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China em apuros

O Império do Meio continua a garantir o estatuto de maior exportador de vestuário do mundo, mas o excesso de oferta, a subida dos custos com a mão-de-obra e o crescente protecionismo têm vindo a corroer a competitividade da China.

A indústria têxtil chinesa está a atravessar uma dolorosa reestruturação industrial, avança o South China Morning Post. Em valor, a quota de mercado da China na indústria têxtil e vestuário caiu de 38,6% em 2015 para 35,8% em 2016, com a tendência de queda a verificar-se nas principais regiões importadoras de vestuário, como EUA, União Europeia e Japão.

Desde 2014, as exportações de têxteis e vestuário chinesas caíram drasticamente de cerca de 236 mil milhões de dólares (aproximadamente 196 mil milhões de euros) em 2014 para 206 mil milhões de dólares em 2016, segundo a Organização Mundial do Comércio (OMC).

Dados da alfândega chinesa mostraram que as exportações de vestuário e acessórios caíram 0,4% no ano passado em relação a 2016, enquanto as exportações de têxteis registaram um crescimento de 4,5% no ano passado.

Por outro lado, na China, os custos com a mão-de-obra têm vindo a subir de forma galopante. O salário mínimo no sul da cidade de Shenzhen está agora nos 336 dólares mensais – mais que o dobro de alguns países do Sudeste Asiático.

Atingidas pela reestruturação da indústria, algumas das grandes marcas de vestuário chinesas têm sentido dificuldades para conseguir lucro e garantir financiamento. A título de exemplo, as receitas têm vindo a cair na Fuguiniao, especialista em calçado e moda masculina sediada na província de Fujian. A empresa registou um prejuízo líquido de 10 milhões de yuans (aproximadamente 1,3 milhões de euros) no primeiro semestre do ano passado e já acumulou dívidas de pelo menos 3 mil milhões de yuans.

Embora os analistas acreditem que os produtores chineses de têxteis e vestuário enfrentem baixo risco face à guerra comercial entre a China e os EUA, uma vez que, em comparação com outros sectores, as exportações para os EUA são residuais, a verdade é que as marcas norte-americanas têm diversificado a sua cadeia de aprovisionamento.

No ano passado, uma pesquisa junto de 34 executivos das principais empresas de moda norte-americanas constatou que, pela primeira vez, o número de marcas norte-americanas que se aprovisionavam na China tinha descido, apesar de o país continuar a ser o principal destino de sourcing para o sector à escala global.

«As empresas de moda dos EUA deixaram de colocar todos os ovos no mesmo cesto e o modelo de aprovisionamento está a mudar», afirmou a associação da indústria da moda norte-americana. Para muitas marcas americanas, um terço dos produtos vem da China, um terço do Vietname e o restante de outros destinos.

Sheng Lu, professor de estudos de moda e vestuário da Universidade de Delaware, encontrou outro importante fator de mudança no posicionamento da China dentro da indústria – as importações de têxteis do Bangladesh à China, avaliadas em valor, cresceram de 39% em 2005 para 47% em 2015, podendo ser observadas tendências semelhantes nos mercados do Camboja, Vietname, Malásia e outros países da Ásia. «Um indicador significativo a ser observado é o valor dos produtos produzidos na China dentro das exportações de vestuário de outros países asiáticos para o mundo», apontou Sheng Lu sobre o novo papel da China como fornecedor dos países exportadores de vestuário.