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Bangladesh em luta com o euro

As principais entidades do sector temem que o declínio do valor da moeda única europeia reduza as margens de lucro dos exportadores do Bangladesh, enfraquecendo a sua capacidade de competir na Zona Euro. Por sua vez, os analistas advertem para a potencial necessidade de recurso à cobertura cambial e diversificação de mercado como forma de maximizar as vendas e receitas. Dados divulgados pelo Banco Central do país indicam que o valor do euro face à taka do Bangladesh (BDT) caiu 17% desde julho de 2014. A depreciação da moeda europeia teve um impacto particularmente danoso sobre o sector de vestuário do Bangladesh, que reconhece na Zona Euro o seu principal parceiro comercial, recebendo três quartos das expedições anuais de merchandising do país. «A queda do euro tem tido repercussões graves», revela Atiqul Islam, presidente da Associação de Fabricantes e Exportadores de Vestuário do Bangladesh (BGMEA na sigla inglesa), lamentando o facto de esta ter coincidido com um momento de instabilidade política nacional, que tem limitado a circulação no território do país. «Se a tendência do euro se prolongar, iremos perder para os países concorrentes», afirma, acrescentando que «a instabilidade política terá um impacto negativo no longo-prazo». Salim Osman, presidente da Associação de Fabricantes e Exportadores de Vestuário de Malha do Bangladesh (BKMEA na sigla inglesa), partilha das mesmas preocupações. Ambos os problemas estão a limitar o número de encomendas, obrigando os produtores a reduzir a produção em cerca de 40% nos últimos dois meses. Em consequência, as empresas do Bangladesh veem-se impedidas de «beneficiar da queda dos preços do petróleo e do algodão no mercado internacional. As pessoas não compram matérias-primas», esclarece. Zahid Hussain, economista do Banco Mundial em Daca, reconhece que a depreciação do euro terá um impacto negativo sobre os lucros dos exportadores que transacionam na zona do euro: «Os preços são fixados em euros e, assim, os exportadores obterão menos takas face à mesma quantidade de euros», explica, acrescentando que o impacto será determinado pela duração da baixa da moeda única europeia. A proteção face à volatilidade das taxas de câmbio deve ser, portanto, uma prioridade das empresas, adverte Abul Basher, investigador do Instituto de Estudos de Desenvolvimento do Bangladesh. Outra tática, sugere Basher, poderá incluir a diversificação rumo a outros mercados. «Duas das três maiores economias do mundo estão localizadas na Ásia: a Índia e a China, em conjunto, representam cerca de 45% da população mundial, apresentando um enorme potencial como mercados de destino das exportações provenientes do Bangladesh», aponta. Se, por um lado, a política de flexibilização quantitativa do Banco Central Europeu (BCE) tem contribuído para a depreciação do euro, a solução poderá estar na venda de títulos do BCE, proposta como uma medida de estímulo à economia da zona do euro, admite Hussain. «Nesse caso, os efeitos adversos sobre o lucro podem ser neutralizados pelos resultados positivos da procura», explica. Nos sete meses anteriores a janeiro, o Bangladesh arrecadou 14, 4 mil milhões de dólares em resultado das exportações de tecidos e vestuário de malha, de acordo com dados divulgados pelo gabinete governamental para a promoção das exportações nacionais. Porém, os efeitos nocivos não se estenderam a todas as entidades da indústria. O Grupo Ananta, produtor de vestuário baseado na capital Daca, que auferiu 165 milhões de dólares em exportações no decorrer do ano passado, saiu ileso da crise do euro. Apesar de 60% dos seus produtos terem como destino o território europeu, a empresa utiliza o dólar como moeda referencial, apreçando a sua produção nessa moeda. «Exportamos em dólares mesmo para a Europa, por isso a derrapagem do euro não nos afeta», refere o diretor Sharif Zahir. No entanto, mesmo os exportadores que operam em dólares na Zona Euro vão «agora enfrentar a pressão no sentido de diminuírem o preço das suas exportações», alerta Basherm, já que os retalhistas a quem se destinam os produtos transacionam em euros. Instabilidade política Várias instituições, incluindo a BGMEA e a BKMEA, interpuseram já ações judiciais no sentido de restringir os bloqueios e greves que persistem desde janeiro. Desde então, as agências de rating têm advertido para as consequências negativas da instabilidade política prolongada, que afeta a confiança dos investidores e representa uma ameaça para o sector do pronto-a-vestir nacional. A Fitch Ratings relembra que, apesar da resiliência da economia do país em situações de instabilidade anteriores, «o risco estrutural mais profundo para o Bangladesh, resultante da polarização em curso e repetidos surtos de violência, é o potencial impacto que essas ações poderão ter sobre o investimento estrangeiro no longo-prazo. Deslocar fábricas para outros países e substituir grandes fornecedores são processos demorados. Como tal, seria difícil avaliar, a curto-prazo, de que forma a continuação da violência afetaria a confiança do investidor estrangeiro no Bangladesh enquanto centro de produção». O sector de vestuário é um elemento essencial à estratégia de desenvolvimento do Bangladesh e representa 81% das exportações do país, o equivalente a 15% do PIB nacional. «A concentração de exportações neste sector significa que a sua desaceleração estrutural ou qualquer tendência mais ampla de transferência de ativos de produção para outros países poderia ameaçar o potencial de crescimento do Bangladesh no longo-prazo e arriscar uma deterioração potencialmente dramática das contas externas do país, incluindo a sua conta corrente, que passaria de excedente a deficitária», conclui a agência de rating.