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Brasil à descoberta da ITV lusa

Uma delegação de empresários e entidades do Estado de Pernambuco esteve esta semana em Portugal para conhecer a realidade da ITV nacional e levar os bons exemplos para o Brasil, numa interação que teve igualmente como objetivo estreitar laços e reduzir a distância entre os dois países.

O périplo de quatro dias – de segunda-feira, 20 de novembro, a quinta-feira, 23 de novembro – levou a delegação de Pernambuco a conhecer a Calvelex, a Polopique, a Riopele, a Salsa, a Sonicarla e a Triple Marfel, assim como o Citeve e o centro de formação Modatex.

«Tivemos uma visão bastante ampla e bastante diversificada do que acontece no Norte de Portugal e vamos levar boas lições para o Brasil», confessou Lúcia Melo, Secretária de Estado da Ciência, Tecnologia e Inovação de Pernambuco, ao Portugal Têxtil. «A expectativa era que pudéssemos encontrar pontos de convergência, identificar possibilidades e oportunidades para intensificar a parceria com Portugal na área da inovação e desenvolvimento económico, assim como novos investimentos», explicou.

E o balanço final foi ao encontro deste objetivo inicial, admitiu, durante o workshop de encerramento da visita, promovido pela ANIVEC – Associação Nacional das Indústrias de Vestuário e Confecção e pelo CENIT – Centro de Inteligência Têxtil, onde referiu a falta de inovação e tecnologia na região de Pernambuco, assim como as dificuldades provocadas pela informalidade do negócio no Brasil. «Houve crescimento na região, mas desorganizado», referiu. Atualmente, Pernambuco conta mais de 20 mil empresas de confeção, entre negócios formais e informais, que no total empregam entre 80 mil e 120 mil pessoas – um dado difícil de determinar de forma precisa, tendo em conta a informalidade do mercado.

A ideia é agora «identificar os pontos fortes da indústria portuguesa para recomendar parcerias», admitiu Lúcia Melo.

«A visita foi boa para abrir a cabeça dos empresários brasileiros», reconheceu, por seu lado, Pedro de Alencar Arraes, secretário-executivo da Secretaria de Desenvolvimento Económico de Pernambuco, que destacou, durante a sua intervenção, a necessidade de incremento da qualidade dos produtos brasileiros. «A nossa preocupação é que haja uma melhoria na qualidade dos nossos produtos para combater a concorrência asiática», apontou.

A ITV portuguesa vista de fora

«O mais impactante foi o nível de profissionalismo que vimos aqui», afirmou Márcio Santos, empresário brasileiro à frente da empresa familiar de confeção Fera Street, que emprega diretamente 30 pessoas e vende com a marca própria no mercado brasileiro. Da possibilidade de realizar parcerias com empresas lusas, o empresário revelou ao Portugal Têxtil que «o interesse é muito grande, mas não sei se estamos preparados para isso», acreditando, contudo, que essa eventualidade pode reforçar as competências da indústria de ambos os países. «Acho que temos uma capacidade de desenvolvimento boa, rápida, com mão de obra que conseguimos controlar bem. Em contrapartida [a parceria com Portugal] permitiria ter a possibilidade de atingir outros mercados e de exportar», explicou.

Já José Gomes Filho, que lidera a empresa familiar Joggofi, elogiou as preocupações ambientais e sociais das empresas que visitou. «Aprendi muito», garantiu, sublinhando ainda a capacidade de recuperação do sector em Portugal e o nível de organização que encontrou. «Portugal tem enfrentado as dificuldades de forma amigável. O governo está a fazer a sua parte», referiu, acrescentando que «vejo vocês muito organizados», enaltecendo o papel da ANIVEC enquanto associação sectorial.

Uma outra área que impressionou a comitiva foi o nível tecnológico da realidade portuguesa. «A agenda foi bastante diversificada, com enfoques tecnológicos e visões de mercado diferentes», afirmou, ao Portugal Têxtil, a investigadora Andréa Costa, da Universidade Federal de Pernambuco, que enalteceu em particular o centro tecnológico do sector e a formação do Modatex. «As relações com o Citeve, com a própria associação ANIVEC e com a indústria são fundamentais para o conhecimento e aprimoramento de toda a inovação que Portugal tem e de que podemos beneficiar», realçou, garantindo que apesar de Pernambuco ter «desemprego zero, a mão de obra precisa de qualificação».

No fundo, resumiu Lúcia Melo, «a impressão é que houve um avanço expressivo, uma modernização muito grande e uma inserção global cada vez maior [da indústria portuguesa]. Isso é um exemplo muito importante a ser seguido, já que se tratava de uma indústria tradicional condenada por alguns a desaparecer e mostra a sua pujança e a sua força em continuar a existir e a gerar emprego e rendimento para o país».

A visão nacional

Os empresários e entidades portuguesas acreditam também que o desenvolvimento de relações mais profundas com o Brasil pode ser benéfico para a indústria nacional. «A abertura do mercado brasileiro terá vantagens múltiplas», salientou Luís Figueiredo, vice-presidente da ANIVEC. «As empresas europeias, e as portuguesas em particular, estão muito mais apetrechadas e tecnologicamente muito mais evoluídas do que as brasileiras, portanto, teríamos muita facilidade, desde que não haja tantas barreiras alfandegárias, em ser bem-sucedidos no Brasil», adiantou ao Portugal Têxtil. «Os brasileiros terão mais dificuldade porque ainda não estão tao vocacionados para fora, estão muito virados para dentro. De qualquer maneira, nós teríamos tudo a ganhar, porque acedíamos ao mercado, e eles teriam a ganhar porque com a competitividade aprendiam e faziam desenvolver muito mais rapidamente a indústria deles», defendeu.

Braz Costa, diretor-geral do Citeve, partilha da mesma opinião. «O pecado capital do Brasil é a proteção», apontou no workshop. «Em Portugal, o que nos fez evoluir foi a necessidade», destacou, referindo que o Brasil foi o segundo mercado internacional do Citeve, a seguir à Tunísia. «A ligação do Citeve a outros mercados tem sido a ponte para a colaboração entre empresas», lembrou.

Parcerias que Sónia Pinto, diretora do Modatex, mostrou abertura para replicar no âmbito da formação profissional. «Estamos totalmente recetivos a essa conversa bilateral», assegurou.

Aos colegas brasileiros, João Paulo Pinto Machado, vice-presidente da ANIVEC, deixou como conselho a resolução do informalismo como via para alcançar a qualidade e até permitir a criação de uma associação como a ANIVEC. «Há a necessidade de resolução do informalismo, com o qual é muito difícil haver desenvolvimento e não é possível elevar a qualidade», afirmou.

Orlando Lopes da Cunha foi mais longe e exortou a comitiva brasileira a não deixar que a indústria brasileira chegue à «quase extinção» que afetou a ITV portuguesa. «Não deixem morrer a vossa indústria para que ela volte a nascer – deem o salto e passem diretamente para a fase seguinte, sem precisarem de morrer», concluiu o presidente da assembleia-geral da ANIVEC.