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CENIT promove inovação

Pela segunda semana consecutiva, o CENIT acolheu um novo workshop, desta vez dedicado à Inovação, debatida por Miguel Neiva do ColorAdDD e Fernando Merino da ERT. Amanhã dará seguimento ao ciclo de conferências, abordando um novo tópico: Estratégia e Marketing na Moda.

Fernando Merino e Miguel Neiva

No âmbito do projeto Futures.ModaPortugal, o CENIT voltou a receber, na passada quarta-feira, novos convidados para apresentar o tema Inovação. Miguel Neiva, criador do sistema de identificação da cor para daltónicos ColorAdd, e Fernando Merino, diretor de inovação da ERT explicaram de que forma o investimento nesta área poderá ter contribuído para potenciar o crescimento da indústria têxtil.

O ciclo de conferências estreou-se a 11 de outubro, com o duo CITEVE e MODATEX sob o mote  “A Formação na Indústria da Moda”, que juntou Pedro Guimarães, chefe de Unidade da Qualificação da Formação do MODATEX, e Elsa Faria, coordenadora de formação do CITEVE. A terceira edição, que decore, amanhã, quarta-feira, receberá os convidados Júlio Torcato, designer de moda, e Carlos Brito, professor da Faculdade de Economia do Porto e da EGP-UPBS, para dar voz ao tema Estratégia e Marketing na Moda.

As inscrições para o workshop já estão abertas, mediante o contacto com Marisa Guimarães ([email protected]).

O futuro já chegou

A ERT, multinacional sediada em S. João da Madeira, tem como principal área de negócio os têxteis técnicos destinados ao sector automóvel. Em 1992, abriu as portas enquanto empresa dedica às técnicas de colagem e termocolagem de têxteis para o interior de calçado e, oito anos mais tarde, cimentou o seu lugar na indústria automóvel.

Em 2012, a empresa assume um modelo centrado na inovação, definindo «uma estratégia que tem por grandes objetivos desenvolver sinergias entre a sua capacidade de inovação e o crescimento com alianças estratégicas», afirma Fernando Merino.

Deste modo, a ERT procura «olhar para o automóvel do futuro», que é «autónomo, carregado de conectividade e partilhado», explica Fernando Merino. Neste sentido, a empresa investe nos temas vida inteligente, introduzindo «tecnologias com a capacidade de aumentar os estímulos», arquitetura têxtil, «uma tecnologia de sensibilização que vai tornar as cidades mais inteligentes», e nas grandes tendências, como a mobilidade partilhada e a sustentabilidade, conjugando-as de forma a combater os desafios tecnológicos, «ao nível da segurança, conectividade, dureza, segurança e design», enumera o diretor de inovação.

Para o efeito, a ERT tem instalado, desde 2014, o seu Centro de Inovação Criativa na Oliva Creative Factory, que «permite ligar a criatividade e a inovação tecnológica, de uma forma experimental», revela Merino. O diretor de Inovação reconhece que a empresa assume a preocupação de fundir a moda com a tecnologia, através de materiais tecnológicos, flexíveis e sustentáveis, estabelecendo parcerias com universidades, centros de investigação e empresas que possam apoiar a internacionalização dos produtos concebidos.

Atualmente, a ERT está a desenvolver um fio de cortiça para ser integrado na indústria do calçado, assim como uma fibra do sisal. Contudo, as novidades não ficam por aqui – a empresa investiu também em tecidos de fibras de banana e de maçã, «biodegradáveis, naturais e que podem ser produzidos com o desperdício», admite Fernando Merino.

No âmbito da utilização de fibras naturais, a ERT recebeu este ano o prémio Natural Fibrenamics Award pelo projeto desenvolvido, em parceira com a Universidade do Minho, cujo objetivo foi «trazer os aspetos das fibras naturais [da madeira] para a superfície [do painel] das portas [do automóvel]», elucida.

Fernando Merino acredita que este «é o caminho, porque nos permite juntar dois mundos: o mundo do automóvel e o mundo mais criativo dos materiais naturais».

Ver com outros olhos

Por seu lado, ao fim de oito anos de experiência profissional, o designer gráfico Miguel Neiva propôs-se a voltar à universidade para desenvolver uma tese de mestrado. Em 1999, quando ingressou na Universidade do Minho, em Guimarães, encetou um projeto, ligado à indústria têxtil, que viria a revolucionar o universo de um grupo até ao momento discriminado pela sociedade – os daltónicos.

No sentido de evidenciar esta sensação de discriminação, Miguel Neiva começou por distribuir por alguns membros da plateia do workshop um par de óculos ColorAdd, questionando aqueles que não receberam o brinde sobre a forma como se sentiram. «Talvez tivesse havido uma exclusão, mas não intencional», respondem. O objetivo da experiência foi cumprido: evidenciar um problema comum a 350 milhões de pessoas no mundo que até ao momento havia sido ignorado, causando sérias dificuldades de integração social em cerca de 41% desta população. Miguel Neiva justifica este comportamento, afirmando que «o daltónico tem uma limitação que a sociedade não vê, por isso o juízo de valor é sempre depreciativo».

Depois de vários anos a trabalhar com especialistas da área, o designer chegou à conclusão que um daltónico consegue ver entre 500 a 800 cores, ao invés das milhares tonalidades percecionadas pelas pessoas comuns. Acima de tudo, este grupo está condicionado a uma sociedade onde «90% da comunicação é feita através da cor», numa vertente racional, argumenta o designer, esclarecendo que um daltónico «não troca as cores, ele confunde-as». Apesar dos avanços tecnológicos e científicos desenvolvidos ao longo dos anos, a sociedade não fez nada «porque se esqueceu. Mas o daltónico também não reclamou» porque «não quer assumir a sua condição», justificou Miguel Neiva.

Para solucionar o problema, o designer criou um sistema universal e transversal a todos os sectores, mediante a recuperação do «conhecimento adquirido que todos trazemos da escola [básica]»: as três cores primárias e as duas neutras. Assim, surge o ColorAdd, que com «27 elementos, 27 símbolos, 27 caracteres consegue representar todas as cores», sintetizou Miguel Neiva.

O ColorAdd começou por ser implementado no Grande Porto, nomeadamente no Hospital de S. João e na Metro do Porto, até chegar progressivamente ao resto do território nacional e posteriormente ao resto do mundo. Atualmente, o sistema está presente em parques de estacionamento, recolha seletiva de resíduos, bandeiras de praia, semáforos nutricionais, marcas, eventos, sinaléticas de segurança, assim como nas áreas do entretenimento, educação, marketing e têxtil.

Dentro da indústria têxtil e do vestuário, a Zippy foi a principal marca, em termos de dimensão de exportação, a adotar o código, «ao ponto de ter entrado no Brasil e ser enunciado pelos brasileiros na imprensa: “Zippy traz ao Brasil uma solução para que os daltónicos possam comprar a roupa”», descreveu Miguel Neiva, salientando que o grupo neste país é considerado deficiente por decreto, contabilizando 15 milhões de pessoas. O designer prepara-se também para lançar, dentro da categoria dos têxteis-lar, a introdução de relevo no código das etiquetas, através de flocagem a gel, para que o cego consiga identificar a cor, já que o Braille não é universal.

Pela «inovação pura», nas palavras do designer, o ColorAdd foi considerado pela revista GALILEU, da editora Globo, como uma das “40 ideias para melhorar o mundo” e Miguel Neiva foi condecorado, em 2015, com o Grau de Oficial da Ordem de Mérito Civil pelo então Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva.