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Chama o robot

As compras de calçado online têm um novo aliado, com a criação de um sistema de inteligência artificial a facilitar a escolha do par de sapatos perfeito. A tecnologia da Sentient Technologies, que tem sido aplicada em áreas como mercados financeiros e saúde, estará disponível no Shoes.com nas próximas semanas.

«Preciso das tuas roupas, das tuas botas e da tua moto». Quando o T-1000 disse esta mítica frase no não menos mítico “Exterminador Implacável 2”, poucas pessoas poderiam prever que, apenas uma década depois, um sistema de inteligência artificial estaria a ajudá-las a selecionar o próximo par de sapatos. Mas é isso que está a acontecer, com uma das redes mais poderosas do mundo de inteligência artificial a estabelecer uma parceria com o portal Shoes.com para ajudar os consumidores a escolherem o par de sapatos perfeito.

A Sentient Technologies criou o que chama de maior rede de inteligência artificial do mundo e está a usá-la para ajudar a resolver alguns dos principais problemas da atualidade, como melhorar os mercados financeiros e identificar mais rapidamente sintomas de doenças. Mas para já, o problema em mãos é mais espinhoso: encontrar os sapatos certos.

A Sentient está sediada em San Francisco, emprega mais de 100 pessoas e é gerida por Antoine Blondeau, que participou no desenvolvimento do sistema que se tornou a assistente pessoal Siri da Apple. A empresa, que é a com maior financiamento em termos mundiais nesta área, construiu uma rede de inteligência artificial com 2 milhões de CPU’s (unidades centrais de processamento) e 5.000 placas gráficas distribuídas por 4.000 localizações em todo o mundo. Uma escala massiva mas que, segundo Blondeau, é apenas o início. «Esta é a primeira base, este é o ano um da década um da inteligência artificial», afirma o cofundador e CEO da empresa.

Tornar as compras online de calçado melhores não parece significativo, mas Blondeau explica que este é apenas um exemplo do que esta tecnologia pode fazer, acrescentando perceção visual ao poder de tratamento de informação que já criou. «Ao tomar decisões mais informadas, a probabilidade é que se tome melhores decisões. Nesta empresa tentamos resolver problemas reais… Tentamos aplicar a tecnologia ao que pode fazer a diferença, mudar a vida das pessoas», explica.

O assistente de inteligência artificial, que será lançado na Shoes.com nas próximas semanas, vai realizar uma seleção do conteúdo da loja dependendo das preferências de compra do consumidor, apresentando imediatamente um catálogo de possibilidades, sempre em atualização, quando a pessoa seleciona os sapatos que gosta.

«Estamos sempre a dizer que “uma imagem vale mais do que mil palavras” ou “vais saber quando vires”. É isso que estamos a fazer aqui», advoga o CEO. O sistema não se baseia em tags, em palavras escritas ou na submissão de imagens do que o consumidor está à procura, mas dá «acesso fácil às coisas que a pessoa quer mas não pode pesquisar».

Para além dos sapatos, a Sentient tem trabalhado na área dos mercados financeiros, para os quais criou “corretores” com inteligência artificial. «Eles nascem, competem, sobrevivem, morrem, prosperam, reproduzem-se, sofrem mutações, tornam-se uma espécie que eventualmente vai começar a dominar este ambiente», refere Antoine Blondeau.

A área da saúde também mereceu a atenção da Sentient, nomeadamente o tratamento dos dados recolhidos nas unidades de cuidados intensivos dos hospitais. Em parceria com o MIT (Massachusetts Institute of Technology), a Sentient Technologies desenvolveu um sistema para lidar com a sepsia, uma infeção generalizada do organismo, que é um dos principais problemas nos pacientes internados em unidades de cuidados intensivos, afetando um milhão de pessoas nos EUA, com uma taxa de mortalidade entre 28% e 50% e um custo de 20 mil milhões de dólares (cerca de 17,6 milhões de euros) por ano.

Num trabalho efetuado em parceria com o Hospital St. Michel em Toronto, a Sentient percebeu que se os médicos fossem avisados com 30 minutos de antecedência, conseguiam tratar o problema. Depois de um ano a recolher dados de batimentos cardíacos de 6.000 pacientes, a empresa criou uma espécie de enfermeira com inteligência artificial que foi capaz de prever o desenvolvimento de sepsia com uma precisão de 91%. «Estamos a usar a evolução artificial para resolver problemas resultantes da nossa própria evolução biológica. O que é bom na evolução artificial é que não são precisos milhões de anos para resolver os problemas. Podemos resolvê-los em dias, semanas, meses», sublinha Blondeau.

O CEO acredita estar no início da revolução da inteligência artificial e que, desde o início, a ética terá um papel importante no desenvolvimento. Para isso, a Sentient, juntamente com outras empresas do género, assinou um compromisso no início do ano de usar a tecnologia apenas para o bem.

E apesar de Elon Musk e Stephen Hawking serem presença constante nas páginas dos jornais a advertir para as possíveis consequências negativas que podem advir da inteligência artificial, Blondeau afirma estarmos longe disso: «não acredito nem por um segundo que o que estamos a fazer ou que outros estão a fazer na indústria é perigoso. Não estamos ainda aí. Vai demorar muito tempo até isto se tornar algo fora de controlo como na ficção científica, mas nunca é demasiado cedo para começar a pensar nisso e dar-lhe o enquadramento certo».

As Sarah Connor e os John Connor deste mundo podem, por isso, ficar, para já, mais descansados, embora as compras online de sapatos possam nunca mais ser as mesmas.