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Celebrar a moda

A vida são dois dias, o Carnaval são três e a o Portugal Fashion são quatro. O evento, que reúne alguns dos mais conceituados designers nacionais, começou a “celebração” da moda ontem em Lisboa, com as criações dos Storytailors, Carla Pontes, Hibu e Alves/Gonçalves.

Os enormes lustres que iluminaram a passerelle instalada no salão de baile do Four Seasons Hotel Ritz conjugaram-se na perfeição com os vestidos volumosos inspirados na azulejaria – dois dos quais estiveram já em exposição no Kennedy Center, em Washington (ver na fashionup.pt Storytailors em exposição nos EUA) – desenhados pela dupla João Branco e Luís Sanchez.

Os Storytailors narraram um conto onde personagens do passado, nomeadamente Santa Joana Princesa, se misturaram com personagens de contos populares, como a lenda das três mouras (transfiguradas em três mouros) e com a obra maior da literatura portuguesa, “Os Lusíadas”. «Todas as nossas coleções têm uma raiz muito cultural ligada a Portugal e que funde Portugal a outras culturas. Nesta acho que é fácil as pessoas perceberem a ligação que tem aos descobrimentos ou à ligação que temos com a Ásia», afirmou João Branco ao Portugal Têxtil.

Ao longo do desfile, as estruturas rígidas dos vestidos, incluindo os corpetes, deram lugar a um pronto-a-vestir fresco, pintado de azul e branco, onde primou a fluidez dos tecidos e a usabilidade das peças. «O azul é uma das nossas cores nacionais», revelou o designer, reportando à ligação dos portugueses com o mar.

Horas depois, no Antigo Picadeiro do Colégio dos Nobres, no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, a teoria da evolução de Darwin ganhou novos argumentos. Os jovens Carla Pontes, Marta Gonçalves e Gonçalo Páscoa (os dois últimos formam a marca Hibu) revelaram traços distintos e um crescimento que muito agradou a Ana Salazar, que assistiu ao desfile duplo. «Achei muito interessantes as duas coleções», confessou, ao Portugal Têxtil, a “mãe” da moda portuguesa, que classificou a coleção dos Hibu como «futurista» e considerou as propostas de Carla Pontes repletas de «conceitos muito bem trabalhados».

Depois dos lagos secos da última estação, Carla Pontes mergulhou na água e no universo das algas e apresentou uma coleção delicada e leve, fluída ao sabor das ondas e com traços de alfaiataria transfigurados por uma linguagem mais contemporânea. Comprimentos médios nos vestidos, que criam uma silhueta alongada, e a utilização de pele de pêssego e as já habituais malhas marcaram as propostas, assim como os azuis aquáticos e os jacquards e bordados com algas. «Fui buscar o ambiente das algas nas margens, quando ficam coladas às rochas», explicou a designer. «As peças, por ser verão, são mais leves, e achei que seria interessante utilizar o bordado que é algo rico», acrescentou.

Já os Hibu quiseram causar uma forte segunda impressão. Em “Impression#2”, o look agender continua a predominar nas propostas da dupla, que usou lona revestida conjugada com tecidos mais leves. «Decidimos criar o “Impression” porque queríamos causar diversas impressões ao longo das coleções que fossem a união de uma coleção só, ou seja, toda a gente que conhece o nosso trabalho sabe que a “Impression #2” é a história que ainda não acabou da “Impression #1”. É como se fosse a continuação de uma estética», justificou Gonçalo Páscoa. «O nosso conceito por si só é diferente, não tem distinção de género. As peças tornam-se sempre oversized e jogamos muito mais com o conceito da marca do que propriamente com o conceito de cada uma das coleções», destacou a outra metade da marca Hibu, Marta Gonçalves.

Numa outra dupla, esta já consagrada, a Alves/Gonçalves, a sofisticação voltou a ser palavra de ordem. Ousados nos padrões e nos designs, a marca demonstra não sentir o peso de 30 anos de carreira e surpreende, como da primeira vez se tratasse, a cada estação. Elegância e feminilidade exalaram das propostas com “dupla personalidade” dos designers, que usaram o tweed com uma nova perspetiva, quer no tipo de peça, quer no jogo com lantejoulas que retirou a austeridade britânica do tecido. «É a dualidade, o transgredir, provocar surpresa, é o não à monotonia», descreveu Manuel Alves ao Portugal Têxtil.

À aparente simplicidade dos vestidos floridos estivais contrapuseram-se os modelos com aplicações metálicas nos ombros, a utilização de prateados e dourados. Os desfiados das costuras garantiram contemporaneidade a coordenados revestidos de um classicismo intemporal. «É uma desconstrução do clássico», admitiu o designer, que faz dupla com José Manuel Gonçalves, «que depois cria um todo muito urbano, feminino, que é a nossa expressão, o nosso ADN».

Rumo ao Norte

A celebração da moda continua hoje na cidade Invicta, com o regresso à primeira casa do Portugal Fashion – o Coliseu do Porto –, onde desfilarão as propostas de Pedro Pedro, Júlio Torcato, Anabela Baldaque, Elsa Barreto (que faz a sua estreia no evento) e Fátima Lopes. Mas a festa, dentro e fora da passerelle, prolonga-se até sábado.