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Boas compras

Com acordos para duas aquisições que totalizam quase mil milhões de euros no espaço de apenas 21 dias, a Hanesbrands está a posicionar-se como a maior empresa de vestuário básico do mundo, tendo como principal trunfo a sua própria cadeia de aprovisionamento.

Depois de ter fechado o acordo, no passado dia 28 de abril, para a compra da rival australiana Pacific Brands, que detém as marcas de roupa interior e soutiens Bonds e Berlei, por cerca de 800 milhões de dólares, as ações da produtora de t-shirts e roupa interior aumentaram 9,5%.

O negócio vai dar uma contribuição imediata para os lucros, incluindo cerca de 100 milhões de dólares em lucro operacional adicional dentro de três anos. Mas a Hanesbrands, cujos produtos incluem t-shirts, soutiens, cuecas, meias e activewear, vendidos sob marcas como a Hanes, Champion, Playtex, Maidenform e Wonderbra, também espera conseguir poupanças substanciais graças a sinergias com a sua cadeia de aprovisionamento mundial de grande escala e baixos custos.

A Pacific Brands aprovisiona a maior parte da sua produção de vestuário íntimo junto de terceiros, enquanto a Hanesbrands faz mais de 80% dos seus produtos de vestuário através de uma rede de unidades próprias ou subcontratados em exclusivo na América Central, Caraíbas e Sudeste Asiático, em especial no Vietname e Tailândia. E estima que melhores eficiências de produção e um aumento da escala pode baixar os custos médios por unidade em 20% ou mais em três anos.

«Vemos uma enorme oportunidade de sinergia com a integração do negócio de roupa interior deles com o cluster asiático da nossa cadeia de aprovisionamento própria, especialmente no Vietname», afirma a Hanesbrands em comunicado após o anúncio da aquisição.

Quase 40% do volume de produção anual da empresa, que ronda os dois mil milhões de unidades, é feito na Ásia, onde a Hanesbrands emprega mais de 12 mil pessoas – 8.500 das quais estão no Vietname, onde a empresa é a maior empregadora americana. Com esta escala, o Vietname é também o centro do cluster de produção no Oriente, onde beneficia de uma combinação de salários baixos e fábricas eficientes de grande escala.

A empresa planeia continuar a aumentar a capacidade no Vietname, acrescentando valências para produzir uma variedade ainda maior de artigos nos próximos anos. E, claro, também acredita que terá «uma incrível vantagem operacional» se a Parceria Transpacífico que está a ser negociada entre 12 países do Pacífico, incluindo os EUA e o Vietname, for implementada.

Mas as oportunidades com a Pacific Brands vão além dos «típicos 15% a 20% de redução de custos que esperamos atingir ao integrar apenas os seus modelos com maior volume. Os produtos deles são muito semelhantes aos nossos produtos Hanes Europe, o que significa que há medida que harmonizamos estes produtos vamos aumentar o número total de modelos com grandes volumes que podem ser feitos “em casa”. Por outras palavras, esta aquisição não só impulsiona sinergias de produção, como aumenta os benefícios adicionais de sinergias para aquisições anteriores, o que prova o poder da nossa cadeia de aprovisionamento própria», destaca a Hanesbrands.

O negócio vai também melhorar as capacidades de design de produto, desenvolvimento e inovação que estão disseminadas pelas Américas, Europa e zona do Pacífico.

«No espaço de 10 anos, teremos transformado a empresa através de aquisições e das nossas iniciativas “Innovate-to-Elevate”», explica o CEO da Hanesbrands, Richard Noll. «Triplicamos os lucros operacionais e crescemos de uma empresa de 4 mil milhões de dólares concentrada nos EUA para uma empresa mundial de roupa interior e activewear de 7 mil milhões de dólares que abrange as Américas, a Europa e a Ásia-Pacífico. Esta fundação vai servir como catalisador para um crescimento e criação de valor ainda maiores no futuro próximo», acrescenta.

A vantagem da Austrália

A Pacific Brands será a primeira grande operação da Hanesbrands na região e dá-lhe imediatamente uma quota de mercado líder no vestuário íntimo e roupa interior na Austrália e na Nova Zelândia.

O negócio, que tem três unidades – Underwear, Sheridan e Tontine & Dunlop – foi sujeito a uma reestruturação significativa nos últimos dois anos para tornar o seu portefólio mais eficiente e centrar-se nos negócios centrais de roupa interior e artigos para a casa da Sheridan.

Um trabalho que parece estar a compensar, com a empresa sediada em Melbourne a registar um lucro de 24,3 milhões de dólares australianos (15,9 milhões de euros), o valor mais alto desde 2012. Também reviu em alta as previsões para o ano, graças a um aumento das vendas em todas as marcas.

