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Bons negócios à vista

No rescaldo do acordo nuclear alcançado entre o Irão e as principais potências mundiais, os investidores estão a avaliar quais as empresas que mais poderão beneficiar do fim das sanções.

Enquanto grandes produtores de petróleo e gás natural, como a BP Plc., a Royal Dutch Shell Plc. e a Total S.A. têm vindo a explorar formas de tirar partido das relações com o estado rico em energia, o acesso a 80 milhões de habitantes irá, também, revelar-se um benefício para as empresas de venda de bens de consumo, como bens alimentares, tabaco, automóveis e, naturalmente, artigos de luxo (ver Luxo invade Irão).

De acordo com os investidores e analistas, os potenciais vencedores do acordo histórico, concluído este terça-feira, incluem a Danone, Nestlé., Peugeot e o Grupo Airbus, bem como a LVMH e a British American Tobacco. «As empresas que beneficiarão de forma mais imediata são aquelas que já têm uma presença no Irão, mas que sofreram em resultado das sanções», afirma Ramin Rabii, diretor da boutique de investimentos, sediada em Teerão, Turquoise Partners, somando a Coca-Cola e a Pepsi à sua lista. Poderão decorrer seis meses até que o mercado iraniano se torne novamente acessível, segundo Ross Denton, sócio da empresa de advocacia Baker & McKenzie LLP.

No entanto, num momento em que as empresas enfrentam o fraco crescimento europeu, a espera será recompensadora. Com 120 mil milhões de dólares de receitas do petróleo bloqueados devido ao retorno aos cofres do Estado e filtro dos gastos dos consumidores, as empresas na Europa estão melhor posicionadas, refere Jan Dehn, diretor de pesquisa do fundo de mercados emergente Ashmore Group.

Demanda de laticínios
«Existem algumas vantagens resultantes da proximidade geográfica à Europa, particularmente para produtos a granel, como alimentos», aponta Dehn. «O Irão costumava ser um muito, muito grande importador de queijo feta do norte da Europa, uma grande quantidade de produtos lácteos deverão sair-se muito bem», acrescenta. O mercado de produtos lácteos do Irão valia 2,1 mil milhões de dólares em 2010 e deverá crescer, atingindo os 18 mil milhões de dólares em 2020, de acordo com a agência Euromonitor.

O comércio com o Irão auxiliará, simultaneamente, os produtores de leite afetados pela proibição imposta pela Rússia à importação de bens alimentares ocidentais. «Muitas empresas, no passado, aumentaram a produção para responder à crescente procura da Rússia e agora encontram-se sem um comprador», diz Lianne van den Bos, analista da Euromonitor. A França deverá beneficiar particularmente do fim das sanções, refletindo as relações tradicionalmente mais cordiais entre os dois países.

«Os construtores de automóveis franceses, Renault. e Peugeot, detêm grandes, mas dormentes, operações no Irão que, provavelmente, serão reanimadas», acredita Mohamad Al Hajj, um estrategista do Médio Oriente e Norte de África da EFG-Hermes UAE Ltd., no Dubai. «O Irão era o segundo maior mercado da Peugeot antes da imposição das sanções», revela. A Airbus, com sede em Toulouse, também está bem colocada, a par da rival americana Boeing Co., uma vez que o Irão dispõe de uma frota de aviões desatualizada, depois de anos de proibições de importação.

Armadilhas de luxo
As empresas de luxo francesas e italianas também esperam retirar benefícios, embora provavelmente não nas ruas de Teerão, devido às restritas normas de publicidade impostas no estado islâmico. Ao invés, tentarão seduzir turistas iranianos a dirigirem-se às lojas das marcas em países mais liberais do Golfo ou na Europa. «A parte interessante do mercado é que os iranianos vão viajar para o exterior facilmente e o impulso para viajar ao exterior será dominado pelo mais ricos», destaca Mario Ortelli, analista da Sanford C. Bernstein, em Londres.

Ortelli aponta ainda que as empresas que poderão potencialmente retirar proveito desta transformação incluem a Louis Vuitton, Hermès e Prada, bem como as subsidiárias do grupo Kering – Gucci, Bottega Venetta e Yves Saint Laurent. Simultaneamente, as empresas de tabaco estarão, também, focadas na população iraniana, que consome cerca de 52,6 mil milhões de cigarros por ano, segundo o site da British American Tobacco. «A minha aposta aqui seria a Philip Morris International, Japan Tobacco, BAT e Imperial», revela o analista da Bloomberg Intelligence, Kenneth Shea.

Riscos latentes
No entanto, apesar do apelo do Irão, permanecem dúvidas sobre a estabilidade de qualquer acordo nuclear e sobre quanto o estado permitirá que as empresas ocidentais lucrem. A BP, Shell e Total já se mostraram dispostas a investir, mas quererão certificar-se de que os termos para qualquer retorno ao país serão melhores do que os contratos oferecidos às empresas estrangeiras de petróleo no início da década de 2000. As empresas americanas deverão estar confiantes de que as negociações com o Irão não serão vítimas de um futuro embargo de relações.

«Qualquer empresa com ascendência americana arriscaria enormemente ao envolve-se com empresas iranianas sobre questões comerciais que superam o “e se?”», admite Denton, representante da Baker & McKenzie. «A remoção das sanções irá provavelmente ser considerada como um acontecimento quase permanente. Algumas pessoas vão considerá-lo como irreversível e outros vão considerá-la como uma proposta arriscada caso as condições azedem novamente», conclui.