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Bangladesh a ferro e fogo

Quase dois anos depois do incêndio que matou 29 pessoas numa empresa de produção de vestuário no Bangladesh, a tragédia repetiu-se no fim de semana passado, com a morte de 111 trabalhadores e 110 feridos no incêndio da Tazreen Fashion Ltd, sediada em Ashulia, nos arredores de Dhaka. Mais de metade dos 2.000 trabalhadores da empresa estavam nas instalações quando o fogo deflagrou no domingo à noite, com muitos a alegadamente saltarem para a morte para tentar escapar do edifício de oito pisos. Outros morreram queimados ou sufocados no edifício. O incêndio, que terá tido início num curto-circuito, é alegadamente o pior na história da indústria de vestuário do Bangladesh, que exporta anualmente cerca de 20 mil milhões de dólares (15,43 mil milhões de euros). A Tazreen Fashion, subsidiária do Tuba Group, fornece clientes como a retalhista C&A e a gigante do sourcing Li & Fung. E agora juntou-se a um infame rol de nomes que inclui a Garib & Garib, a That’s It Sportswear (uma unidade do grupo Hameem) e Eurotex, onde trabalhadores perderam a vida em incêndios nas suas instalações. A Associação de Produtores e Exportadores de Vestuário do Bangladesh já formou um comité com quatro membros, liderado pelo vice-presidente de finanças, S.M. Mannan (Kochi) para analisar o incêndio. «Já começamos a investir o incidente», indicou Kochi, acrescentando que os trabalhadores que conseguiram fugir já foram entrevistados. «Esperamos que o comité apresente o relatório com recomendações nos próximos cinco dias», afirmou. Embora esta catástrofe tenha colocado a questão dos incêndios e da segurança de edifícios de novo no centro das atenções, o que tem sido feito não parece suficiente para impedir a tragédia. Depois do incêndio na That’s It Sportswear, em dezembro de 2010, que matou 29 pessoas e feriu outras 100, houve inúmeros pedidos para uma revisão das regras de segurança na indústria de vestuário do Bangladesh. Mas apenas no início deste ano – e após várias críticas pela aparente falta de ação – foram vistos os primeiros sinais de progresso. Novas regras de segurança A produtora de vestuário americana PVH (que detém as marcas Calvin Klein e Tommy Hilfiger) e a retalhista alemã Tchibo deram passos para introduzirem novas regras de segurança anti-incêndio no Bangladesh, trabalhando de perto com sindicatos locais e internacionais e outros grupos de direitos laborais. A PVH Corp empenhou um milhão de dólares como parte de um projeto de dois anos que se foca na segurança dos edifícios e contra incêndios. Os planos incluem criar um programa de formação dentro da empresa, criar comités de saúde e segurança na fábrica, rever as atuais regras para os edifícios e sua implementação, e desenvolver um mecanismo para os trabalhadores poderem denunciar riscos para a saúde e segurança. E a Tchibo pretende criar inspeções independentes aos edifícios, formação em direitos dos trabalhadores, transparência pública e uma revisão das regras de segurança como parte do seu programa de segurança de edifícios e contra incêndios. A retalhista Gap Inc, entretanto, decidiu avançar sozinha. O seu próprio projeto de monitorização das fábricas, criado em outubro, envolve a contratação de um inspetor de segurança contra incêndios para supervisionar as fábricas de vestuário do Bangladesh que produzem para as suas marcas e emprestar até 20 milhões de dólares aos seus fornecedores para melhorias de segurança. Mas os sindicatos e organizações de direitos laborais querem ver as marcas e retalhistas internacionais a fazerem mais para responder a estas questões de segurança nas fábricas de todo o mundo. «Enquanto ainda choramos a perda dos trabalhadores da indústria de vestuário no Bangladesh, pedimos que as marcas virem o jogo», explicou Ineke Zeldenrust, do grupo de direitos dos trabalhadores Clean Clothes Campaign (CCC). «Tragédia após tragédia mostra a nossa crença de que mudanças simples, cosméticas aos programas existentes, simplesmente não são suficientes. É preciso tomar ações para responder às causas destes incêndios», indicou. A CCC, por exemplo, está a pedir inspeções independentes e transparentes, uma melhoria obrigatória dos edifícios e uma revisão de todas as leis existentes e regulamentos de segurança. Quer ainda que as marcas e retalhistas se comprometam a pagar preços que possam cobrir os custos envolvidos e o envolvimento direto dos sindicatos em formação dos trabalhadores em higiene e segurança. Uma indústria em jogo Há muito em jogo para a indústria de vestuário do Bangladesh – o segundo maior fornecedor de vestuário – para que estes problemas fiquem por resolver. O sector é o mais exportador do país, contribuindo com mais de 16% do PIB, quase 80% das exportações e dando emprego direto a cerca de 4 milhões de pessoas, 80% das quais mulheres. Há 5.400 fábricas de vestuário, localizadas sobretudo em Dhaka, Saver, Gazipur, Narayanganj e Chittagong, que produzem para marcas e retalhistas internacionais como a Gap, Tesco, JC Penney, Wal-Mart, H&M, Kohl’s e Marks & Spencer. Mas mais de 700 trabalhadores morreram desde 2006 devido a edifícios inseguros, más instalações elétricas, saídas de emergência fechadas ou inexistentes, escadas bloqueadas com produtos e materiais de produção e falta de ventilação. A regulamentação de segurança é também muitas vezes ignorada. O baixo preço do trabalho no Bangladesh, que ajudaram o país a entrar na cadeia de aprovisionamento mundial para vestuário básico, é também visto como parte do problema. Muitas vezes os donos das empresas são tentados a aceitar encomendas com prazos de entrega curtos, subcontratando para responder às datas de entrega ou margens de lucro e a segurança acaba muitas vezes por ser menosprezada. O Bangladesh não é, contudo, o único país com problemas de segurança na produção de vestuário. Em setembro, mais de 300 trabalhadores de vestuário e calçado morreram em dois incêndios em fábricas em Karachi e Lahore, no Paquistão – um dos piores acidentes industriais que alguma vez aconteceram no país.