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Bloom no bom caminho

Os jovens talentos presentes no Espaço Bloom juntaram-se às celebrações dos 20 anos do Portugal Fashion e fizeram uma festa de moda, com propostas para a primavera-verão 2016 onde se cruzaram criatividade, ousadia, conceptualismo e liberdade de expressão.

Os foguetes foram lançados ainda em Lisboa, onde Carla Pontes e os HIBU garantiram aplausos e elogios após o desfile no Antigo Picadeiro do Colégio dos Nobres, no Museu Nacional de História Natural e da Ciência (ver Celebrar a moda).

A festa prosseguiu, contudo, a Norte, numa casa bem conhecida para alguns destes jovens talentos. Na Alfândega do Porto, Eduardo Amorim teve a honra de abrir a passerelle, ocupada parcialmente por 20 toneladas de vidro reciclado, que escorregava subtilmente entre os desfiles, estimulando não só a visão mas também a audição das muitas pessoas que não quiseram perder a oportunidade de ver as propostas dos novos designers nacionais.

“Untold”, a terceira coleção do jovem designer, é uma reflexão à situação socioeconómica da Europa e do mundo. «A inspiração surgiu a partir do que se vive na Europa, o facto de se viver uma “III Guerra Mundial”, uma guerra contemporânea, sem mortes. Os valores estão trocados. Atualmente, muita gente está a tentar entrar na Europa porque não tem culpa de ter nascido num país onde há guerra. Nós estamos a recusar a entrada e deveríamos ajudá-los», acredita.

Tudo começou com a provocação de colocar uma fita-cola na boca de algumas figuras políticas, como Angela Merkel ou Christine Lagarde, e daí se expressou uma coleção assente na «desconstrução do clássico», com casacos sem mangas ou mangas pregadas em locais inusitados e uma paleta de cores inclui preto, cinza e branco. «Todas as costuras levam fita-cola termocolada que não se vê, só quem compra a peça é que percebe. É uma mensagem escondida, por assim dizer», indica Eduardo Amorim.

Pedro Neto, pelo contrário, trouxe o amor – transmitido pela obra do americano Robert Rauschenberg – para as suas propostas da estação quente do próximo ano, dominadas pelo preto e pelo branco, com apontamentos de rosa e vermelho. Sobreposições, transparências, brilhos e plissados deram corpo a uma coleção feminina, «em que está presente o quotidiano de uma mulher e o estado assoberbado de uma intensa experiência sensitiva», revela o mais jovem designer do Bloom.

O conceptualismo dos Klar tomou conta da passerelle, numa invocação do estilo gótico onde pontuaram camisolas de golas altas com arestas, inacabadas, dando continuidade à afirmação da marca de Andreia Oliveira, Alexandre Marrafeiro e Tiago Carneiro. «O que temos feito, sempre que uma coleção termina, é trazer coisas dessa coleção para a seguinte. Tem a ver com a questão da sustentabilidade também: “Para quê abandonar ideias, se podemos continuar com elas e acrescentar algo mais?”», justifica Andreia Oliveira.

Continuidade foi igualmente palavra de ordem nas propostas sensuais de Teresa Abrunhosa, que acrescentou novos grafismos e algum brilho a silhuetas femininas, onde os minivestidos foram protagonistas, enquanto Mafalda Fonseca trouxe um “heavy feeling”, no capítulo final da viagem dos «meus rapazes», como descreve. Camisas e túnicas e calças largas e calções fazem parte das criações da designer para o homem contemporâneo e urbano para quem se dirige a sua marca. «Há uma continuidade das matérias-primas que uso sempre nas coleções. Nesta salientam-se diferentes estruturas do denim. Parto sempre das matérias-primas para chegar à coleção», revela.

No Bloom destacou-se ainda estreia de dois novos designers: Inês Marques e Tiago Silva, da marca [UN] T. Inês Marques, a estagiar com Luís Buchinho, inspirou-se na estética de Andy Vogt para criar “Lath”, que transitou para jogos e composições geométricas. «A palavra-chave para aplicações e estampados foi “ripa de madeira”», revela.

Na coleção “Unembodied”, a [UN] T expressou «a mutação entre dois corpos, representada nos tecidos». A estagiar com Alexandra Moura, o jovem designer espera que o futuro lhe sorria e que se desenhe «passo a passo».

Para Miguel Flor, coordenador do Bloom, este espaço dedicado aos jovens talentos «está a ficar cada vez mais eclético e faz todo o sentido. Não é que não fosse eclético no início, mas está a começar a encontrar o seu caminho e o caminho são os designers quem o faz». No fundo, «são cinco anos a olhar para a frente», concluiu Miguel Flor.