Início Arquivo

Brasil Promete – Parte II

Fernando Pimentel, director da Abit – Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção, falou com o Jornal Têxtil sobre o Sector.Jornal Têxtil (JT) – Como caracteriza a ITV brasileira actualmente? E como pretendem que seja no futuro?Fernando Pimentel (FP) – A Indústria Têxtil e de Confecção (ITC) Brasileira é composta hoje por cerca de 30 mil empresas, que empregam aproximadamente 1,6 milhão de pessoas. É uma indústria cada vez mais moderna, o 6º maior parque têxtil do mundo, com produção de 7,2 mil milhões de peças por ano.A ITC consome principalmente a matéria-prima algodão, na qual é auto-suficiente, e onde desenvolve projectos de investimento com custo e qualidade equivalente aos mais modernos do mundo. Entre 1999 e 2004, conseguimos duplicar as nossas exportações, e queremos duplicar novamente até 2008.JT – É uma indústria que vive, sobretudo do mercado interno. Quais são as ambições para a exportação?FP- Da facturação total da ITC brasileira, que alcançou 26 mil milhões de dólares em 2005, 92% destinam-se ao mercado interno, ao passo que 8% se destinam ao mercado externo. A nossa quota no mercado internacional de produtos têxteis, que movimenta cerca de 400 mil milhões de dólares, é hoje de 0,5%. O nosso objectivo é o de retomar a nossa presença que já foi de 1%, dobrando nossa receita entre 2005 e 2010.Com respeito às variáveis macroeconómicas, tais como uma política cambial competitiva, taxas de juros mais baixas e inflação controlada, poderemos atingir este objetivo tentando incentivar nichos de mercado que agreguem mais valor às nossas divisas, através de um design diferenciado, imagem do estilo de vida brasileiro, moda criativa e serviços cada vez mais profissionais. JT – Pretendem apoiar as empresas na prossecução do objectivo do aumento das exportações. Quais as politicas e instrumentos, com que orçamento e como é financiado?FP – A ABIT, juntamente com a Agência de Promoção de Exportações e Investimentos – APEX-Brasil (órgão pertencente ao governo brasileiro), desenvolveu o Texbrasil, um Programa de incentivo às exportações. Este programa actua em diversos segmentos da ITC brasileira, com atividades que procuram uma inserção cada vez maior no mercado externo, através de pesquisas de mercado, atracção de compradores, participação em feiras e eventos internacionais, com marketing, relações públicas, e o desenvolvimento de conceito e imagem da marca Brasil na moda brasileira.O custeio destas ações é dividido entre as empresas brasileiras e a APEX-Brasil.JT – Não estão a ser prejudicados pela excessiva valorização do Real?FP – Com certeza. Muitas empresas brasileiras estão a operar no mercado internacional com prejuízo, apenas para não perder os clientes arduamente conquistados. Os pequenos empresários são os que mais sofrem. Mas, para quem actua há anos no comércio externo sabe que esses altos e baixos fazem parte do jogo. Só esperamos que essa baixa não demore muito mais.JT – Qual o papel da ABIT e porque é que estão organizados em Comissões Sectoriais? FP – A ABIT tem como papel fundamental integrar e defender os interesses da Cadeia Têxtil Brasileira, desde os produtores de fibras até às confecções. Através de comités setoriais, a ABIT pode proporcionar aos diversos segmentos de nossa indústria, a discussão e busca de soluções específicas para cada um desses segmentos. Hoje, existem na Associação cerca de dezoito comités sectoriais muito activos. São formados por empresários, que elegem um coordenador anualmente, e se reúnem periodicamente. Alguns comités vão mais além e até se organizam e promovem feiras de negócios dos seus segmentos.JT – Qual foi o impacto da liberalização em 2005? Como vê a ameaça do Oriente, e em particular da China, para a ITV mundial e brasileira?FP – O impacto começou a ser sentido nos principais mercados consumidores e produtores da indústria têxtil mundial. A União Européia e os Estados Unidos porcuraram logo acordos para limitar a entrada volumosa dos produtos