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Camisas Machado une políticos

Divididos pelas ideologias, há algo que o Primeiro-Ministro António Costa, o deputado do PSD Luís Montenegro e o eurodeputado Nuno Melo, eleito pelo CDS-PP, têm em comum: as camisas. Os três são clientes fiéis da Camisaria Machado, um pequeno negócio familiar sediado em Joane, Vila Nova de Famalicão.

Pelas mãos sábias de Alcindo Machado, com o apoio incondicional e conhecedor da esposa Maria Lúcia, a costureira de serviço, nascem diariamente cerca de 12 camisas, customizadas com as medidas e as preferências dos clientes no pequeno atelier da empresa familiar, que conta ainda com o filho Tiago Machado – recentemente rendido ao negócio dos pais e atual aprendiz de camiseiro.

No leque de clientes, que ascendem a mais de 1.000, fazem não só parte políticos, mas também médicos e até o mais conhecido empresário português de futebol, Jorge Mendes. Um portefólio impressionante para um negócio que vive do “passa a palavra” e que começou quase por brincadeira há mais de 30 anos. «Eu trabalhava numa confeção de camisas e a minha esposa tinha habilidade para a costura. Um dia resolvemos experimentar e fazer uma camisa para um irmão dela. Essa camisa foi cortada na mesa da cozinha, depois do jantar, feita por uma máquina rudimentar. O irmão dela foi passear com os amigos, perguntaram-lhe quem tinha feito a camisa e começaram a fazer pedidos», conta Alcindo Machado.

A pouco e pouco foram construindo o negócio, que ainda hoje mantém o mesmo cariz familiar – o atelier fica nos fundos da casa da família –, que é também uma das mais-valias do negócio. «Os nossos clientes são nossos amigos», sublinha Maria Lúcia. A qualidade indiscutível, com tecidos fornecidos pela Somelos Tecidos e botões da igualmente famalicense Louropel, e a dedicação em cada pormenor compõem a fórmula do sucesso. «Temos gosto naquilo que fazemos. E estamos sempre atentos ao mercado, a ver o que de bom se faz. Nunca estamos parados nesse ponto de vista», afirma Alcindo Machado, ele próprio um autodidata assumido.

Com um bom humor contagiante, são muitos os clientes que não dispensam falar com Alcindo Machado em cada visita à Camisaria, mesmo que as medidas estejam há muito tiradas. Não é surpreendente, por isso, que à questão dos jornalistas que acompanharam a visita do Presidente da Câmara de Vila Nova de Famalicão, Paulo Cunha, às instalações da empresa, no âmbito do roteiro Made In, sobre o que faz uma boa camisa, a resposta imediata, entre risos, tenha sido «um bom corpo». Mais a sério, o mestre da camisaria não tem dúvidas que o segredo está em colocar «os pormenores e os detalhes que cada pessoa», incluindo o corte que mais se adapta a cada corpo.

Paulo Cunha – ele próprio cliente da Camisaria Machado – confirma que «as personalidades vêm cá pela qualidade e pelo atendimento» e acredita que isso justifica «o enorme sucesso deste projeto cuja história confirma a força do têxtil em Famalicão».

Sem planos para pousar a tesoura, Alcindo Machado, de 62 anos, está, contudo, a preparar a próxima geração. Tiago Machado, o filho do meio, decidiu há cerca de um ano seguir as pisadas do progenitor e aprender a arte, conciliando com a sua carreira de músico de guitarra clássica, um projeto que o leva a abraçar novos instrumentos, mas também a pensar em voos mais altos.

O primeiro passo, uma nova imagem e um website onde os potenciais clientes podem obter informação sobre como ter a sua camisa à medida, já foi dado, em parceria com a irmã. Seguir-se-á a venda online e, quem sabe, a internacionalização do negócio. «Já mandei camisas para Londres, para a Suíça, para a Broadway em Nova Iorque», exemplifica Tiago Machado, sendo que a maior parte destes clientes internacionais são estrangeiros que ouviram falar, por amigos portugueses, das camisas da Camisaria Machado. «A internacionalização pode ser uma aposta, mas tem muitas consequências que ainda estamos a estudar. Realmente, os nossos preços [que variam entre 45 e 100 euros, consoante o tecido escolhido] e a qualidade do têxtil na região do Vale do Ave, que é muita, tornam-nos muito competitivos. Pode ser uma aposta, mas neste tipo de ofício é complicado, porque é muito personalizado», explica Tiago Machado.