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Bactérias salvam denim

Um estudo recentemente publicado na revista Nature Chemical Biology detalha um novo processo de tingimento obtido a partir de bactérias que pode ajudar a indústria do denim a fazer as pazes com o meio ambiente ao imitar as funções do índigo sintético atualmente utilizado.

Embora ainda não seja comercialmente viável, a técnica é promissora, considerando «a atualização necessária do processo de tingimento com índigo, histórico, mas insustentável», escrevem os investigadores na revista Nature Chemical Biology, citada pela AFP. «A procura pelo corante é maior do que nunca, tornando as suas consequências insustentáveis», advertem.

Originalmente extraído de plantas, o índigo é um dos corantes mais antigos, começando a ser utilizado há 6.000 anos, apreciado por ser vibrante e duradouro. No início dos anos 1900, começou a produzir-se índigo sintético. Os cristais de índigo aderem facilmente às fibras de algodão dos jeans e são resistentes às lavagens.

O estudo revela que são produzidas aproximadamente 45 mil toneladas de índigo sintético e cerca de 95% desse total tem como destino a produção de artigos de denim. Os investigadores alertam, por isso, para «um grave problema de sustentabilidade».

O primeiro perigo, consideraram, é o facto de a produção requerer o uso de produtos químicos tóxicos, como formaldeído e cianeto de hidrogénio. Além disso, o índigo sintetizado é insolúvel em água, o que significa que são necessários produtos químicos para o preparar para o tingimento.

Para se perceberem os impactos negativos que o tingimento pode ter no planeta, basta apenas olhar para os rios na China e no Bangladesh – têm a cor das coleções da estação, devido à eliminação inadequada de corantes

«Muitas tinturarias evitam o custo adicional do tratamento de águas residuais, acabando por fazer descargas poluentes nos rios, algo que tem graves impactos ambientais», sublinha a equipa de investigadores.

O método agora apresentado imita o processo que utiliza a planta japonesa Persicaria tinctoria. Mas, em vez de uma planta, a equipa desenvolveu uma estirpe da bactéria E. Cóli em laboratório.

Tal como a planta, a bactéria produz um composto chamado indoxilo, que é insolúvel e não pode ser usado como corante. Ao adicionar uma molécula de açúcar, o indoxilo é transformado em indican – um precursor do índigo. O indican pode ser armazenado e transformado em índigo diretamente sobre o tecido a tingir, adicionando uma enzima à mistura.

O objetivo passa agora por transformar o processo em algo comercialmente viável, segundo o co-autor do estudo, John Dueber, do departamento de Bioengenharia da Universidade da Califórnia. Neste momento, para produzir cinco gramas de indigo para tingir um par de jeans são necessários «vários litros de bactéria», refere Dueber, e seria mais caro.