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Brexit: pânico na moda

Com o aumento dos procedimentos alfandegários na sequência da saída do Reino Unido da União Europeia, a indústria de moda britânica afirma ter entrado em queda livre com a celebração de um acordo com «falhas gritantes». Como forma de apelo, a Fashion Roundtable redigiu uma carta ao governo, que contou com a assinatura de 455 líderes do sector.

[©Pixabay]

O governo ainda não respondeu à carta enviada pela Fashion Roundtable, onde vários designers, CEOs de agências de modelos, editores e fotógrafos destacaram o facto da indústria têxtil e da moda estar a enfrentar uma «dizimação» de 35 mil milhões de libras (cerca de 40 mil milhões de euros) como resultado dos direitos aduaneiros, das taxas alfandegárias e dos requisitos de visto impostos pelo acordo celebrado entre a Europa Continental e o Reino Unido. O acordo pós-brexit levou, inclusive, a JD Sports a considerar a abertura de um armazém de distribuição na Europa para contornar os custos dos encargos atribuídos às relações comerciais, refere Peter Cowgill, diretor executivo da marca.

«Porque está a demorar tanto tempo para o governo responder ao nosso pedido urgente de uma reunião? Percebemos que há uma pandemia, mas o governo teve reunido com os nossos colegas da indústria da música desde que o acordo foi assinado e estamos a apelar para que se reúna também connosco», explica Tamara Cincik¸ responsável da Fashion Roundtable, citada pelo Sourcing Journal.

Os sectores musical e cinematográfico foram inclusive colocados na lista de trabalhadores críticos, o que lhes permite contratar talentos da União Europeia sem a necessidade de visto, um aspeto no qual a moda foi ignorada.

«Estamos a ver as ruas principais dizimadas e os meios de subsistência das mulheres a serem postos em risco. Temos que nos lembrar quantas mulheres trabalham no retalho físico e isso mostra, claramente, quais são as prioridades do ministério e os empregos que acredita que precisam de proteção», destaca Tamara Cincik.

Prejuízo ou migração

Com a celebração do acordo, as marcas britânicas podem perder a maioria dos clientes europeus com a aplicação dos procedimentos alfandegários, que aumentam 40% o preço do vestuário enviado da ilha para a União Europeia. No entanto, o Reino Unido teve uma relação sem barreiras durante décadas com este mercado, o que gerou interdependência. Neste sentido, as marcas podem agora perder metade das vendas ou optar por migrar os negócios para a União Europeia.

O entrave principal são as regras subjacentes à origem, que deviam permitir o livre comércio entre o Reino Unido e a UE, o que não se está a verificar na indústria de moda, já que cada componente do produto tem de ser fabricado na Europa. Este requisito torna-se muito difícil de cumprir, visto que a maioria das marcas importa alguns componentes como fechos ou botões, ainda que o vestuário em si seja produzido no país.

Para solucionar esta questão, as empresas estão a ponderar mudar-se do Reino Unido para a Europa. «Está a ser difícil o transporte de amostras para lá e para cá. A documentação está a consumidor muito do nosso tempo e as marcas pequenas estão a lidar com atrasos e custos suplementares», revela Valery Demure, do Valery Demure Showroom. «Um cliente meu costumava enviar amostras de joias de 18 quilates para Londres por 100 euros agora isso tem um custo de 400 euros para uma pequena quantidade. Estamos a pesar seriamente em nos mudarmos para a UE depois de 27 anos de negócios no Reino Unido», exemplifica Demure, alertando para o facto do governo se estar a «importar tão pouco» com um sector que é tão «criativo e bem-sucedido».

Insatisfação geral

O descontentamento com as ações do governo é um sentimento geral que ecoou em todo sector. Richard Ross, fundador da The Sock Company e da Trotters, duas marcas britânicas, votou Conservador e descreve-se como politicamente de centro.

«Estou chocado com a forma como o retalho tem sido tratado. É absolutamente bizarro para mim que tenhamos que ignorar agora os nossos vizinhos: os mais próximos e queridos. A Europa é o nosso maior mercado único de exportação e o nosso próprio governo está a dizer-nos para esquecermos as negociações com ele», avança. «O que não entendo é porque é que um governo Conservador que sempre esteve intimamente alinhado com os negócios está a fazer isto. Os números devem estar terríveis quando aparecem semanalmente na secretária de Rishi Sunak [Ministro das Finanças britânico]. Não percebo quem é que eles acham que nos vai ajudar a pagar a nossa saída da pandemia porque, a este ritmo, não será o retalho», garante.

[©pymnts.com]
A sensação de esquecimento, por parte do governo, que vigora em todo o sector é ainda mais acentuada pela falta de resposta, mesmo após os media terem dado enfase à iniciativa dos líderes da indústria. «Atrasos e silêncio não são um caminho para a segurança nos negócios. Este silêncio do Governo é profundamente preocupante e espero que se comprometam a reunir com as nossas partes interessadas nos próximos dias», admite Tamara Cincik.

«Estamos a ver um tsunami de pessoas em pânico aqui. Existem lacunas evidentes no acordo e está claro que a moda, como um todo, foi completamente ignorada. Alguém precisa de nos ajudar e com urgência», reconhece.