Início Arquivo

Calçado regressa ao Reino Unido

A indústria de calçado da Grã-Bretanha está a experimentar um renascimento, à medida que as vendas de marcas de calçado tradicionais como Tricker’s, Church’s e Crockett & Jones têm aumentado anualmente nos grandes armazéns de luxo como o Selfridges. «São marcas que representam a qualidade e o talento. A qualidade do couro e da costura é sempre excecional», afirma o gerente de compras do Selfridge para calçado masculino, Richard Sanderson, que tem visto um aumento na procura por produtos de fabrico britânico. «A utilização de métodos tradicionais de design é muito apelativa para os visitantes internacionais, que sentem-se como se estivessem a comprar um pouco da cultura britânica. Vemos os mercados como a China, Nigéria e os nossos mais próximos compradores europeus perguntarem especificamente por este tipo de marca quando visitam as nossas lojas», revela Sanderson. A procura pelos tradicionais “brogues”, caracterizados pelos furos que adornam o sapato, tem feito prosperar o negócio na Tricker’s, uma das últimas fábricas de calçado na cidade inglesa de Northampton. A Tricker’s, fundada em 1829, produz 1.400 pares de sapatos por semana, 1.300 dos quais são “brogues”. Em torno da fábrica, os trabalhadores atendem cuidadosamente a cada um dos 250 processos necessários ao fabrico de um par de sapatos. A fábrica é uma pequena unidade de produção localizada no centro da cidade e emprega cerca de 90 trabalhadores, muitos dos quais são residentes locais. Barry Jones, diretor da Tricker’s, atribui o longo sucesso da empresa aos seus elevados padrões de qualidade artesanal. «As pessoas no mundo inteiro percebem agora que a qualidade é muito importante. O consumidor compra uma coisa e ela dura, desempenha a sua função. Os clientes vão voltar», acredita Jones. O forte crescimento da empresa resulta das exportações, que representam 70% da produção para países como Itália e Japão, mas o comércio no Reino Unido acelerou em relação ao ano passado. Jones refere que a empresa tem ainda de se aventurar na China, um investimento atrasado por causa das preocupações com a contrafação. «Não temos realmente ido para a China, como muitas empresas o fizeram, porque os chineses tendem a pegar nos estilos e a copiá-los. Por isso, estamos a avançar com um pouco de cuidado por lá», explica o responsável. «Temos trabalho suficiente (…) no momento, para não nos apressarmos em nada. Mas será o nosso foco em algum momento, talvez no futuro», acrescenta. Para além das questões da expansão internacional, a Tricker’s está a sentir a escassez de jovens trabalhadores qualificados dispostos a preencher os lugares da sua força de trabalho em envelhecimento. «Não existem faculdades nas redondezas como costumava haver para formar pessoas em calçado. Por isso, obviamente, temos que realizar muita formação interna, o que é caro e demorado. As competências são a maior ameaça para o regresso da indústria de calçado», conclui Jones.