Início Notícias Mercados

Burberry revitaliza ITV britânica

A casa de moda britânica Burberry reafirmou o seu compromisso com a indústria têxtil e vestuário (ITV) do Reino Unido, investindo na recuperação de uma fábrica localizada no norte do país, que permitirá revigorar esta região tipicamente industrial.

O investimento de 50 milhões de libras (71,3 milhões de euros) efetuado pela Burberry numa fábrica em Leeds, uma importante cidade industrial localizada no norte de Inglaterra, reanima a iniciativa de recuperação da outrora próspera indústria têxtil britânica. Com este projeto, a casa de moda cria cerca de 200 novos postos de trabalho no centro da cidade, a partir de 2019. Respondendo à crescente procura por produtos “made in England” na Ásia e na América do Sul, a Burberry e outras marcas têm apostado na indústria têxtil do país.

Christopher Bailey, diretor-executivo e criativo da Burberry, natural do norte de Inglaterra, afirmou ao Financial Times que as fábricas existentes, localizadas em Castleford e Keighley, estão «a rebentar pelas costuras», depois de terem duplicado a sua capacidade em cinco anos. Estas serão, agora, encerradas e a produção será transferida para a nova unidade industrial.

«Ele [Bailey] está absolutamente comprometido em manter a produção no Yorkshire. Reconhece que a etiqueta “made in England” é fundamental ao apelo dos nossos produtos icónicos», explicou um porta-voz da Burberry. «Temos uma força de trabalho incrivelmente habilidosa no Yorkshire e pretendemos transferi-la para a nossa nova instalação», acrescentou.

A nova fábrica, localizada na área de South Bank, combinará tecelagem e confeção, de forma a aumentar a produtividade. Esta unidade industrial permitirá aumentar a potência máxima de produção da icónica gabardine da marca, face às atuais 240.000 unidades. No entanto, o sindicato GMB considera tratar-se de uma notícia «agridoces». Apesar da criação de novos postos de trabalho, «este será um duro golpe para Castleford e as zonas circundantes».

Desenvolvimentos posteriores poderão conduzir à criação de novos produtos e ao restauro do edifício Temple Works em Leeds. A fábrica de linho abandonada simboliza o auge da cidade no século XIX, inspirando-se no templo de Hórus em Edfu, no Egito.

Judith Blake, líder do conselho da cidade de Leeds, acredita que esta iniciativa da Burberry permitirá revitalizar a área de South Bank. O antigo edifício da cervejaria Tetley foi recentemente vendido e será transformado, estando igualmente planeada a construção de uma estação da linha de comboio rápido HS2, a par de diversas habitações.

Após uma vaga de encerramentos durante a recessão, a indústria têxtil local tem estabilizado. No distrito da cidade de Leeds residem 6.800 trabalhadores da indústria, um sétimo de todos os trabalhadores têxteis de Inglaterra.

O ex-diretor da casa de moda Jaeger, Harold Tillman, ajudou a fundar a Lamberts Yard, permitindo que jovens designers apresentem as suas criações de moda, estabeleçam redes e aprendam. Foi já apelidado de «Covent Garden do Norte», em alusão ao popular destino londrino.

Entre as empresas em expansão destacam-se a Hainsworth, que fornece o tecido para os uniformes vermelhos dos Guardas da Rainha. A Abraham Moon, em Guiseley, expandiu recentemente a sua fábrica, enquanto a Laxtons, uma fiação histórica, retomou a atividade.

A Camira Fabrics, com sede em Mirfield, também investiu significativamente e inaugurou a primeira nova tinturaria do Reino Unido em mais de 20 anos. A empresa fornece tecido para os sectores do mobiliário de escritório e ferroviário. Os contratos da empresa incluem o London Underground e as cadeiras usadas no BBC Question Time.

Ian Burn, diretor de marketing, revela que mais de metade do seu volume de negócios, que ascende aos 68 milhões de libras, provém do exterior. A empresa contratou 100 novos funcionários nos últimos dois anos, empregando atualmente 700 pessoas. «Não podemos competir em termos de preço. Temos de ser inovadores e oferecer um excelente serviço», aponta Burn. «O receio face ao Extremo Oriente desapareceu. Países como a Índia e a China figuram, atualmente, entre os nossos mercados. Ter um produto confecionado em território britânico ajuda muito».

Steven Toms, historiador têxtil da Universidade de Leeds, explica que os clientes pretendem «autenticidade» e isso significa “Made in Britain”. «Eu não lhe chamaria um ressurgimento. Mas o declínio foi interrompido», resume Toms.