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Canadá compra mais à UE

As empresas canadianas de moda estão a comprar mais vestuário à União Europeia, com o mercado europeu a ocupar agora o quinto lugar entre os principais fornecedores. Apesar de estar a perder força, a China ainda domina as importações e o novo acordo para a América do Norte pode baralhar os números no futuro.

O Canadá é, atualmente, um dos maiores mercados de vestuário do mundo, com as vendas a retalho a totalizarem 28,04 mil milhões de dólares (cerca de 25,9 mil milhões de euros) em 2019. Tal como outros países desenvolvidos, «o vestuário vendido no Canadá é predominantemente importado, tornando o país numa oportunidade comercial significativa para produtores, grossistas, marcas de moda e retalhistas de todo o mundo», destacam Mikayla DuBreuil, assistente de investigação, e Sheng Lu, professor, ambos do Departamento de Estudos de Moda e Vestuário da Universidade do Delaware, numa análise feita para o just-style.com.

Em termos de vendas a retalho, o mercado de vestuário do Canadá é grande, maduro e está a crescer rapidamente. Em comparação com outros países, representou, em 2019, cerca de 40% do tamanho da Alemanha, 80% do da França, 110,5% do Brasil, 114,5% do da Coreia do Sul e 125% do de Espanha.

Entre 2015 e 2019, as vendas a retalho subiram 1,1% ao ano. Embora esta taxa não seja tão elevada quanto a dos mercados emergentes, os autores do artigo sublinham que «a taxa excedeu a maior parte dos países desenvolvidos no mesmo período, incluindo os EUA (0,1%), Japão (-0,1%), Alemanha (-1,2%) e Reino Unido (0,1%)».

Ainda sem cálculos que permitam prever a evolução do mercado depois do impacto do novo coronavírus, as projeções anteriores antecipavam um crescimento anual entre 0,5% e 0,8%, apontando para que, em 2025, as vendas a retalho atinjam 29,5 mil milhões de dólares.

O vestuário de senhora é o segmento que mais contribui para o crescimento, tendo representando mais de metade das vendas a retalho em 2018. Segue-se o vestuário de homem, com uma quota de cerca de 30%, e o vestuário de criança, com 14%.

Concorrência ativa

O mercado conta hoje com centenas de marcas locais, regionais e mundiais, incluindo nomes como Gap, Adidas e H&M. As marcas norte-americanas lideram o mercado, com a Gap a deter uma quota de 3,6% e a Nike 2%, seguidas pela canadiana Reitmans, com uma quota de 1,6%.

Marcas canadianas como a Canada Goose e a Lululemon Athletica são igualmente players bem posicionados, com uma quota de 1,4% e 1,3%, respetivamente.

O Canadá, de resto, «não é um mercado particularmente entusiasmante para as marcas de luxo e premium, exceto no vestuário de performance», afirmam Mikayla DuBreuil e Sheng Lu.

Embora o retalho físico seja ainda responsável pela maioria das compras de vestuário, com uma quota de 84,9%, o comércio eletrónico está a aumentar, sendo atualmente o canal preferido para 15,1% das vendas, em comparação com 1,9% em 2005.

Entre 2005 e 2019, os grandes armazéns sentiram o maior declínio em termos de quota de mercado, de 13,6% para 7,1%.

China perde para países vizinhos

As importações de vestuário do Canadá têm acompanhado o ritmo de crescimento do PIB. «Quando a economia do Canadá cresceu, as suas importações de vestuário também registaram uma expansão, graças ao aumento do rendimento e do poder de compra dos consumidores», revelam os autores. Em 2005, o PIB subiu 5% e as importações aumentaram 14,3%. Já em 2015, o PIB apenas cresceu 0,7%, tendo as importações de vestuário caído 1,9%. «Esta forte correlação, contudo, também sugere um provável declínio acentuado nas importações de vestuário do Canadá em 2020», referen, tendo em conta o forte impacto económico que a pandemia deverá ter na economia.

Apesar da China se manter como a principal fornecedora do mercado canadiano, com uma quota em valor de 36,2% em 2019, as empresas canadianas estão a aprovisionar-se cada vez mais noutros países do sudeste asiático. O Bangladesh e o Vietname – atualmente os segundo e terceiro principais mercados fornecedores –, têm quotas de 12% e 10%, respetivamente, de acordo com os dados de 2019, o que representa o dobro do que tinham em 2005. De igual forma, também o Camboja está a tornar-se num mercado de sourcing importante para o Canadá, com um crescimento de 411% das importações provenientes de Phnom Penh desde 2005.

Europa a crescer

Há também boas notícias para os produtores europeus. Graças ao Acordo Económico e Comercial Global entre a UE e o Canadá (CETA), que entrou em vigor em 2017, as importações provenientes da União Europeia têm vindo a aumentar. Em 2019, a UE representou 6,1% das importações de vestuário do Canadá, uma subida de 4% em comparação com 2010. «Cerca de metade destas importações da UE são produzidas em Itália, cujo vestuário de luxo pode estar entre os principais beneficiários das oportunidades de poupança de taxas alfandegárias que o CETA proporcionou», apontam Mikayla DuBreuil e Sheng Lu.

As importações dos mercados próximos da América do Norte, Central e do Sul continuam a fazer parte do mapa do Canadá, sobretudo em resposta à exigência, por parte dos consumidores, de maior rapidez na colocação dos produtos no mercado. «Por exemplo, a Lululemon colocou cerca de 8% das suas encomendas em fábricas nas Américas em 2018, mais do que os 3% a 5% de há cinco anos», exemplificam os autores.

No entanto, as importações do Canadá dos membros do Acordo de Comércio Livre da América do Norte, conhecido por NAFTA, caíram de 12,3% em 2005 para 5,4% em 2019. «A crescente incerteza do Presidente Trump, que ameaçou repetidamente retirar os EUA do NAFTA desde que assumiu a presidência em 2017, levou as empresas canadianas de moda a cortar o aprovisionamento da região», justificam Mikayla DuBreuil e Sheng Lu. «Muitos também sentem que as regras de origem “a partir do fio” no NAFTA são demasiado restritivas», acrescentam.

A implementação do Acordo Estados Unidos-México-Canadá (AEUMC), que deverá entrar em vigor a 1 de julho, poderá, segundo os autores, ajudar a criar «um ambiente mais estável para as empresas canadianas de moda interessadas em se aprovisionarem nos EUA e México». No entanto, tendo em conta que o novo acordo não flexibiliza as regras de origem estipuladas anteriormente no NAFTA, «ainda vamos ter de ver se o novo acordo vai melhorar a atratividade do sourcing na América do Norte para as empresas canadianas», concluem.