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Calvelex questiona negócio da Jaeger

A oferta de compra da Jaeger por parte de um grupo de fornecedores, encabeçados por César Araújo, administrador da Calvelex, não foi aceite pela AlixPartners, que anunciou que a propriedade intelectual da marca centenária terá sido vendida antes da insolvência. O consórcio está agora a analisar a possibilidade de uma ação legal.

O grupo de fornecedores, a quem a Jaeger deve vários milhões de euros, tinha apresentado uma oferta de aquisição à administração de insolvência, a cargo da AlixPartners desde o pedido de insolvência, a 5 de abril (ver Calvelex na corrida pela Jaeger).

Contudo, o consórcio foi agora notificado pelos administradores que a licença da marca terá sido vendida antes da Jaeger entrar em administração e que apenas poderão ser vendidos alguns bens, como lojas e equipamentos.

«O grupo de fornecedores está muito desapontado com esta situação e questiona a venda da propriedade intelectual da marca Jaeger antes da empresa entrar em administração, uma vez que sem a propriedade intelectual da marca, o valor da empresa para potenciais compradores será bastante reduzido», explica ao Portugal Têxtil César Araújo.

O grupo de empresários está mesmo a ponderar tomar medidas, não excluindo a possibilidade de uma ação legal «para analisar as ações dos diretores da empresa e dos antigos donos da Jaeger», acrescenta o empresário português.

Num artigo publicado online pela Drapers, Jon Moulton, o dono da Better Capital, que detém a Jaeger há cinco anos, afirmou que o negócio foi o melhor possível. «Falamos com vários potenciais compradores e fizemos o que era melhor. Surgiu um negócio onde nos foi oferecido um valor pela marca e outro valor pela dívida. Analisamos a venda do negócio completo, mas não havia propostas em cima da mesa na altura», afirmou.

Ao jornal inglês The Guardian, Moulton acrescentou ainda que «a transação foi efetivamente para vender o controlo da Jaeger, incluindo a sua marca, e foi feita sem a insolvência».

Legislação omissa

Para além da contestação ao negócio, que está a suscitar dúvidas, o consórcio de credores da Jaeger está também a apontar o dedo à legislação britânica no que diz respeito a insolvências, reforçando a ideia de que «é cada vez cada vez mais difícil para os fornecedores fazerem negócios no Reino Unido sem correrem o risco de perder dinheiro em caso de insolvência de um cliente», sublinha César Araújo.

No final de março, a Better Capital terá vendido, segundo os jornais britânicos, a dívida da Jaeger, no valor de 7 milhões de libras (cerca de 8,1 milhões de euros), alegadamente a uma empresa controlada pelo bilionário Philip Day, que lidera a Edinburgh Wollen Mill, embora a identidade do comprador não tenha sido ainda confirmada.

Esta informação de venda, no entanto, não foi transmitida aos credores, uma vez que a lei britânica não obriga ao registo da transação. «A venda de dívida deveria ter de ser comunicada aos credores», considera César Araújo, acrescentando que «os credores deveriam ter automaticamente o direito a comprar a dívida ao comprador. Isso iria obrigar a uma necessária transparência em transações deste tipo», sublinha.

«A lei inglesa de insolvência deveria ser mudada para permitir uma maior proteção aos funcionários e aos credores não seguros de empresas que entram em administração ou liquidação», resume o empresário português.

Do luxo à amargura

A Jaeger foi fundada em 1884 por Lewis Tomalin e, durante os seus tempos áureos, vestiu estrelas como Audrey Hepburn e Marilyn Monroe. Os últimos tempos, contudo, têm sido cinzentos.

No último ano fiscal, as vendas da Jaeger desceram para 78,4 milhões de libras, em comparação com 84,2 milhões de libras no ano anterior, e a empresa registou um prejuízo bruto de 5,4 milhões de libras, de acordo com os dados dos documentos submetidos à Companies House (a agência governamental responsável pelo registo de empresas).

Desde que entrou em insolvência, a Jaeger, que empregava quase 700 pessoas, fechou 20 das suas 46 lojas e despediu mais de 200 pessoas.