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Bombeiros à prova de fogo

Desde o desconforto térmico ao ruído, agentes químicos e esforço físico, os bombeiros estão sujeitos a numerosos riscos laborais. Um novo fato de proteção ajuda a garantir-lhes uma maior segurança, emitindo um sinal sonoro quando a temperatura atinge os 60ºC.

Apesar da formação rigorosa e do vestuário de proteção, estima-se que, só nos EUA, dezenas de milhares de bombeiros sofrem queimaduras durante a atividade laboral. A resistência ao calor dos seus equipamentos e a descarga de adrenalina libertada no momento de risco são a combinação perfeita para que o corpo isole os efeitos dos sentidos e deixe de sentir dor, fazendo com que os bombeiros simplesmente não se apercebam de que estão a ser queimados.

Um novo fato inteligente pode evitar estes ferimentos, alertando os profissionais quando rodeados por temperaturas perigosas, através da incorporação de sensores. A ideia surgiu da Brigada de Bombeiros Sapadores de Paris, que contabiliza 8.500 profissionais – o maior corpo da Europa e o terceiro maior do mundo. O novo desenvolvimento resultou do desafio, lançado pela equipa, à empresa têxtil belga Sioen, que fornece o seu vestuário de proteção, com o objetivo de evitar queimaduras de segundo grau no combate ao incêndio.

Em parceria com o centro de inovação Imec, a Universidade de Gante e o grupo Connect, o consórcio concebeu um sistema de sensores eletrónicos de temperatura incorporados nos têxteis, mediante fios condutores protegidos com um revestimento que impede a contaminação pelo suor. As baterias estão alojadas num espaço resistente a altas temperaturas.

Quando o bombeiro se coloca numa posição onde corre o risco de se queimar, o sistema emite um sinal sonoro, através de um altifalante próximo do seu pescoço. Os sensores começam a apitar a partir dos 60ºC, medidos na camada interna, o que significa que o calor já penetrou o equipamento. «O sensor começa a apitar e a frequência aumenta à medida que o ambiente se torna mais quente, logo o bombeiro percebe que se está a colocar numa situação perigosa», explica Frederick Bossuyt, diretor da equipa de objetos inteligentes do Imec, à Fast Company. A partir daí, «pode decidir ficar ou evacuar», acrescenta.

Ideia versus realidade

Frederick Bossuyt afirma que a «ideia faz sentido e deveria realmente existir», mas «a realidade pode ser mais complexa». Até ao momento, nenhuma peça no mercado inclui este tipo de sensores, devido à falta de regulamentação que envolve o vestuário de proteção com eletrónica integrada.

Além disso, colocam-se em causa outras fatores: os sensores têm de ser capazes de suportar temperaturas elevadas, seguros para o utilizador, laváveis e tão perfeitamente integrados no equipamento que não atrapalhem os bombeiros quando se vestem, o que não pode demorar mais do que um minuto. «O sistema tem de ser fácil de utilizar e não dar mais trabalho», aponta Vera De Glas, engenheira de investigação e desenvolvimento da Sioen, «porque os bombeiros precisam de vestir os seus equipamentos muito rapidamente», sublinha.

O protótipo criado pelo trabalho conjunto das várias empresas e organizações obedece às normas europeias definidas para o vestuário de proteção. Ainda assim, De Glas promete tomar medidas ativas para que as normas para os têxteis eletrónicos sejam atualizadas, de modo a que a empresa possa criar peças mais protetoras, sem constrangimentos regulatórios. «[Este equipamento] tem de os proteger contra o maior risco, a morte», garante.

Durante a fase de teste, o protótipo foi submetido a temperaturas de 1.200ºC e os sensores continuaram a funcionar após este aquecimento, assim como os componentes eletrónicos não apresentavam quaisquer riscos à segurança. No entanto, os bombeiros parisienses evidenciam a necessidade de se tornar a lavagem mais eficiente, sem precisarem de separar todas as partes, já que este processo afeta a rapidez com que se vestem.

Porconsequência, a questão da lavagem será o foco da segunda fase do projeto, que Vera De Glas espera estar concluído até 2023. Contudo, a engenheira encara o fato com sensores de temperatura como uma oportunidade de negócio válida para outros sectores, como a saúde ou os serviços de resgate marítimo. Por seu lado, Frederick Bossuyt acredita que, num futuro próximo, estes sensores, apesar de ainda estarem em fase de desenvolvimento, farão parte do equipamento comum dos bombeiros.