A Hanesbrands adianta que pretende separar o negócio de almofadas Tontine e o de revestimentos para o chão da Dunlop, que juntos representam 12% das vendas e do lucro operacional.

No principal negócio, a unidade Underwear representa três-quartos das vendas e inclui roupa interior, soutiens, meias, collants, vestuário de bebé e vestuário exterior. Está atualmente a executar estratégias de crescimento para remodelar o negócio de vendas por grosso, expandir a distribuição e aumentar as vendas a retalho e online. O grupo opera mais de 150 lojas a retalho e shop-in-shops em retalhistas.

Esta unidade de roupa interior tem uma taxa composta de crescimento anual de 7%, com a Bonds a ser a marca com mais quota de mercado em roupa interior de homem, senhora, criança, em vestuário de bebé e meias, sendo ainda a terceira nos soutiens. Já a marca Berlei de soutiens premium, vendida em grandes armazéns, é a segunda marca com maior quota de mercado e é a primeira em soutiens de desporto. As vendas da Bonds aumentaram 40% desde 2013, com as vendas a retalho nas lojas próprias a aumentarem 39% no primeiro semestre do ano fiscal de 2016, impulsionadas pela abertura de novos pontos de venda e um crescimento de 22% nas vendas comparáveis.

E nos próximos três anos, assim que as sinergias estiverem completamente aproveitadas, a Pacific Brands deverá contribuir anualmente com mais de 700 milhões de dólares em volume de negócios e mais de 100 milhões de dólares em lucro operacional.

Negócios inteligentes

A mais recente ronda de aquisições da Hanesbrands começou em abril, quando tomou controlo absoluto da marca de vestuário de desporto Champion, depois de ter acordado a compra da Champion Europe, que detém a marca registada da Champion para a Europa, Médio Oriente e África. E, de acordo com o CEO, o grupo já somou 120 milhões de dólares em lucro operacional da conclusão de aquisições como a Maidenform, Hanes Europe Innerwear e Knights Apparel, e espera acrescentar mais 170 milhões de dólares resultantes de sinergias. A Champion Europe e a Pacific Brands deverão contribuir com mais 125 milhões de dólares em lucro operacional assim que forem atingidas as sinergias totais.

«Com oito aquisições em menos de seis anos, as nossas estratégias de aquisição e Innovate-to-Elevate reformularam significativamente a nossa empresa desde 2010», destaca Noles. «Nessa altura, havia apenas cinco países onde tínhamos a primeira ou a segunda posição no mercado. Tínhamos cerca de 4 mil milhões de dólares em vendas, apenas 11% das quais fora dos EUA, quase 381 milhões de dólares em lucro operacional, uma margem de 9% nas operações e cerca de 133 milhões de dólares em cash flow. Para o futuro, se tomarmos as nossas atuais previsões para 2016 e acrescentarmos as sinergias totais de todas as nossas aquisições, incluindo a Champion Europe e a Pacific Brands, seremos a maior empresa de vestuário básico do mundo com a primeira ou segunda posição no mercado em 12 países. Teremos mais de 30% do nosso volume de negócios nos mercados internacionais», frisa o CEO, acrescentando que «anualmente esperamos ter 7 mil milhões de dólares em vendas, mais de 1,1 mil milhões de dólares de lucro operacional, uma margem operacional de dois dígitos e mais de mil milhões de dólares de cash flow resultante das operações. É uma mudança extraordinária».

Um futuro risonho que Noll não quer deixar ficar por aqui. «A realidade é que apenas começamos o nosso percurso. Tendo em conta a capacidade de escala do nosso modelo de negócio e o potencial das nossas aquisições, há uma grande oportunidade para continuar a criar valor durante muitos anos», acredita o CEO.

Os analistas parecem concordar com esta visão. Michael Binetti, do UBS Investment Bank, descreve o negócio da Pacific Brands como «uma aquisição-chave» e «um grande passo» para a Hanesbrands. «Na nossa perspetiva, esta combinação torna a Hanesbrands a principal produtora mundial de vestuário básico com 30% do volume de negócios internacional (em comparação com apenas 11% há apenas três anos)», indica. O analista sublinha ainda que a aquisição «reduz a exposição da Hanesbrands a riscos como elevada dependência de retalhistas como o Walmart e Target nos EUA, que têm tido tendência a deixar de fazer stocks de categorias básicas nos últimos anos. Acrescentar a Pacific Brands ao portefólio da Hanesbrands diversifica o risco, ao mesmo tempo que aumenta o mercado possível da Hanesbrands (enfatizando que a geografia não é uma barreira) e provando que pode operar como uma verdadeira empresa mundial».