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Campanha promove salário base – Parte 1

Um dos maiores obstáculos, para os principais retalhistas e marcas, no longo debate sobre o pagamento de um salário de sobrevivência aos trabalhadores no sector de vestuário tem sido tentar estabelecer um valor efectivo para o montante que deve ser pago. Mas este entrave pode estar prestes a ser ultrapassado com uma nova campanha do Asia Floor Wage, que leva as negociações do salário de sobrevivência no vestuário para o próximo nível. Embora muitas empresas digam concordar, em princípio, com a ideia de pagar um salário de sobrevivência, a evidência parece sugerir o contrário. Com efeito, um relatório publicado no início de Outubro pelo grupo de direitos laborais Labour Behind the Label refere que a maioria das empresas de moda britânicas não pagam um salário digno aos trabalhadores que produzem as suas roupas e muitas não têm planos para aumentar os salários, para níveis aceitáveis, num futuro próximo. é por isso que as organizações laborais de seis países produtores de vestuário em toda a ásia uniram-se com sindicatos, ONG e activistas na UE e nos EUA e assumiram a resolução do assunto. Sob a égide da Asia Floor Wage Alliance, lançaram uma nova proposta para um Asia Floor Wage (salário base na ásia), que pretende estabelecer um valor equivalente a um salário mínimo de 475 dólares. Levando o debate dos salários para um novo nível, o valor foi calculado para definir uma base salarial ou «valor mínimo abaixo do qual nenhum trabalhador, independentemente da nacionalidade, género ou local de trabalho, deve receber». Este valor é baseado na paridade do poder de compra do Banco Mundial, sendo calculado a partir do salário necessário para permitir aos trabalhadores a compra do mesmo conjunto de bens e serviços que um consumidor nos EUA pode adquirir por 475 dólares. «Grande parte do debate à volta dos salários de sobrevivência tem sido focalizado em qual deveria ser o salário de sobrevivência», refere Anna McMullen, coordenadora da campanha Labour Behind the Label. «Temos esperança que o Asia Floor Wage irá deslocar o debate de se as empresas têm de pagar o salário mínimo para a discussão do nível de salário mínimo fixado pelo AFW para, em seguida, passar das preocupações com os números para as questões sobre a implementação. Está-se gradualmente a chegar a esse nível agora, mas foi um progresso lento», acrescenta McMullen. Superar o salário mínimo Mesmo assim, o salário mensal de sobrevivência proposto representa um aumento significativo em relação ao salário mínimo estipulado por lei e vigente nos seis países que participam na campanha: Bangladesh, China, índia, Indonésia, Sri Lanka e Tailândia. «Não consigo imaginar este salário para os trabalhadores», afirma James Fu, director-geral da Green Fujian Garments Co., um fabricante de roupas de criança localizado na província de Fujian na China. «Este é um salário de escritório. Talvez dentro de 20 anos os trabalhadores possam ganhar este valor», que é 2,4 vezes superior ao actual salário mínimo na China. No Sri Lanka, por exemplo, o salário base proposto é mais de três vezes o valor do salário mínimo vigente, enquanto na índia é 1,6 vezes superior. Já no Bangladesh é mais de seis vezes o valor do salário mínimo vigente, levando a preocupações de que a proposta não só destruiria a vantagem competitiva deste país, como também prejudicaria outros países pobres da região. «No Bangladesh, onde a diferença entre o salário mínimo e o salário base é maior, isto é um problema», revela McMullen. «Mas diria que o objectivo do AFW é definir uma referência salarial de sobrevivência como um objectivo para todas as empresas. Não concebemos que as empresas vão começar a pagar este salário de repente. O aumento será uma mudança incremental e esperamos que o mercado se desloque lentamente, em conjunto, para este valor». Anannya Bhattacharjee, coordenadora internacional da AFW Alliance e membro do seu comité director internacional, também afasta as preocupações que os negócios serão transferidos para outras áreas. «Se um comprador deslocar [negócios para fora do AFW] seria uma saída de toda a região e não achamos que tal seria do interesse da indústria. A indústria beneficia por estar na ásia». Em vez disso, os activistas afirmam ainda que, ao colocar finalmente um valor sobre o que acreditam ser o valor justo para os trabalhadores, e transformando esta acção numa iniciativa global, vai ajudar a deter os retalhistas de forçarem a diminuição dos preços – quando encorajam a concorrência salarial entre os seus fornecedores. Na segunda parte deste artigo, vamos abordar as dificuldades existentes por parte dos clientes na implementação do salário de sobrevivência.