Início Notícias Tecnologia

Bio-wearables ganham força no mercado

Os wearables estão a ser usados para alterar e melhorar as nossas capacidades, focando-se em novas áreas da performance, saúde e bem-estar. Mais do que apenas dispositivos de monitorização, parece estar perto uma época em que a tecnologia estará verdadeiramente integrada no nosso corpo.

No clássico filme de 1987, Robocop, o herói, inspirado em diversas bandas desenhadas, é um polícia que, após ter sido assassinado por criminosos, regressa à vida como um ciborgue superhumano. Hoje, o mundo está mais perto dessa realidade, com os wearables a assumirem, parcialmente, o controlo do nosso corpo, de acordo com um artigo sobre biowearables publicado pelo WGSN.

Um estudo da Juniper Research citado pelo WGSN sugere que o crescimento dos wearables está a abrandar no que diz respeito a smartwatches e pulseiras de fitness, à medida que as pessoas avançam para wearables que ou estão integrados ou trabalham numa troca de informação simples com o utilizador.

O mercado total de wearables deverá atingir os 350 milhões de dispositivos em 2020, com os dispositivos clássicos, usados no pulso, a deverem representar apenas 190 milhões do total e os restantes a representaram novos tipos de wearables que começam a emergir. Só o vestuário inteligente deverá atingir 30 milhões de unidades até 2022, um crescimento de 550%, em comparação com 20% de crescimento nos dispositivos clássicos.

Uma evolução rápida

O vestuário carregado por energia solar surgiu pela primeira vez em 1996, pensado para manter o utilizador quente ao mesmo tempo que podia carregar a bateria de um telefone. Em 2003, a Garmin lançou o Forerunner 201, um dispositivo com clip que usava tecnologia GPS para informar os corredores da sua velocidade, distância e passada. Em 2008 surge o Fitbit Tracker e, no final dá década 2000, a Fitbit dominava o sector dos wearables com uma quota de mercado de 30%.

Mas o panorama tem vindo a mudar nos últimos anos. A Omsignal entrou no mercado em 2011 com o “smartwear biométrico” – t-shirts com fios condutores embebidos que monitorizam o ritmo cardíaco e respiratório, os níveis de intensidade e as calorias queimadas. 2013 trouxe os Google Glass, que embora nunca tenham chegado ao mercado de massas, abriram as portas para uma segunda versão que deverá chegar em breve. Os Apple Watch chegaram ao mercado em 2015, tendo-se tornado rapidamente no dispositivo wearable mais vendido da primeira metade desta década.

«O futuro promete trazer a otimização, com os wearables a irem além da monitorização para melhorar a nossa performance. Os dispositivos passíveis de serem embebidos por baixo da nossa pele estão a chegar, para uma experiência completamente integrada», aponta o WGSN.

O chamado bio-hacking, isto é, a utilização da ciência e da tecnologia para alterar a nossa biologia, foi um dos temas em destaque na conferência sobre tecnologia, música e cinema SXSW. Esta forma de interagir com a nossa saúde, performance e bem-estar pode ser manifestada através de wearables que oferecem uma conversa nos dois sentidos entre o nosso corpo, assim como a evolução de próteses que podem alargar a nossa capacidade física.

Performance de topo

Uma nova geração de wearables está a entrar no mercado com o objetivo de equilibrar os nossos sinais vitais e melhorar a nossa performance através da recuperação.

Thync

Manter os atletas focados e com energia é essencial para que consigam a melhor performance possível. O Thync Relax é um dispositivo wearable discreto que fica na base do pescoço e “pirateia” as ondas cerebrais através de tecnologia de ultrassons com o objetivo de subir os níveis de energia ou baixar o stress e a tensão para acalmar e permitir a concentração. O dispositivo é usado antes ou depois da atividade desportiva para permitir aumentar o foco e a recuperação de energia. A colocação no pescoço permite chegar aos nervos periféricos para influenciar a função cerebral. Isy Goldwasser, cofundador da Thync, revela que grandes jogadores de basebol estão já a usar o dispositivo para aliviar a ansiedade de viajar e a performance.

