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Braga em roupa interior

A cidade de Braga é sem dúvida marcada pelos sectores terciário (comércio e serviços) e secundário (indústria). Representando 22% das empresas registadas, o comércio é uma presença bem forte e visível para quem visita a cidade. De acordo com Fernando Lopes, subdirector geral da Associação Comercial de Braga, os grandes problemas «estão associados a factores estruturais que estão a influenciar negativamente o comércio local». Ou seja, a afectar o comércio está o aumento significativo da concorrência, a entrada no mercado de novos operadores, o endividamento das famílias e a nada favorável conjuntura económica nacional. Ainda de acordo com a Associação Comercial de Braga o «choque do aparecimento das grandes superfícies comerciais está neste momento ultrapassado», estando o comércio bracarense preparado para enfrentar os desafios do futuro, já que a cidade «em termos de oferta tem lojas modernas e atractivas dado o grande investimento que foi feito nos últimos anos». Juntamente com o Porto, Braga é o centro por excelência do comércio no Norte de Portugal que «proporciona aos consumidores uma oferta de qualidade e muito variada». O vestuário e o calçado são dois dos sectores privilegiados pelo comércio local. Muito requisitada por turistas e não só, Braga é também um local muito procurado para residir. «É uma cidade onde o custo de vida é mais baixo a todos os níveis», afirma Fernando Lopes. A Associação Comercial de Braga representa cerca de cinco mil estabelecimentos comerciais da cidade. Ainda a recuperar da crise provocada pelo aparecimento das grandes superfícies, que na última década nasceram em redor da cidade, o comércio tradicional de Braga começa agora a deixar para trás os piores momentos. Impedidos de praticar os mesmos preços que os seus grandes adversários, os pequenos lojistas tiveram de utilizar outras armas, como por exemplo a imaginação e o atendimento personalizado. Segundo uma reportagem levada a cabo pela revista Chick a estratégia parece estar a dar certo pelo menos para o segmento da lingerie. A opinião dos comerciantes é coincidente. Quem procura lingerie de qualidade não “olha” a preços e não a vai comprar a um hipermercado, pois aí não a encontra certamente. Assim, o cliente prefere o comércio especializado, onde a gama de produtos é mais variada, a qualidade é claramente superior e onde pode ser devidamente aconselhado e atendido. Isto acontece com clientes de todas as idades e de ambos os sexos. E como curiosidade, fica a referência que em Braga os homens estão a comprar cada vez mais lingerie, não só para oferecer mas também para eles próprios. Para Maria Angelina Labareda da loja Chez Nous, situada no Centro Comercial Galécia a concorrência não a assusta, dado que «trabalhando consegue-se vencer». Bem localizada e sem falta de clientes, o segredo do sucesso da loja de Maria Angelina é gostar da actividade comercial e ter paciência com quem transpõe as portas do seu estabelecimento comercial. Com o cliente cada vez mais exigente, «hoje é preciso ser muito mais inteligente». As pessoas sabem o que querem, mas às vezes é preciso uma certa ginástica mental para as convencer a mudar de ideias. É que «alguns clientes teimam em ver-se dentro de peças que não lhes servem». Também no Centro Comercial Galécia, Lúcia Simões da loja LL, mostra-se mais pessimista em relação à evolução do mercado e considera que o comércio tradicional está ainda a passar por maus momentos. Não tanto em relação às grandes superfícies, mas devido ao facto de haver em Braga demasiadas lojas, com produtos de baixa qualidade e a baixo preço. Mesmo assim, o negócio de Lúcia Simões vai correndo bem graças ao atendimento personalizado e às facilidades de pagamento concedidas às suas clientes. Devido ao aspecto económico, o consumo dos jovens no que diz respeito a roupa interior, é baixo. Mas se a loja se