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Bangladesh, um ano depois

Quando o complexo do Rana Plaza colapsou a 24 de abril do ano passado, gerou uma condenação internacional das condições da indústria de vestuário do Bangladesh e alguma análise sobre como as nossas roupas são feitas. As estatísticas do acidente são chocantes. Mais de 1.100 pessoas morreram e mais de 2.500 ficaram feridas, mas a resposta de grande parte da indústria mundial foi uma de ação. Houve a aceitação de que a segurança e condições de trabalho do país não eram suficientemente boas e esforços concertados de marcas, retalhistas, ONGs e sindicatos para fazer algo em relação a isso. Um dos agentes de mudança mais importantes é o Acordo de Segurança de Edifícios e Incêndios no Bangladesh, que tem agora como membros 165 marcas e associações de 25 países. Está atualmente no processo de inspecionar todas as fábricas de vestuário do país que fazem vestuário para os seus membros. No entanto, o progresso até agora tem sido mais lento do que o inicialmente esperado. Alan Roberts, diretor-executivo de operações internacionais do Acordo Bangladesh, afirma que a interrupção causada pelas eleições no início do ano levou a que o prazo original de abril fosse adiado. «Estamos atrasados nas inspeções porque em novembro, dezembro e janeiro não conseguimos mobilizar ninguém, era demasiado perigoso», afirma. «O prazo é agora setembro/outubro e estamos no caminho certo para o conseguir», acrescenta. Segundo Roberts, cerca de 400 fábricas foram inspecionadas até agora, num universo de 1.500 que deverão ser sujeitas a inspeção, com os proprietários a mostrarem-se recetivos ao processo. «Em termos de abordagem que tivemos das fábricas, ficamos mais do que agradavelmente surpreendidos», indica. «Os proprietários acolheram bem a iniciativa e ligam-nos quando sabem que está alguém na área a pedir-nos para irmos e inspecionarmos as suas fábricas», acrescenta. O maior desafio tem sido lidar com o governo, as associações comerciais e as pessoas no terreno, aponta Roberts. «Por causa de uma história de falta de confiança, precisamos de provar que somos sérios. A sua história de lidar com múltiplos atores no passado é de falta de progresso», sustenta. O que Acordo concluiu até agora pode ser descrito como misto. Roberts descreveu os padrões de construção como «muito dúbios», e embora a lei seja clara, o que é também claro é que essas regras não estão a ser implementadas. «O que estamos a encontrar é que nenhuma das fábricas que inspecionamos cumpre completamente o código de construção, mas apenas em oito tivemos de pedir uma suspensão temporária da produção», afirma. «Mas vai haver mais encerramentos», acredita. Os próximos passos Mas em muitos aspetos, as inspeções das fábricas estão apenas no início. É depois, quando o processo de resolver os problemas e, mais importante, financiar esse processo, que os grandes desafios vão surgir. «O princípio do Acordo é que os proprietários paguem, mas as marcas têm a responsabilidade de assegurar que há acesso a financiamento», indica. Isso pode vir sob a forma de bolsas, empréstimos com juros reduzidos ou até através de pagamentos diretos. Tudo tem de ser discutido e negociado, e não apenas com os donos das empresas mas com todas as marcas que usam uma determinada fábrica. No entanto, com algumas fábricas a necessitarem, provavelmente, de grandes renovações, por exemplo a instalação de sistemas de combate a incêndios ou trabalhos estruturais em edifícios – sem mencionar financiar os salários se a empresa ficar parada durante um período –, acordar quem paga o quê vai ser difícil. Se a isso se acrescentar o facto de que algumas fábricas estarão igualmente a trabalhar com marcas que não fazem parte do Acordo mas do grupo rival Aliança para a Segurança dos Trabalhadores no Bangladesh – que tem um nível diferente de empenho das suas marcas e não está legalmente obrigado como está o Acordo –, então a conversa tem o potencial de ficar cheia de desafios. «Há muito poucas empresas onde haja apenas uma marca», afirma Roberts. «Por isso apontamos uma marca líder que depois tem de trabalhar com a fábrica e com outras marcas para criar um plano. E o financiamento. As questões de financiamento serão uma negociação. Não haverá uma abordagem de um serve para todos. Vamos ter de ser ágeis e sentarmo-nos à mesa», destaca. Roberts está, contudo, otimista de que, com a continuação da dedicação e colaboração das marcas, o atual processo é o que o Bangladesh precisa para assegurar uma indústria de vestuário mais segura. «O que é preciso é que as marcas estejam à altura dos seus compromissos para com o Acordo. Precisam de se chegar à frente e trabalhar de forma eficiente e, se fizerem isso, temos boas hipóteses de que funcione», acredita. O Acordo é um compromisso legal de cinco anos e durante esse período tem ainda um papel educacional importante. Sobretudo, uma vez que o Acordo apenas monitoriza as fábricas que produzem vestuário para os seus membros, porque o governo do Bangladesh ainda tem a responsabilidade sobre mais de 2.000 fábricas não exportam. «Queremos deixar um legado que seja gerido localmente para assegurar que a segurança não retrocede. Queremos deixar um organismo de monitorização», explica. Quanto ao próprio acordo, tem havido especulação de que algo semelhante possa ser usado noutros países fornecedores. Mas Roberts afirma que primeiro há mais trabalho a fazer no Bangladesh. «O Acordo está apenas focado nas fábricas de pronto-a-vestir no Bangladesh, não nos têxteis-lar ou no calçado. Primeiro, queremos alargar a abrangência no Bangladesh porque terão, sem dúvida, os mesmos problemas. Depois talvez possamos criar um modelo de trabalho para outros países», conclui.