A recuperação e o descanso é igualmente fulcral. A Dreamlight é uma nova máscara para dormir que usa luz, som e inteligência artificial para encorajar um sono perfeito. O objetivo é acordar e adormecer as pessoas na melhor altura para o corpo de cada um, assegurando a duração e intensidade mais adequada. Alguns genótipos determinam que tipo de sono é que cada um precisa de ter e a máscara deteta isso e dá recomendações com base nisso. Depois de reunir dados suficientes, começa a dar conselhos sobre como a pessoa deve controlar o sono, para uma recuperação ótima.

EmbrWave

Já o Embr Wave é um conceito wearable que oferece alívio térmico com o toque de um botão, permitindo ao utilizador aquecer ou arrefecer. Mudanças drásticas na temperatura podem ter um impacto negativo na performance e aumentar a probabilidade de doenças relacionadas com o calor. Durante o exercício, em média apenas 20% a 30% da energia corporal é convertida para o trabalho físico, enquanto 70% a 80% é libertada como calor. Baixar a temperatura pode alterar este equilíbrio. Para ser usado especialmente após o treino, o Embr Wave pode também ajudar a acelerar a recuperação.

Monitorização

As peles e pensos eletrónicos estão a fazer incursões na observação. A sua proximidade com a pele torna-os ideais para monitorizar os sinais vitais, alertando o utilizador para tomar medidas.

Um fator essencial para os atletas na manutenção da saúde e da performance é a hidratação. A marca de bebidas Gatorade, a Força Aérea dos EUA e a Universidade Northwestern juntaram-se para produzir um wearable que faz uma calibração da hidratação. O suor move-se pelos canais no penso, reagindo com agentes químicos para criar uma mudança de cor que funciona como uma representação dos níveis de hidratação do utilizador. A pessoa consegue ver os seus níveis de eletrólitos e hidratar se necessário, antes de atingir níveis de exaustão ou desmaiar. O dispositivo tem ainda a vantagem do preço, devendo chegar ao mercado com um valor de 3 dólares (cerca de 2,65 euros).

Gatorade

As peles eletrónicas conseguem também monitorizar e alertar o utilizador em relação aos seus sinais vitais. A Universidade de Tóquio e a empresa japonesa de impressão Dai Nippon criaram uma pele eletrónica que monitoriza e mostra em tempo real dados biométricos através de um ecrã adaptável. Micro-LEDs criam grafismos básicos na pele que fornecem o sumário dos sinais vitais. Se algo não estiver bem, por exemplo, com o ritmo cardíaco, o utilizador é avisado através do ecrã. Neste momento ainda em desenvolvimento, esta pele eletrónica é capaz de esticar até 45%, mantendo-se, no entanto, como um dos wearables mais duradouros.

«Para além dos cuidados de saúde, tecnologia como esta pode ser integrada em programas de treino para atletas para monitorizar as suas reações e ajudar a criar um plano de melhoria», refere o WGSN.

Também o que ingerimos tem um papel central no nosso estado de saúde, uma área particularmente importante para os atletas. Os wearables estão a entrar igualmente neste domínio com a ajuda de investigadores da Escola de Engenharia da Universidade de Tufts, nos EUA, que criaram um sensor quadrado de apenas 2 mm para ser aplicado nos dentes. Este sensor deteta os nutrientes e os químicos nos alimentos ingeridos, transmitindo isso a uma app que qualifica a informação.

Próteses do futuro

As próteses estão a evoluir para além da função inicial de substituir membros, permitindo atualmente aumentar as capacidades do utilizador, quer ele tenha ou não uma deficiência física. A impressão 3D acelerou a oportunidade para as próteses se tornarem pessoais: desenhadas e produzidas para uma pessoa em específico, com um ajuste e peso perfeito, que melhora a performance.

Mike Schultz

O atleta paralímpico americano Mike Schultz tem competido em diversos Jogos Olímpicos com próteses que ele próprio desenhou e produziu. O seu sucesso e compreensão da competição enquanto amputado levou-o a desenhar e produzir próteses personalizadas para outros atletas, tanto rivais como colegas de equipa. Usando a sua experiência como motociclista, incorporou elementos de absorção de choque e flexibilidade patenteada e fundou a sua empresa, a Biodapt.

As novas peles eletrónicas estão focadas em criar sensações anteriormente não possíveis para os utilizadores de próteses e amputados. Este sentido do tato pode ser adicionado às próteses para dar um feedback sensorial adicional, ajudando os atletas com deficiência ao fornecer dados sobre a pressão que estão a aplicar.

