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China combate crédito e poluição

A economia do Império do Meio arrefeceu no mês passado, com a produção industrial, o investimento em ativos fixos e as vendas no retalho a falharem as expectativas dos analistas. A explicação pode estar no combate implacável do governo chinês à poluição e ao crédito.

Depois de terem sido conhecidas as preocupações da China com os empréstimos – sobretudo no sector imobiliário – e os consequentes riscos para a economia do país,  a produção industrial cresceu 6,2% em outubro em relação ao ano anterior, segundo o National Bureau of Statistics (NBS), falhando as estimativas dos analistas de 6,3%.

O crescimento do investimento em ativos fixos também desacelerou para 7,3% no período de janeiro a outubro, abaixo das expectativas dos analistas, que antecipavam uma subida de 7,4%.

«A moderação nos números divulgados sugere que o crescimento desacelerou em outubro e reafirma a nossa convicção de que continuará a desacelerar nos próximos trimestres», escreveram os analistas da Nomura numa nota aos clientes.

No ramo imobiliário, no qual o governo reforçou as regras para eliminar o financiamento especulativo que ajudou a impulsionar o boom dos últimos dois anos, a venda e a construção começaram a cair em outubro.

O crescimento do investimento imobiliário também arrefeceu para 5,6% em termos anuais em outubro, face aos 9,2% de setembro.

Uma força surpreendente

A economia chinesa surpreendeu os mercados financeiros com um crescimento substancial de quase 6,9% nos primeiros nove meses deste ano, alavancado por uma recuperação no sector produtivo e industrial graças ao aumento dos investimentos em infraestruturas (liderados pelo governo), um mercado imobiliário resiliente e uma força inesperada das exportações.

O crescimento tem sustentado a economia mundial, uma vez que o gigante asiático continua a ser o destino eleito para aprovisionamento de commodities e bens de consumo.

O quadro geral apoia a visão de que a economia está a entrar num período de moderação e não a conhecer uma rápida desaceleração. Os preços da produção na China, por exemplo, mantiveram-se fortes em outubro.

O gigante chinês do comércio eletrónico Alibaba adiantou, entretanto, ter atingido os 25,4 mil milhões de dólares (aproximadamente 21,5 mil milhões de euros) em vendas durante as promoções do Dia dos Solteiros – 24 horas que superam as vendas combinadas da Black Friday e da Cyber Monday nos EUA e atuam como barómetro para o consumo da China. O total de vendas do evento foi superior ao PIB da Islândia.

Qualidade versus velocidade

A partir do terceiro trimestre, contudo, a segunda maior economia do mundo começou a dar sinais de fadiga, com a repressão de Pequim à dívida a limitar a procura e com o combate severo à poluição a afetar a produção.

O crescimento das exportações e importações da China diminuiu no mês passado, enquanto a guerra contra a poluição atmosférica afetou a atividade industrial e reduziu a produção de aço pelo segundo mês consecutivo em outubro.

Por outro lado, os dados mais recentes mostram que os consumidores podem estar a apertar os cordões à bolsa.

As vendas no retalho cresceram 10% em outubro, face a um aumento esperado de 10,4% e abaixo do crescimento de 10,3% registado em setembro.

O investimento em ativos fixos do sector privado desacelerou para 5,8% no período janeiro-outubro, em comparação com o crescimento de 10,9% no investimento das empresas públicas. O investimento privado cresceu 6,0% nos nove meses até setembro.

Não obstante, Julian Evans-Pritchard, economista na Capital Economics, considera que o impacto económico dos limites de dívida e dos padrões ambientais foram parcialmente compensados pelos investimentos em infraestruturas.

«Todavia, esse apoio não deverá manter-se, uma vez que o poder local está determinado a reduzir os investimentos nos últimos meses do ano, a fim de cumprir os objetivos orçamentais», ressalvou.

No recente Congresso do Partido Comunista, o presidente Xi Jinping sublinhou que o país tenderá a concentrar-se na qualidade e não na velocidade e reforçou as promessas de ganhar a guerra contra a poluição e de reprimir os empréstimos arriscados.

A maioria dos analistas na China defendeu, no entanto, que Pequim não estaria disposto a arriscar uma forte desaceleração do crescimento devido ao controlo da dívida e da poluição, considerando o foco do governo na criação de empregos e na promoção da estabilidade social.

«Ainda há alguma cautela (com a economia), mas nós não estamos pessimistas. Diria que estamos bastante otimistas», afirmou Jonas Short, do banco de investimentos Sun Hung Kai Financial (SHKF).