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Borgstena avança na economia circular

Em parceria com a plataforma Fibrenamics da Universidade do Minho, a empresa está a reciclar os resíduos, a transformá-los em nova matéria-prima e, com recurso a nanomateriais, a conferir-lhes valor acrescentado para utilização no interior de veículos.

[©Borgstena]

O projeto AutoEcoMat, como foi batizado, debruçou-se não só na reciclagem dos resíduos, mas também na sua transformação em matéria-prima usável na produção e com valor acrescentado. Um desafio para os investigadores da plataforma Fibrenamics e da Universidade do Minho e para a empresa têxtil, uma vez que, no que respeita aos têxteis para a indústria automóvel, os «resíduos são laminados em espumas», salientou Carlos Mota, investigador da Fibrenamics e project manager deste projeto, durante o webinar “Circularidade de Resíduos Fibrosos”. «Quando temos uma estrutura têxtil que é desenvolvida maioritariamente numa matriz termoplástica ou numa espuma, que é um material termoendurecível, temos aqui materiais de famílias químicas diferentes. Na questão da circularidade dos materiais, e do ponto de vista do design e do desenvolvimento do produto, é muito importante os materiais serem muito bem pensados, porque quando juntamos muitas famílias de materiais, é uma grande problemática depois na reciclagem», acrescentou.

Por isso mesmo, estes resíduos acabam por ter como único destino os aterros, implicando um longo período de tempo, de «milhares de anos», até serem decompostos. «O objetivo do projeto foi desenvolver processos de transformação e conversão dessas estruturas têxteis e dessas espumas em nova matéria-prima, para dar origem a novos produtos para o sector dos transportes», resumiu.

Além da reciclagem, por processos mecânicos, dos resíduos de poliéster e das espumas de poliuretano, o AutoEcoMat trabalhou na valorização dos resíduos, com recurso a processos de extrusão de chapa, para que pudessem voltar a ser uma matéria-prima para a indústria, e ainda acrescentou mais-valias, com a introdução de nanomateriais e materiais com mudança de fase. «Com os nanomateriais foi possível aumentar as propriedades mecânicas, que foram deterioradas com os processos de transformação e utilização, e conseguimos até ter propriedades mecânicas superiores aos materiais virgens», indicou o project manager. A matéria-prima resultante foi ainda aditivada com materiais com mudança de fase, «o que vai melhorar em muito a gestão térmica do material quando for usado em novos produtos para o sector automóvel», apontou.

Carlos Mota [©Fibrenamics]
Para já, a Borgstena, que tem a exclusividade, está a usar a tecnologia desenvolvida apenas para “consumo interno”, mas Carlos Mota afirmou que «a potencialização destas tecnologias e destas metodologias que foram desenvolvidas poderá abrir portas a outras entidades industriais e a outras necessidades do mercado de valorizar materiais que, até agora, era muito difícil serem valorizados».

Um resultado relevante para a sustentabilidade e a economia circular, sobretudo numa altura em que a produção de automóveis deverá continuar a crescer: em 2018, foram produzidos, segundo dados revelados por Carlos Mota, cerca de 80 milhões de viaturas de passageiros, e, de acordo com as projeções em janeiro de 2019 da Statista, em 2030 serão 117 milhões de automóveis. «Com este projeto, a Borgstena tem a capacidade de não adquirir novos materiais, mas usar materiais que iriam para aterro e teriam impacto ambiental», destacou o project manager.

A importância do design na circularidade

O projeto responde aos princípios da economia circular, que, como referiu Jorge Ribeiro, designer e design manager da Givaware, uma spin-off da Universidade do Minho focada no design para a circularidade, é um conceito que pode ser desconstruído em três perguntas, tal como formuladas por Ken Webster, diretor criativo de inovação da Ellen MacArthur Foundation. «Ele propõe-nos olhar para a economia e defini-la através de três perguntas: o que produzir, como produzir e quem é que vai obter benefícios desses resultados do projeto», enumerou Jorge Ribeiro.

Sublinhando que o chamado “overshoot day”, isto é, o dia em que os recursos disponíveis para um ano se esgotam, está previsto para 29 de julho a nível mundial, tendo chegado, em Portugal, a 13 de maio, o designer revelou alguns dos projetos que têm assumido o design circular e o design regenerativo como uma premissa.

É o caso da To Be Green, também uma spin-off da Universidade do Minho, que promove a partilha de vestuário em fim de vida e a sua reciclagem. Juntamente com a Giveaware, a To Be Green está a desenvolver um projeto para a reciclagem das máscaras sociais. «Estão a recolher máscaras nas escolas com o objetivo de as transformar em produtos que possam ser apresentados às crianças também no contexto da escola. Há um papel educativo à volta deste projeto», confirmou Jorge Ribeiro.

CO2AT [©Fibrenamics]
Um outro exemplo é o Dinamica, um material em microfibra desenvolvido pela Sage Automotive Interiors fabricado a partir de poliéster reciclado «que é 100% reciclável» no fim de vida e que «responde a todos os requisitos técnicos das marcas topo de gama da indústria automóvel», descreveu o designer.

Mais impressionante, mas ainda apenas no plano conceptual, é o casaco CO2AT, desenvolvido pela Azgard9 em parceria com a Post Carbon Lab, que é pigmentado com microrganismos fotossintéticos que absorvem dióxido de carbono que é transformado em glicose e oxigénio. «O que nos dizem é que este produto neutraliza o impacto da sua produção», assegurou Jorge Ribeiro.