situar num local de grande circulação de pessoas e junto a outras propostas comerciais mais dirigidas aos jovens, estes lá param em frente à loja e o impulso da compra é mais forte do que eles. Isto é o que acontece por exemplo com a loja Dona, que se encontra no Centro Comercial Santa Bárbara. Neste espaço, para além das propostas para os mais jovens, Anabela Carvalho apostou na qualidade e vende produtos de alta gama, como por exemplo La Perla, Lise Charmel, Marvel… Um outro estabelecimento só com marcas de topo de gama, é o Laçarote, que está situado no Largo de São João do Souto. Mãe e filha gerem um espaço atractivo e acolhedor, virado para a cidade e procurado por muita gente. «Há dez anos o sector estava muito pobre, não havia tanta variedade de marcas, nem peças com tanta qualidade. Evoluiu-se muito e hoje está muito melhor», afirmou Maria Alice Abreu Barbosa. A apostar também nas melhores marcas, está Ana Maria Carvalho, bem conhecedora do mercado por ser quase pioneira na implementação do sector em Braga. Ana Carvalho vende apenas as marcas do grupo La Perla «poucas marcas para não dispersar o cliente», justifica. Quando abriu a Isis Lingerie, há 15 anos, Ana Maria Carvalho tentou revolucionar o mercado, apresentando peças diferentes daquelas que as pessoas estavam habituadas. Mas agora a concorrência é muito forte e é por isso que a loja vai fechar para obras, para reabrir com um novo visual. A precisar de obras está também a antiga casa Maximino na Avenida da Liberdade, que segundo a proprietária Maria Helena Silva já teve melhores dias. A reconversão urbanística e a construção do túnel mesmo em frente a esta loja afastou muitos clientes. Mesmo assim, os clientes fiéis à casa continuam por ali a aparecer e «apesar de já se ter vendido mais, o negócio vai andando». Quem chamava muitos clientes, era a Zara, instalada paredes meias com a loja Maximino, e que actualmente se encontra fechada para remodelação. O poder de compra do cliente é outro dos problemas. Também Rosa Isabel Ramos, da Isa Lingerie se mostra um pouco pessimista e recorda saudosamente o comércio de alguns anos atrás. «Então este Inverno foi terrível», a chuva e o mau tempo afastaram os clientes para os centros comerciais e o volume de negócios foi bastante fraco. Maria Fernanda Araújo tem usado a simpatia para garantir o sucesso da loja Ela 4, situada na mesma artéria da loja referida anteriormente. A concorrência é muita, mas mesmo assim Maria Fernanda vai vendendo, especialmente em épocas especiais como na Semana Santa ou no Verão. «As pessoas do sul adoram fazer compras em Braga», afirma a vendedora, que se preocupa sempre em apresentar às suas clientes produtos de preços acessíveis mas com grande qualidade, como é o caso das marcas Chantelle e Passionata. Este tipo de aposta faz também Anabela Peixoto, da loja Segredos Nossos, há oito anos neste ramo. Segundo esta, «as actuais dificuldades financeiras da sociedade notam-se logo, pois as pessoas, quando não têm dinheiro, cortam é na roupa que não se vê, ou seja, na interior». A apostar nos artigos da linha média, o estabelecimento está agora a tentar equilibrar financeiramente o estabelecimento com a linha de banho, que com o aproximar da época balnear, começa a ter mais procura. No entanto e apesar de todas estas preocupações e esforços, há quem não se queixe. Sérgio Barbosa abriu a Swan no Centro Comercial Carrefour e este desafio tem dado bons resultados. Neste estabelecimento só se encontram produtos topo de gama e Sérgio Barbosa mostra-se satisfeito com as vendas. Este comerciante tem já quatro lojas instaladas junto a grande superfícies e só tem medo do poder de compra dos portugueses que, diz «está a baixar». O segredo do sucesso para Sérgio Barbosa é ter lojas bem localizadas e com bons artigos. Com esta pequena visita ao comércio local de Braga, concluiu-se que apesar de algumas opiniões contraditórias, as coisas não vão assim tão mal. O