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Bolsas vencem a crise

A uma pequena viagem de carro dos palácios medievais de Florença, a cidade de Scandicci está a crescer enquanto o resto de Itália sofre com a recessão. Motivo? Bolsas. Os artesãos locais nos armazéns não identificados de Scandicci fazem artigos em pele de luxo exportados para todo o mundo por alguns dos maiores nomes da moda. A Gucci tem uma sede em Scandicci e a Christian Dior e a Chanel criaram unidades de produção na cidade. O sector inclui cerca de 2.700 produtores, a maior parte dos quais de pequena escala, e emprega cerca de 20 mil pessoas. «Os nossos diretores são pessoas iluminadas. Questionaram-se “onde é o melhor local para fazer pele? Scandicci? Muito bem, vamos mudar-nos para Scandicci”», explica Giacomo Cortesi, diretor de uma fábrica criada pela produtora de relógios e acessórios de luxo Montblanc. A unidade de trabalho com pele da Montblanc abriu em Scandicci no ano passado, depois da empresa, que pertence ao grupo de luxo suíço Richemont, ter vendido a sua unidade de pele na Alemanha. «Estamos no coração do negócio de artigos de pele e a rede está mesmo aqui. Quase que podemos visitar todos os nossos fornecedores de bicicleta», afirma Cortesi. «Basicamente, se está a comprar uma bolsa, é daqui», acrescenta. A unidade junta a tecnologia alemã e os conhecimentos de produção italianos, com um vasto conjunto de máquinas para testar a pele para qualquer tipo de clima, temperatura, uso e descoloração. Há mesmo um braço robótico que testa repetidamente a resistência das alças de couro nas bolsas Montblanc carregadas com 15 quilos de peso. A empresa de luxo está a tomar as suas precauções contra a contrafação, que está descontrolada em Itália, e aplica o seu logótipo apenas na última fase da produção ou quando já recebeu as pastas, bolsas e cintos dos seus fornecedores. O sector em Scandicci cresceu tão rápido nos últimos anos que está com dificuldades em encontrar trabalhadores suficientes, o que significa que os estudantes num liceu local que ensina técnicas para trabalhar manualmente a pele têm praticamente um emprego garantido quando se formam. «Neste momento há uma grande procura no estrangeiro pela nossa pele. Isto é verdadeiramente um motivo de orgulho para Itália», considera o estudante Francesco Gheri, que espera criar o seu próprio negócio quando concluir o curso, que é financiado pelas autoridades locais. Outra estudante, Claudia Paci, revela que o pequeno negócio de pele dos pais teve de fechar por causa da concorrência com os produtos chineses, mais baratos, e que está agora a tentar melhorar as suas capacidades para o sector do luxo, para quando o mercado estiver melhor. «A pele de luxo é realmente o caminho a seguir. É assim que podemos concorrer com a China», acredita Paci, enquanto corta formas intricadas com um escopro num rolo de pele durante a aula de criação de modelos. Os números sustentam a hipérbole – segundo os dados mais recentes, as exportações de pele de Scandicci subiram 11,3% no segundo trimestre de 2012, em comparação com o mesmo período de um ano antes. «O sector está em expansão em força», sustenta Laura Chini, diretora da Alta Scuola di Pelletteria. «Muito do sector gira à volta da Gucci. A Gucci tem aqui as suas raízes e tudo se desenvolveu com ela», acrescenta. Guccio Gucci fundou a empresa nos anos 20, fabricando artigos de luxo de gama alta inspirado pelos seus anos como bagageiro no Hotel Savoy em Londres, com uma loja em Florença e produção nos subúrbios. A empresa, que inaugurou recentemente a sua nova sede em Scandicci, está orgulhosa das suas raízes. «Tudo é feito à mão, tudo é feito em Itália», afirma Francesca Amfitheatrof, diretora do Museu Gucci em Florença, cuja coleção mostra a evolução da empresa de produtora de artigos em pele de Florença a casa de moda mundial. «A Gucci está muito próxima dos artesãos. Isso é algo que está ainda no centro da marca. É o orgulho toscano», conclui Amfitheatrof.