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Camboja cresce em fábricas têxteis

Apesar de 100 fábricas terem fechado portas no Camboja como resultado da crise pandémica, foram criadas 221 novas unidades fabris no país asiático. No final de 2020, o número de fábricas atingiu as 1.853, dando emprego a 900 mil trabalhadores, revela o secretário de Estado Heng Sokkong.

[©Nikkei Asia]

Apesar do Camboja ter sido afetado pela pandemia, o balanço do ano passado aponta para resultados mistos. «[Apesar] da crise do Covid-19, [e] dos [impactos] negativos em todo o mundo, [a confiança dos investidores] no governo cambojano resultou na abertura de muitas fábricas», afirma Heng Sokkong, citado pelo Sourcing Journal.

Em 2020, foram aprovados pelo Council for the Development of Cambodia 178 novos projetos, com um capital de investimento de 4,1 mi milhões de dólares (3,38 mil milhões de euros), iniciativas maioritariamente na indústria têxtil e vestuário.

«As condições no sector laboral estão gradualmente a normalizar no início deste ano. Toda a indústria de vestuário no Camboja pode voltar ao normal se a crise de Covid-19 terminar», garante Heng Sour, porta-voz do Ministério do Trabalho e Formação Profissional, ao Phnom Penh Post.

Afirmar que a indústria de vestuário do Camboja, que emprega 800 mil trabalhadores, na sua maioria mulheres, teve um ano difícil trata-se de um «eufemismo extremo».

O sector teve de enfrentar as consequências económicas da pandemia, incluindo a quebra de pedidos e termos de pagamentos injustos. Em outubro último, o país passou ainda por inundações que danificaram 79 fábricas, das quais 40 tiveram de suspender temporariamente a atividade. As dificuldades do sector acresceram quando a União Europeia retirou parcialmente os benefícios do regime de comércio “Tudo Menos Armas”, na sequência do que considerou como «graves deficiências no que diz respeito aos direitos humanos e trabalhistas [do país]». As tarifas mais elevadas afetam um quinto das exportações do Camboja para a EU, ou seja, cerca de mil milhões de dólares em mercadoria.

Violar direitos

Com toda a situação sem precedentes, os ativistas alertaram para o facto de alguns proprietários de fábricas do Camboja, Mianmar e Tailândia estarem a usar a pandemia como pretexto para erodir os direitos laborais e acabar com os sindicatos.  «Claramente, alguns empregadores acreditam que podem aproveitar-se da pandemia de Covid-19 e da desaceleração económica para violar os direitos dos trabalhadores com impunidade», afirmou, à Reuters no passado mês de junho, Robert Pajkovski, diretor de programa para a Tailândia no Solidarity Center, uma organização sem fins lucrativos com sede em Washington.

[©Sourcing Journal]
Ainda que o governo cambojano tenha providenciado assistência técnica para cerca de 150 mil trabalhadores demitidos da indústria de vestuário, os grupos de trabalho dizem que o alívio financeiro não é suficiente nem de fácil acesso. A par de tudo isto, o aumento de dois dólares no salário mínimo, que entrou em vigor este mês, também não será suficiente.

Deste modo, as autoridades prolongaram um programa que proporciona 40 dólares mensais aos trabalhadores com contratos suspensos nos primeiros três meses do ano. Os proprietários das fábricas, de resto, devem mobilizar 30 dólares adicionais para cada trabalhador, o que totaliza o apoio nos 70 dólares.

O Labor Behind the Label, grupo defensor dos direitos dos trabalhadores, revelou em dezembro à Reuters que os trabalhadores do Camboja, contudo, tinham 120 milhões de dólares em salários não pagos só nos três primeiros meses da pandemia e que a situação era de «crescente crise humanitária».

As exportações de vestuário, calçado e artigos de viagem do Camboja caíram 9% nos 10 primeiros meses do ano, segundo os dados do Departamento Geral de Alfândega e Impostos Especiais.