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Caxemira é alvo da sustentabilidade

As indústrias do vestuário e do calçado contabilizam mais de 8% das emissões globais de gases com efeitos de estufa, concentradas principalmente durante a fase inicial da cadeia de abastecimento e transformação das matérias-primas, entre as quais está a caxemira, cuja suavidade esconde bem a sua pegada ambiental.

As emissões de gases com efeitos de estufa (GEE) da indústria têxtil são superiores ao aglomerado das emissões de todos os voos internacionais e viagens de transporte marítimos. Esta concentração advém principalmente das operações realizadas logo no início da cadeia de aprovisionamento, como o transporte e a transformação da matéria-prima em produtos têxteis acabados.

Um dos exemplos mais flagrantes da pegada ambiental da produção têxtil refere-se à caxemira. Esta matéria-prima é obtida a partir do pelo de cabras da Mongólia que, ao pastarem, comem as plantas que de outra forma serviriam para absorver o carbono. Contudo, Kimberley Smith, diretora do departamento de vestuário da Everlane, explica que «ao contrário de outros animais, as cabras da caxemira comem toda a erva da pastagem, incluindo as raízes, o que significa que a planta morre». Deste modo, o crescimento da procura não permite a regeneração da erva, devido ao excesso de pastagem e consequentemente esgotamento da terra, agravando a dificuldade de absorção do carbono.

Como forma de contrariar os efeitos negativos da produção desta matéria-prima, marcas como a Patagonia, Eillen Fisher e Stella McCartney começam agora a substituí-la por uma alternativa sustentável. A Everlane é a mais recente a fazer a transição, introduzindo, neste mês de outubro, a caxemira reciclada, com metade da pegada ambiental da virgem. Smith justifica que «de um modo geral, criar fibras do zero é um processo mais intensivo em carbono do que pegar no vestuário já existente e usá-lo para as regenerar».

Everlane volta ao passado

O conceito de reciclar fibras vem já desde o século XIII, altura em que se recuperava o vestuário de lã para produzir novas fibras, em Itália. No entanto, a Everlane só agora começou a adotar a mesma estratégia, colocando a meta de alcançar a mais baixa pegada de carbono possível no que diz respeito à caxemira. Para tal, a marca colabora com uma fábrica que separa os produtos desta matéria-prima por cor, evitando o processo de tingimento, o que elimina uma das fases na cadeia de emissão de carbono. No entanto, há algumas deficiências associadas à caxemira reciclada: durante o processo, a fibra torna-se mais fraca e mais suscetível a enrugar-se ou quebrar-se. Neste sentido, a marca contrata a fiação de 60% de caxemira reciclada com 40% de lã merino extrafina.

A Everlane não está ainda preparada para recolher o vestuário velho de caxemira dos seus clientes, mas espera vir a conseguir fazê-lo. Aliás, Kimberley Smith prevê um futuro que deixa de fabricar vestuário com novos materiais, substituindo-os por fibras já existentes em peças usadas, o que permite criar um sistema circular perfeitamente fechado.

Atualmente, o maior impedimento para a visualização deste cenário reside na mistura de fibras existente nas peças de vestuário aliada à ineficácia da tecnologia presente para as separar e regenerar. A diretora do departamento de vestuário da Everlane revela que «estamos a melhorar o processo de reciclagem de tecidos que são fabricados com uma única fibra» – assim, a caxemira torna-se o produto perfeito para efeitos de teste, já que não é difícil encontrar peças em que esta é a única matéria-prima utilizada.

Deste modo, a sustentabilidade parece estar a tornar-se um objetivo comum a muitas marcas: a Rothy’s recorre a garrafas de plástico para produzir sapatilhas e sapatos rasos e a Summersalt transforma resíduos plásticos industriais em fatos-de-banho. Até grandes referências como a Levi’s, Madewell e Athleta estão a usufruir cada vez mais do plástico reciclado.

Kimberley Smith sustenta que «as fábricas não estão apenas a desenvolver fibras recicladas, estão também a trabalhar na sua qualidade para garantir que são comparáveis às virgens», o que significa que «o vestuário durará muito tempo e o consumidor não conseguirá perceber que as fibras são recicladas».