As próteses estão também a fazer uma incursão na otimização do corpo. A aluna da Royal College of Art, Dani Clode, criou o “Terceiro Polegar”, que dá ao utilizador maior movimento e acessibilidade, aumentando as suas capacidades naturais. Isso definiu uma nova área de desenvolvimento que desafia a perceção de prótese como algo para ajudar apenas pessoas com deficiências visíveis, permitindo, ao invés, que se torne um elemento para melhorar a performance.

Dani Clode

A Apple irá também, no próximo ano, lançar emojis com deficiências e um braço biónico.

Com base em todas estas mudanças, «as marcas têm de estar atentas para criarem vestuário e produtos que possam adaptar-se às próteses, permitindo movimento extra, ajustes mais eficientes e potencialmente carregamento incorporado», sublinha o WGSN.

Vestuário inteligente

Os exoesqueletos aceleram a ideia de otimização corporal, indo além de um membro e melhorando o corpo como um todo. Essencialmente, os wearables robóticos funcionam como um apoio alargado para os que precisam de ajuda ou como um guia para os que querem alterar a sua técnica na prática.

Embora as regras sejam ainda pouco claras ao nível de competição, os atletas podem usar estes robôs para melhorar a sua performance e o seu treino, permitindo-lhes praticar mais tempo através do aumento do apoio, assistência e indicações.

Roam Robotics

A Roam Robotics é uma das startups que está a mudar a perceção dos exoesqueletos. A equipa da empresa acredita que é preciso repensar o que sabemos sobre design assistido, preferindo otimizar materiais leves, incluindo tecido e ar, e atribuir uma estética discreta. Os designs podem funcionar para o dia a dia ou serem específicos para um desporto, como o protótipo que desenvolveu recentemente para prestar apoio no ski. O wearable replica o movimento do utilizador para absorver o choque e fornecer proteção.

A Samsung está igualmente a usar vestuário inteligente como uma nova incursão nos wearables para treino. O fato inteligente que desenvolveu dá aos atletas olímpicos dados sobre os seus treinos. Os fatos têm vários sensores que transmitem para o smartphone do treinador informação em tempo real sobre a posição do atleta. O treinador pode assim enviar vibrações, também em tempo real, para o fato, sugerindo ao atleta que este necessita de alterar a sua performance ou posição.

Samsung

Os exoesqueletos ou tecnologias de fatos inteligentes podem ser integrados em camadas de base ou vestuário exterior para fornecer apoio e diretrizes sobre o movimento.

«As marcas podem olhar para os fatos inteligentes para criar experiências de treino interativas, guiadas pelos seus próprios atletas», resume o WGSN.

Uma questão de energia

Com estes novos desenvolvimentos em biowearables e bio-hacking, os próximos desenvolvimentos são assegurar que estão sempre com bateria, para uma experiência sem problemas.

Recolher energia das fibras, modificações e adições na pele tornaram-se áreas-chave de inovação.

Num projeto colaborativo entre a Universidade de Buffalo e o Instituto de Semicondutores da Academia Chinesa de Ciência, os investigadores desenvolveram uma pequena placa metálica que adere ao corpo para gerar eletricidade a partir de movimentos simples. Ainda em fase de desenvolvimento, os nanogeradores dentro da placa conseguem, em teoria, produzir energia suficiente para alimentar 48 lâmpadas LED.

Twistron

Também os têxteis inteligentes estão em ascensão nesta área. Desenvolvido pela Universidade do Texas, em Dallas, e pela Universidade Hanyang, em Seul, a tecnologia de fio Twistron gera eletricidade quando esticado ou torcido, ou a partir de movimento ou flutuações de temperatura. O fio é então usado na produção de malhas ou tecidos, oferecendo uma opção versátil que cria energia através do exercício.

Já Ting Liu, da Academia Chinesa de Ciências, criou uma outra forma de nanogerador que funciona como uma segunda pele transparente com grande elasticidade que recolhe energia a partir do movimento, como caminhar, correr ou pedalar. Feita com uma camada especial de hidrogel ensanduichada entre camadas de elastómero, a camada de hidrogel é revestida por silicone para evitar que seque. A flexibilidade é ideal para funcionar como uma camada discreta ou com potencial para ser transformada numa membrana que facilmente pode ser integrada no vestuário.