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Bowie para a eternidade

O mito já tinha nascido mesmo antes da morte do artista. A criatividade de David Bowie há muito que tinha ultrapassado as fronteiras musicais e deixado uma marca única no universo da moda, à qual o seu desaparecimento súbito acrescenta agora uma dimensão intemporal.

A semana arrancou com a notícia da morte de David Bowie e as homenagens tomaram de assalto as redes sociais, primeiro, e as capas dos jornais, depois. Cada uma delas focava uma faceta diferente do artista, como se ele tivesse deixado tantas quantos utilizadores ativos existem no ciberespaço. E talvez tenha deixado. Nunca foi deste mundo, mas houve mundos que lhe pertenceram nos seus 69 anos de idade e 50 de carreira. O da música, sim, mas o da moda também.

No seu 25.º álbum, logo nas primeiras linhas de Lazarus, o single de apresentação do derradeiro álbum de Bowie, “Blackstar”, que foi lançado no seu 69.º aniversário, a 8 de janeiro, havia já um prenúncio, ou pelo menos agora é assim interpretado: «Look up here, I”m in heaven» (“olhem cá para cima, estou no céu”).

Morreu dois dias depois, na noite de domingo, numa batalha perdida contra o cancro do fígado, e, pela primeira vez, os comuns mortais sabem onde David Bowie está. «Sigmund Freud ia adorar conhecer-me», terá dito o camaleónico cantor, que foi também pintor, colecionador de arte e ator, segundo o livro “Bowie on Bowie”, organizado por Sean Egan, que reúne várias citações do músico. Freud, sim, mas tantos outros e de diferentes gerações, não tivessem os seus alter-egos, de Major Tom, Ziggy Stardust, Aladdin Sane, Pierrot, Halloween Jack ou The Thin White Duke, sobrevivido à corrosão do tempo.

As personagens justificavam-se na cruzada do glamrock, movimento que surgiu para enquadrar a excentricidade, provocação e a genialidade desconcertante de Bowie.

O movimento tornar-se-ia tendência de moda que, ainda hoje, continua a visitar as passerelles dos mais conceituados designers e marcas (ver Bowie como inspiração).

O «rock’n’roll de batom», como terá designado John Lennon o estilo de Bowie, de saltos altos e roupas escandalosas e andróginas – num tempo que se passou muito antes do boom da tendência agender – marcaram as capas, os videoclips e os concertos do artista e proliferaram na cultura pop.

A moda prestou-lhe homenagem ainda na segunda-feira e, para lá das notícias e vídeos, a passerelle da London Collections: Men teve uma subtil referência ao legado que Bowie deixou a este planeta. Durante o desfile da Burberry, uma modelo mostrou as palmas das mãos aos fotógrafos. Nelas, estava escrito a negro e com maiúsculas, “Bowie”. Também ao som de alguns dos hits do cantor, o CEO e diretor criativo da marca, Christopher Bailey, recebeu os convidados para o desfile de menswear da Burberry. «Ele é uma verdadeira lenda. Vamos todos sentir falta da sua criatividade, do seu estilo e da forma elegante com que ele abordou tudo», afirmou Bailey, que nasceu em 1971, ano do lançamento de “Life on Mars”, à AFP.

 

Músico brilhante e visionário, David Bowie experimentou um caleidoscópio de imagens e estilos durante a sua carreira, tendo sido apelidado de “King of Style” por alguns fashionistas e alavancado a carreira de Kansai Yamamoto, designer responsável por alguns dos figurinos mais marcantes do cantor. E, na renovação da ligação que une o músico à moda, para o trabalho artístico de “Blackstar” Bowie trabalhou com o designer britânico Paul Smith. «Hoje em dia, muitas pessoas são consideradas celebridades, quando apenas tiveram popularidade durante um ou dois anos, mas ele [Bowie] esteve exposto ao público durante cerca de 46 anos, portanto, o seu talento foi muito claro, muito impressionante», considera Smith.

Para a London Collections: Men, o designer recriou a sua primeira loja, repleta de itens que o influenciaram – incluindo muitas referências ao cantor, como por exemplo, um livro com fotografias de Bowie.

Mas os tributos da moda ao artista galgaram o perímetro do evento londrino. Jean Paul Gaultier, cujo trabalho avant-garde inclui designs influenciados por Bowie, declarou que o músico foi uma «verdadeira estrela do rock» e um «culto» em direito próprio. «Pessoalmente, ele inspirou-me com a sua criatividade, com a sua extravagância, o seu sentido de reinvenção, o seu fascínio, a sua elegância e o seu jogo com o género», acrescentou o designer francês. A pintura facial da era Ziggy Stardust, por exemplo, inspirou a coleção primavera-verão de pronto a vestir de Gaultier em 2011.

Já a exposição “David Bowie Is”, que entre 2013 e 2015 levou os fatos excêntricos, fotos e textos de David Bowie a Londres, Berlim, Toronto, Chicago, São Paulo e Paris, retraçou o percurso do artista ainda ele era vivo (ver Na pele de Bowie), numa clara demonstração do impacto que o caminho interplanetário do cantor teve entre a música e a moda. À AFP, Martin Roth, diretor do Victoria and Albert (V&A), sublinhou, à data da exposição “David Bowie Is” no museu londrino, que «as suas inovações radicais na música, teatro, moda e estilo ainda ressoam no design e na cultura visual atuais e ele continua a inspirar artistas e designers em todo o mundo».