chineses. No Brasil, os volumes aumentaram muito, também em função do nosso câmbio que incentivava as importações em detrimentos das exportações, além de mercadorias que entravam de forma ilegal ou subfacturadas. Em Fevereiro deste ano, o Brasil foi o terceio país a fechar um acordo de restrições voluntárias com a China, abragendo cerca de 60% do total de produtos têxteis importados da China. O nosso acordo com os chineses tem validade até 2008 e esperamos que até lá o nosso governo acelere as mundanças tão necessárias na política industrial, para que possamos competir com isonomia. No entanto, é bom frisarmos que a ITC brasileira é muito competitiva. Nós devemos buscar um equilíbrio através do mercado interno chinês, que tem 1,6 bilhão de potenciais consumidores. Em qualquer momento esta ameaça pode tornar-se uma oportunidade. JT – Qual é a posição do Governo brasileiro em relação à ITC?FP- O nosso governo vem apoiando-nos através da Apex-Brasil desde 2000. Agora, também criou a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial ? ABDI, que está traçando planeamentos a médio e longo prazo com o nosso sector, inclusive buscando alternativas de financiamento. Isso porque somos o segundo maior gerador de empregos da indústria de transformaçõa do Brasil e temos uma alta resposta para gerar mais empregos em relação a investimentos feitos, se comparado a outros sectores da economia. Contudo, ainda há muito mais que o Governo pode fazer pelo sector ? que é uma vocação natural do Brasil, e a ABIT vem mantendo uma agenda com o Governo para elucidar esses pontos. JT – Quais são as vantagens comparativas e a identidade do têxtil e da moda brasileira no contexto do mercado global em que vivemos? E as das marcas brasileiras de vestuário?FP – Há uns quatro anos começámos a investir na ?marca Brasil?, investindo não apenas em propaganda, mas também nos produtos com maior valor acrescentado e que traduzem a nossa identidade. O Brasil tem a vantagem de ter uma imagem alegre e criativa para muitos países e, hoje, já provamos que também temos qualidade e profissionalismo. Temos vários estilistas brasileiros participando das semanas de moda em Paris, Londres, Nova Iorque, Milão, bem como marcas de vestuário já vendidas em dezenas de países através de showrooms, lojas de departamento, franquias e até lojas próprias. Somos referência na moda praia e jeanswear e já vamos sendo muito procurados também em fitness, moda íntima e confecção feminina e masculina. A nossa maior vantagem é a nossa identidade e a nossa criatividade.JT – Como explica as recentes fusões entre empresas brasileiras e empresas estrangeiras? FP – Fusões e aquisições fazem parte do jogo do mercado globalizado. Estes movimentos do mercado mostram o quão competente é o empresário brasileiro na busca de novas alianças com sinergia de valores, tendo como objetivo acessos preferenciais aos principais mercados mundiais. Isto dá-se porque o Brasil ainda não tem acordos com os principais blocos económicos, como a U.E. e a NAFTA, estando muitas vezes obrigado a limitar-se ao comércio regional.JT – Como comenta a identificação por parte dos empresários portugueses com quem temos falado do excessivo proteccionismo como o principal obstáculo para as empresas portuguesas exportarem para o Brasil? Existem oportunidades de cooperação entre empresas portuguesas e brasileiras? FP – As tarifas de importação brasileiras não são protecionistas, mas niveladas com as que são praticadas em todo o mundo. A cooperação sempre existirá, ainda mais entre brasileiros e portugueses que partilham grande identidade cultural, lingüística e tradições. Temos recebido investimentos de empresas portuguesas e que olham para o Brasil como um mercado jovem, dinâmico e promissor. O Brasil tem investido no mercado português, e está pronto para receber mais investimentos, também. A indústria têxtil brasileira não tem restrição quanto às empresas estrangeiras que queiram vender ou estabelecer-se no país. Tendo preços competitivos, o mercado está aberto.