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Certificações de sustentabilidade postas em causa

Um novo estudo da Changing Markets Foundation aponta o dedo a plataformas como a Ellen MacArthur Foundation e o Oeko-Tex como sendo apenas ferramentas para tornar a imagem das marcas e retalhistas de moda mais “verde”, não tendo impacto para criar verdadeiramente um sector pautado pela sustentabilidade.

[©Unsplash/Nick Fewings]

A Changing Markets Foundation analisou 10 plataformas frequentemente usadas por empresas de moda para avaliar os seus esforços de sustentabilidade: Ecolabel, Bluesign, Cradle to Cradle Products Innovation Institute, Ellen MacArthur Foundation, Oeko-Tex, Textile Exchange, Microfibre Consortium, Sustainable Apparel Institute (SAC), Waste & Resources Action Programme (WRAP) e ZDHC Foundation.

Depois de analisar o seu nível de ambição, espaço de melhoria contínua, independência, transparência e histórico de desempenho, a organização determinou que nenhuma é «adequada ao propósito». A maioria dos programas, revela a organização, não estabelece requisitos e prazos rígidos para que os seus membros «aumentem progressivamente a sua ambição», tendo módulos diferentes, com requisitos diferentes, para acomodar empresas com menores ambições.

Muitas das plataformas existentes, segundo o relatório, carecem de abrangência, concentrando-se apenas num único material, produto ou seleção «aparentemente arbitrária» das fases do ciclo de vida de um produto, exigindo que marcas e retalhistas usem vários rótulos e iniciativas para cobrir os impactos ambientais de toda a sua cadeia de aprovisionamento. Escolher essa «manta de retalhos» de certificações e programas pode moldar uma «imagem de sustentabilidade» que evita conversas difíceis sobre fast fashion, excesso de produção ou dependência de combustíveis fósseis e distrai os consumidores da verdadeira escala da pegada da indústria, explica a Changing Markets Foundation.

Outras áreas preocupantes incluem a falta de autonomia e responsabilidade, aponta a organização. A maioria das iniciativas, indica o relatório, é suscetível a «elevados níveis de influência» por parte das empresas que financiaram os programas ou estavam envolvidas na sua administração. Grandes programas como o SAC e o seu Higg Index, por exemplo, «apoiam-se numa teia de influência» com outras iniciativas, marcas e retalhistas, criando uma «rede entrelaçada» que «sufoca o debate e os modelos alternativos», ao mesmo tempo em que compromete a prestação de contas, uma vez que há pouco incentivo para imporem o cumprimento por parte dos membros que pagam. O que equivale a «greewashing de reputação» gera ganhos tanto para os programas como para as empresas que os adotam, destaca o estudo.

A Changing Markets Foundation também chama a atenção para a falta de transparência na maioria dos programas, comparando-os, na pior das hipóteses, a «caixas negras» sem «escrutínio externo», apesar de estarem na base de «grandes decisões sobre uso de fibras e matérias-primas». O relatório refere que alguns programas, como o Cradle to Cradle e o Higg Index, confundem comunicação volúvel com transparência, resultando em páginas «cheias de palavras vazias» que obscurecem a falta de acessibilidade aos dados ou o nível necessário de detalhe. A WRAP e a ZDHC, acrescenta, usam relatórios agregados que impossibilitam a análise do desempenho de uma única empresa.

Ao falharem em termos de desempenho e propósito, estas iniciativas dão às marcas e retalhistas uma «licença para fazer greenwashing», considera a Changing Markets Foundation. Uma pesquisa da organização descobriu que um em cada três (34%) consumidores britânicos «frequentemente» ou «sempre» optam por comprar produtos com selos ou certificações verdes. Um em cada três também disse que vê os programas de certificação ou iniciativas de terceiros como fontes fiáveis ​​de informação sobre as credenciais verdes das marcas.

