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CENIT a criar valor

O CENIT fechou a terceira ronda de conferências, com o tema “Marcas/Marketing e Design”, convidando o professor da Faculdade de Economia do Porto Carlos Brito e o designer de moda Júlio Torcato. Amanhã será o último workshop, planeado para abordar um dos destaques da atualidade – “Sustentabilidade na Indústria da Moda”.

Carlos Brito e Júlio Torcato

No âmbito do projeto Futures.ModaPortugal, o CENIT – Centro Associativo de Inteligência Têxtil voltou a receber novos convidados, desta vez sob o mote “Marcas/Marketing e Design”. O workshop ocupou as instalações da ANIVEC, na passada quarta-feira, para dar espaço de discussão a Carlos Brito, professor de Marketing e Estratégia Empresarial da Faculdade de Economia do Porto (FEP) e da EGP-UPBS, e Júlio Torcato, designer de moda, sobre a influência destas áreas na indústria têxtil e vestuário (ITV), reunindo testemunhos sobre a sua própria experiência profissional.

O ciclo de conferências estreou-se a 11 de outubro com o tema “A Formação na Indústria da Moda”, pelas vozes de Pedro Guimarães, chefe de Unidade da Qualificação da Formação do MODATEX, e Elsa Faria, coordenadora de formação do CITEVE. Na semana seguinte, foi a vez de Miguel Neiva, criador do sistema de identificação da cor para daltónicos ColorAdd, e Fernando Merino, diretor de inovação da ERT, debaterem a “Inovação”.

Amanhã está prevista uma última tertúlia, que dará tempo de antena à “Sustentabilidade na Indústria da Moda”, com o diretor-geral do CITEVE, Braz Costa, e a diretora de sustentabilidade da Tintex Textiles, Ana Silva Tavares. As inscrições são gratuitas e já estão abertas através do formulário http://tiny.cc/hps3ez.

Como ser empreendedor

Licenciado em Economia pela Universidade do Porto e MBA pela Universidade nova de Lisboa, Carlos Brito doutorou-se em marketing, em 1996, tornando-se, nessa altura, um dos pioneiros em Portugal e um reconhecido especialista na área. Pelo seu percurso académico e profissional, é regularmente convidado como orador para muitas conferências de âmbito nacional e internacional, assim como formador de executivos e conselheiro a intervir em momentos de viragem estratégica de grandes empresas.

«Posso ser um empreendedor?» – foi sob esta questão que Carlos Brito iniciou a sua reflexão sobre o tema “Marcas/Marketing e Design”. Para ser empreendedor, é necessário que uma empresa ou indivíduo seja competitivo, isto é, tenha «capacidade para arranjar clientes», explica o professor da FEP. Esta competitividade passa por «ser distinto da concorrência» e «atrativo para os clientes» – a soma das duas variantes resulta em «valor», esclareceu Carlos Brito.

Carlos Brito, professor da FEP

Recapitulando o tema do workshop anterior, o professor argumentou que a «inovação é a única maneira de manter a competitividade de forma sustentável, que não envolva o acesso a recursos baratos» – o sistema ColorAdd é um «excelente exemplo de inovação», ligada à indústria da moda e do vestuário, destacou. Deste modo, Carlos Brito assegurou que «para ser inovador não tenho necessariamente de criar novos produtos», podendo investir em quatro pilares distintos: produto, processo, marketing e organização. No entanto, o primeiro passo é comum a qualquer uma das abordagens utilizadas: definir o modelo de negócio.

Já diversas empresas conseguiram desviar-se da falência iminente para a recuperação do crescimento mediante a restruturação do seu modelo de negócio. É o caso das termas, que entrando progressivamente em desuso e estando «arruinadas, tornam-se [agora] florescentes», inspiradas pela tendência de preservação do bem-estar; do cinema, que, substituído pela televisão e internet, é «só um pretexto e o negócio são as pipocas»; da Livraria Lello, que «hoje é um monumento turístico, que por acaso tem livros», enumerou o professor.

