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Brilho português em Londres

Sol. Energia. Tecnologia” foi o mote sob o qual orbitaram as propostas dos jovens criadores nacionais no International Fashion Showcase. Depois da presença bem sucedida no ano passado, o Portugal Fashion voltou a assegurar a presença da Embaixada Portuguesa no evento na iniciativa organizada pelo British Council e pelo British Fashion Council que envolve mais de 30 embaixadas e instituições culturais. «A exposição deste ano vem no seguimento da do ano passado», refere Miguel Flor, curador da exposição portuguesa e coordenador do Espaço Bloom. «No ano passado, havia a ideia da estufa, que no fundo era um elemento que protegia os designers para eles florescerem. Este ano temos uma espécie de estufa mais sofisticada, mais out-of-the-box, no sentido em que eles saem da estufa protegida e encontram-se banhados pelo sol. Queremos captar a energia do sol, que se reflita nesta parabólica e que os faça crescer», explica. A exposição, que está patente ao público no Brewer Street Car Park até hoje, tem como base uma instalação desenhada pela dupla de arquitetos Nuno Paiva e Astrid Suzano, com cenografia de Miguel Bento. «O Miguel Flor convidou-nos para participar porque desenvolvemos uma peça semelhante para um concurso para a construção de um pavilhão que seria instalado num jardim em Londres, com a qual ganhamos uma menção honrosa», revela Nuno Paiva. Feita com espelhos concretizados em acrílico, a peça reflete literalmente o trabalho de cinco marcas de jovens designers portugueses: Carla Pontes, Hugo Costa, João Melo Costa, Klar e Mafalda Fonseca. Na estreia em Londres, Hugo Costa trabalhou no conceito de uma peça vista a partir do futuro. A decomposição e a degradação natural foram conseguidas com recurso a um processo de estamparia aplicado manualmente. «Foi uma representação mais obsoleta do que propriamente tecnológica. Mais a ideia de que o gadget de hoje daqui a 10 anos estará ultrapassado», afirma o designer, que espera que esta apresentação permita «sobretudo dar visibilidade à marca». «Passado um ano estar aqui outra vez é ótimo. A seleção é feita pela própria organização e isso já é um reconhecimento», assume Carla Pontes. A sua coleção para o outono-inverno 2015/2016 ilustrou o conceito de sol e energia que a mostra portuguesa pretendia transmitir. «Para esta coleção centrei-me na ideia de órbitas – não as órbitas celestes, mas umas órbitas à escala mais humana», como as vistas aéreas de lagos e vulcões. «Esta exposição permite-nos divulgar o lado mais conceptual das nossas marcas. Permite que quem vê a exposição possa olhar de forma mais detalhada para as peças, dedicar o tempo que quiser a ver cada peça», sublinha. Uma vantagem também percecionada pela marca Klar, do trio Andreia Oliveira, Alexandre Marrafeiro e Tiago Carneiro. «Embora tenhamos no nosso processo de trabalho uma componente experimental muito presente, aqui é onde conseguimos englobar esse sentido direcional de ter um briefing prévio e adaptar o nosso trabalho a esse briefing», aponta Tiago Carneiro, satisfeito pela presença portuguesa nesta edição do International Fashion Showcase se fazer ainda com um showroom com peças e imagens das coleções dos jovens criadores presentes. «É de todo pertinente e só nos vem ajudar a mostrar melhor o nosso trabalho», acredita. João Melo Costa, por seu lado, decidiu «arquivar o passado», com a utilização de tecidos com folhas integradas. «A ideia era arquivar as folhas para o futuro. As peças que fiz para a exposição são, por isso, mais clássicas», indica. Também nas propostas para o próximo outono-inverno – que o jovem designer apresentou em desfile no Fashion Scout, produzido igualmente pelo Portugal Fashion – o passado está muito presente. «Tenho apontamentos de cada coleção passada», indica João Melo Costa. Daí a mistura nas várias peças de brilhantes, estampados, pelos e até folhos criados a partir de milhares de nós. Os cortes são depurados, «trabalhados até encontrar a forma perfeita», aponta o criador. «É uma coleção de afirmação do que de facto são os valores da marca e da sua identidade. Parte muito da oposição entre o artesanal e o tecnológico, em formas limpas e depuradas com muita alta e uma carga emocional forte», destaca. Na mesma passerelle esteve Daniela Barros, com uma coleção «mais emotiva», como descreve a criadora, e mais arriscada, não só pela crescente sofisticação, visível nos cortes, mas também pela utilização de um material inusitado. Pele de peixe – nomeadamente salmão e perca – juntou-se a materiais tecnológicos e texturados, sem, contudo, que a jovem designer tenha perdido o seu ADN, bem visível na sugestão de uma mulher forte e na utilização de cores como o preto, o branco e os neutros. «Estou a evoluir e faz parte da evolução prestar atenção a detalhes a que não considerávamos antes», explica. Apesar da tecnologia inerente às matérias-primas usadas, a inspiração principal veio das raízes de Daniela Barros. «Tem a ver com memórias, com o que passamos e esquecemos, o processo evolutivo. Tem também a ver com raízes, comigo própria. Gostava de ter conhecido os meus avós e não conheci, daí ter colocado alguns elementos masculinos na coleção, nomeadamente em termos de tecidos e corte, os suspensórios…», indica sobre esta coleção, que será apresentada em março na passerelle do Portugal Fashion.