[©Unsplash/Charles Etoroma]
«Ao mesmo tempo que as marcas de moda duplicam a produção e a destruição ambiental, usam esquemas de certificação de sustentabilidade e iniciativas voluntárias como uma cortina de fumo», afirma George Harding-Rolls, diretor de campanha da Changing Markets Foundation, citado pelo Sourcing Journal. «Estes programas não são ambiciosos, são irresponsáveis ​​e comprometidos, o que resulta num chamariz de todo o sector para práticas insustentáveis, permitindo um greenwashing sofisticado em grande escala», assegura.

Dorothée Baumann-Pauly, diretora do Centro de Genebra para Negócios e Direitos Humanos e coautora do relatório, afiança que há um crescente ceticismo sobre a «autoproclamada sustentabilidade» na indústria da moda por um bom motivo.

«É do interesse da indústria desenvolver certificações e métricas baseados em ciência que estejam alinhados com esse entendimento original e abrangente de sustentabilidade que inclui explicitamente os direitos humanos», garante. «Normas claras podem impedir o greenwashing e permitir que as empresas mostrem que estão a progredir em direção à sustentabilidade. Também podem servir como um guia no meio de uma densa selva de iniciativas de moda sustentável», resume.

Críticas (bem) recebidas

Face ao relatório, o Sustainable Apparel Institute declarou que há poucas dúvidas de que o sector da moda deve sofrer uma transformação para melhor responder às necessidades das pessoas e do planeta, mas sublinhou que também acredita no «poder da colaboração e da ação coletiva», acrescentando que os seus membros podem aceder a «ferramentas fiáveis, credíveis ​​e cientificamente rigorosas», que evoluem para se alinhar com a ciência e os dados mais recentes, para medir o impacto da produção dos seus artigos produtos.

«Empoderar a mudança é fundamental – vivemos numa emergência climática e são necessárias mudanças profundas e rápido», afirmou ao Sourcing Journal um porta-voz do SAC. «Se as organizações estão a promover as suas credenciais de sustentabilidade para clientes e partes interessadas, é vital [que] a ação por detrás delas resista ao escrutínio. Trabalhamos em parceria ativa com muitos outros no sector para defender uma maior transparência e fundamentação das reivindicações», realçou.

Já a Bluesign considera que as críticas são bem-vindas, uma vez que são estes «comentários que impulsionam a indústria como um todo a melhorar as operações, reduzir o seu impacto e incentivar a colaboração», salientando que uma organização sozinha não pode fazer a mudança sistémica necessária. «Na Bluesign, trabalhamos com nossos parceiros de sistema para desenvolver roadmaps individuais para melhorar continuamente o desempenho ambiental, as condições de trabalho e o consumo de recursos para criar o mais alto nível de segurança para as pessoas, o planeta e os consumidores», asseverou um porta-voz.

[©Unsplash/Charles Etoroma]
Um representante da Ellen MacArthur Foundation admitiu que os acordos voluntários são um «importante ponto de partida», mas reconheceu que não são suficientes para lidar com o desperdício e a poluição da moda, razão pela qual também trabalha com governos e legisladores, tendo contribuído mais recentemente para ajudar a criar o enquadramento para um tratado das Nações Unidas sobre poluição por plásticos.

Sophie Mather, diretora-executiva do The Microfibre Consortium, revelou que a organização está «dececionada» com a falta de reconhecimento do seu progresso «significativo» no relatório. «Não apenas deturpa o que o consórcio realmente faz, como as suas referências à organização estão desatualizadas e simplesmente imprecisas», garantiu.

A Textile Exchange vê as suas certificações como «um instrumento num kit holístico de soluções» que, em conjunto, podem gerar mudanças positivas e que está empenhada em fortalecê-las, enquanto a Oeko-Tex assegurou que o «caminho para a sustentabilidade é um processo contínuo e em constante evolução» e que leva o feedback no relatório «a sério» e irá «implementar melhorias em desenvolvimentos futuros».