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Boom do vestuário inteligente

Os relógios inteligentes podem em breve ser algo do passado, com a ascensão do vestuário inteligente no mercado, não só como forma de interação com diversos dispositivos electrónicos e para controlo da saúde e da atividade física, mas também como “bilhete de identidade” do utilizador.

A maior parte das pessoas está já familiarizada com o conceito de relógios inteligentes (ou smartwatches em inglês) e até óculos inteligentes, como os Google Glass. Mas estas tecnologias parecem quase ultrapassadas, pelo menos para a indústria, que avança em força para o vestuário inteligente – um universo de peças em tecido com ligações wireless, fibras informáticas embebidas e laváveis.

Prova do potencial deste mercado é a recente parceria anunciada entre a Google e a Levi’s. No evento da Google I/O 2015, o grupo de tecnologia avançada e projetos anunciou a parceria no Projecto Jacquard, cuja missão é produzir vestuário interativo e ultrapassar as limitações históricas da tecnologia wearable (ver Jeans inteligentes).

O negócio é apenas um sinal do crescimento explosivo previsto pelos analistas nos próximos 5 a 10 anos. Um relatório da consultora Gartner revela que as vendas de vestuário inteligente estão a explodir – de um valor quase insignificante em 2014 para mais de 10 milhões de envios este ano e para 26 milhões em 2016. O número de empresas envolvidas nesta indústria, habitualmente referida como a Internet das Coisas (objetos físicos que contém tecnologia embebida), deverá multiplicar no futuro próximo.

A Gartner prevê que estas empresas gerem um volume de negócios de 300 milhões de dólares (268 milhões de euros) até 2020. Coisas como camisolas, luvas, casacos e meias inteligentes estão já à venda, em versões iniciais, em websites como o Wearables.com. «Estamos a começar a ver coisas interessantes», afirma Luis Rincon, cofundador e CEO do website, lançado no ano passado. Uma das t-shirts à venda, da Athos, inclui 14 sensores para monitorizar a atividade muscular, dois sensores cardíacos e dois para controlar a respiração. Umas luvas de motociclista da Beartek permitem controlar o telemóvel com pontos de toque, que torna desnecessário tocar realmente nos dispositivos. Um dos itens mais populares, revela Ricon, são as meias inteligentes Owlet para bebés. «As meias dizem a temperatura do bebé, níveis de atividade e esse tipo de coisas. Permite monitorizar a saúde do bebé», explica Rincon sobre o produto, embora não substitua o monitor de bebé. «O que se está a tentar fazer com a tecnologia e o vestuário inteligente é acabar com a tecnologia wearable ou misturá-la em coisas que já usamos», acrescenta Rincon, que destaca que designers conhecidos como Ralph Lauren e Tommy Hilfiger já lançaram peças de vestuário inteligente.

Uma das aplicações mais populares para o vestuário inteligente será provavelmente a identificação imediata do utilizador, substituindo palavras-passe. «Primeiro vamos ver isto nos relógios inteligentes. Em vez de uma password, vai reconhecer a pessoa por algum artigo que esteja a usar, pelo ritmo cardíaco ou algum tipo de dado que seja único», acredita Rincon. Com este progresso, contudo, surgem algumas preocupações. Jason Sabin, da DigiCert, uma empresa especializada em encriptação e autenticação, afirma que a segurança tem de estar no topo das prioridades de quem faz e vende vestuário inteligente.

À medida que estas empresas avançam, têm de pensar como cada utilizador de vestuário inteligente é identificado de forma única pela peça de alta-tecnologia, assim como a forma como a informação está a ser enviada a partir de calçado inteligente, jeans ou camisas para a Internet, assegurando que os dados não caem nas mãos erradas. «Muita coisa está a ser feita de forma insegura», garante Sabin. «Talvez a autenticação se torne a forma como caminhamos ou como interagimos com o ambiente à nossa volta», acrescenta, sublinhando que a nossa perceção do papel do vestuário pode mudar drasticamente no futuro. «À medida que chegamos ao vestuário inteligente, não só nos vamos projetar fisicamente em termos do que queremos parecer, ou ser percebidos, mas também podemos projetar informação sobre nós próprios de forma diferente», esclarece. «Podemos chegar a um ponto em que, quando entramos numa loja, a loja pode ser capaz de ler o vestuário que estamos a usar, reconhecer quem somos e depois ir buscar informação sobre as últimas compras na loja e direcionar-nos para o que nos pode interessar», aponta. Mas há um fator importante para a aceitação dos produtos: o preço.

A pesquisa da consultora First Insight sobre este tópico, conduzida para vários clientes, concluiu que os consumidores não estão dispostos a gastar mais de 121 dólares por luvas inteligentes, embora muitas vezes este produto esteja à venda por cerca de 200 dólares. Já as camisolas inteligentes devem ser comercializadas por cerca de 111 dólares para serem bem recebidas pelos consumidores, embora muitas estejam à venda por mais de 199 dólares. «Uma das conclusões é que o valor quociente – ou a combinação do preço e qualidade – é realmente a coisa mais importante que determina a performance de um produto», refere Jim Shea, da First Insight. «Em média, os consumidores não estão dispostos a pagar os atuais preços de retalho. Mesmo em áreas como Silicon Valley e San Francisco, onde há mais adeptos de tecnologia, as pessoas acharam que estes produtos tinham preços exorbitantes e longe do mercado de massas. Pode conseguir-se alguns adeptos iniciais a esses preços, mas não se vai chegar às massas», conclui.