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Calçado dá sorrisos

Mona Purdy, cabeleireira em Chicago, viu, em primeira-mão, o que um par de sapatos usados pode fazer para mudar a vida de crianças pobres. Num orfanato jamaicano, raparigas que sofrem de deficiências físicas e queimaduras não queriam sequer acreditar que os sapatos que Purdy lhes deu eram mesmo para elas. «Nunca tiveram Natal. Natal foi dar-lhes esses sapatos usados em Março», revelou a fundadora da associação Share Your Soles, com a voz embargada. «Estava a pensar “eu não devia estar aqui. Devia estar em casa com os meus filhos”. Após ter visto estas miúdas percebi que devia mesmo estar cá», afirmou Purdy à Reuters. O ímpeto para a caridade começou há 10 anos atrás, quando Purdy participou numa corrida na Guatemala, onde as crianças locais punham asfalto quente na planta dos pés e corriam ao lado da pista. Foi impulsionado quando soube que em muitos países ter sapatos é um pré-requisito para ir à escola e que andar descalço pode causar feridas e infecções que podem levar à amputação. «Fiquei espantada. Não sabia que havia crianças que ainda não tinham sapatos», afirmou Purdy, divorciada, mãe de três crianças, lembrando o que a levou a começar a associação na sua casa nos subúrbios de Chicago. Com cada vez mais sapatos doados, mudou-a mais tarde para um armazém e expandiu para mais países, com a ajuda de espaço e envios cedidos. Actualmente, voluntários de todos os estratos sociais ajudam a escolher o calçado que chega em sacos ou caixas no armazém de 122 m² em Alsip, Illinois, de centros de todos os EUA. Sandálias elegantes, botas de cano alto, calçado de ginásio e pequenos sapatos de bebé são limpos ou engraxados e enviados para países como o Uganda, Peru e Lituânia. «Se vir alguma coisa da qual tenha de pensar duas vezes, deite fora», disse Purdy aos voluntários do liceu, enfatizando a importância de respeitar a dignidade das pessoas que vão receber os sapatos. Os estudantes foram ensinados a escolher o calçado – botas de neve vão para as reservas de índios americanos no Dakota do Sul, as botas de borracha destinadas às pessoas que escavam as lixeiras no Haiti e calçado para água são dirigidas para a Amazónia. «Estou a tentar ensinar a estes miúdos que se fizerem alguma coisa pequena não vão salvar a vida de ninguém, mas podem mudar a vida de alguém», explicou. Recolher e distribuir 900 mil pares de calçado na última década mudou a vida de Purdy. Agora é a directora-executiva da associação que não tem qualquer afiliação governamental ou religiosa e ajudou pelo menos 29 países e diversos estados dos EUA. Recorreu a subornos em alguns países para assegurar que os sapatos não são vendidos, foi infectada com parasitas e sofreu com febres. Mas qualquer adversidade que encontrou foi superada pela alegria que testemunhou. Num orfanato só de rapazes no Equador, até uma caixa com calçado de rapariga, que foi mal catalogada, foi bem-vinda. «Os rapazes estavam tão felizes que pegaram nos sapatos mesmo sendo calçado de menina. Alguns tinham mesmo tiras e pequenos laços», revelou. Com o 10.º aniversário da Share Your Soles para trás, Purdy gostaria de se tornar Embaixadora da Boa-Vontade da ONU. Gostaria também de concorrer a alguns subsídios para aumentar o orçamento anual de 975 mil dólares (cerca de 654 mil euros) da associação. «Pode começar com sapatos, mas não acaba aí», concluiu.