Por outro lado, há negócios anteriormente inexplorados que deram lugar a grandes fontes de rendimento, revolucionando produtos do quotidiano e transformando-os em artigos de valor acrescentado. É o caso do smartphone, «o canivete suíço do século XXI», nas palavras de Carlos Brito. «Isto não é um telemóvel», afirmou o professor «é um amigo, um pequeno tirano, um vício, e por comodidade chamem-lhe telemóvel». O mesmo acontece com os relógios que se tornaram em «acessórios de moda», e o papel higiénico, agora um «artigo de decoração», continuou o professor.

Deste modo, Carlos Brito acredita que para conseguir reunir valor acrescentado são necessários três ingredientes: inovação, conhecimento e espírito empreendedor. E «qualquer um de nós pode ser empreendedor», garantiu, desde que tenha uma boa ideia, capital, competências, atitude, engenho humano, resiliência e vontade de trabalhar. Ser empreendedor implica encontrar «soluções por vezes inovadoras, para desafios às vezes completamente inesperados, com base em recursos que frequentemente ainda não estão inventado», resumiu o professor. É aquilo a que a pessoa comum denomina por «capacidade de iniciativa».

Comprar história

Por sua vez, Júlio Torcato é uma das referências da moda portuguesa, que começou o seu percurso nesta indústria com um curso ligado ao design, «porque era o único disponível em regime pós-laboral», revelou. Em 1992, fundou o seu gabinete de design e consultoria de moda, direcionado ao apoio à ITV, estando hoje responsável pela aparência estética de várias marcas, como a Lion of Porches, Decenio e Salsa, e marcando presença em vários concursos e feiras.

Júlio Torcato, designer de moda

O percurso português no mundo da moda é ainda precoce, já que até há pouco tempo «Portugal era um país de mão-de-obra», admitiu o Júlio Torcato. Hoje, a noção de que a «criatividade é um dos fatores de sucesso e um caminho incontornável» começa a enraizar-se entre os designers portugueses, que cada vez mais ganham notoriedade internacional, auxiliados pelas várias associações de ITV. Deste modo, a única solução para o sucesso da indústria nacional, rica em know-how, é «acrescentar valor e inovação», reconheceu Júlio Torcato. A perceção desta realidade permitiu que os criadores portugueses começassem a integrar empresas e a criar marcas, que conquistaram espaço no mercado internacional.

Atualmente, a «moda é dinâmica», argumentou o designer, e é «uma das áreas que abarca quase todo o tipo de conhecimentos, sejam técnicos, de comunicação, de design, e que acompanha quase tudo o que acontece no mundo». Alimentando a necessidade psicológica do ser humano de evoluir e aderir a novas estéticas, que implica o consequente acompanhamento da indústria, a moda vai criando novas necessidades. «Estamos a assistir a um fenómeno de hype», que se baseia na «criação de produtos, supostamente em pequena escala, com grande valor de design e de nomes a ele associados que atingem valores astronómicos», potenciados pelas novas gerações e pela comunicação dos influenciadores, revelou.

Assim, Júlio Torcato definiu uma estrutura de produtos de uma empresa, em que a base é ocupada pelos artigos intemporais (core business), seguindo-se as tendências e, no topo da pirâmide, os produtos hype que constituem o seu valor acrescentado e diferenciador, «a comunicação pura». «Acho que nunca houve uma oportunidade tão grande para o nicho, porque toda a gente quer coisas únicas, toda a gente quer ser especial», assegurou.

Neste contexto, Júlio Torcato assume que Portugal, incapaz de competir pelo preço, precisa de apostar na inovação e na criatividade. O design de moda reúne apenas 30 anos de história nacional, uma experiência precoce comparativamente a outros mercados, como Itália, pelo que o “made In Portugal” tem ainda pouco peso sobre a decisão do consumidor. «Não compramos um produto, compramos uma história», afirmou Júlio Torcato, e Portugal ainda está a construir a sua.