéticos e «permitiu reduzir em 20% o peso do colete relativamente ao que está no mercado», referiu Raul Fangueiro.

Já as joelheiras e cotoveleiras tinham como objetivo a redução do peso, conseguido com uma solução – atualmente em fase de ensaio – que integra uma estrutura encapsulada, que está a ser alvo de patente, que combina «alguns polímeros com estruturas fibrosas», elucidou Raul Fangueiro.

Guerra do futuro

Soluções que vão ao encontro das tendências e das necessidades antevistas para os soldados do futuro.

Segundo o Coronel Armando Barros, do Centro de Investigação, Desenvolvimento e Inovação da Força Aérea (Cidifa), a guerra do futuro será mais tecnológica, numa tendência igualmente avançada por Felipe Pathé Duarte, professor do Instituto Superior de Ciências Policiais e Segurança Interna. «A tecnologia já era importante, mas tornou-se mais importante. As oportunidades de I&D que temos neste contexto são extremamente abrangentes», afirmou Armando Barros. «O futuro, na minha opinião, há de ser, no longuíssimo prazo, a guerra completamente tecnologizada e naves não tripuladas, mas acho que isso está muito distante. Provavelmente nas próximas décadas vamos ter a combinação do tripulado com o não tripulado», acredita.

Já o Major Simão Sousa, do Centro de Investigação da Academia Militar (Cinamil), destacou a importância de reduzir não só o peso dos equipamentos mas também a carga térmica e as preocupações com a sobrecarga cognitiva. «O futuro vai caminhar não só para os sistemas não tripulados, mas principalmente para a interação entre o homem e outros dispositivos», justificou. «Quando fazemos equipamentos, temos de os fazer simples, porque combater ainda é uma coisa bastante instintiva e os aparelhos que usamos devem servir para aumentar o nosso potencial e não para o restringir», acrescentou.

Fernando Cunha, CEO da Sciencentris, asseverou que «existem tendências muito bem definidas», avançando que «no caso da defesa, estamos sempre a falar de um objetivo comum: manter as mesmas propriedades ou até tentar melhorar essas propriedades mecânicas, químicas ou biológicas, mas sempre com redução de peso». Por isso mesmo, a nanotecnologia terá um papel importante. «Outra área é a monitorização – por exemplo, usar materiais como nanotubos de carbono, que através das propriedades piezorresistivas, que já são intrínsecas ao próprio material, conseguimos fazer a monitorização», adiantou.

Atualmente em Portugal, referenciou Luís Arsénio, da Direção-Geral de Recursos da Defesa Nacional, as tecnologias prioritárias definidas pela defesa nacional incluem materiais avançados, materiais energéticos, sensores e tecnologias radar, biotecnologias e nanotecnologias, entre outras, havendo, por isso, oportunidades de financiamento para as empresas e entidades que trabalhem nestas áreas, «quer em termos europeus, no âmbito do Horizonte 2020, quer nacionais, sob a alçada do Ministério da Defesa Nacional», concluiu.