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China já não é para todos

Para a maior parte das casas de luxo, as oportunidades de expansão no retalho chinês já se esgotaram, tendo em conta o abrandamento do consumo e o ritmo mais moderado da economia. Mas para marcas como Hermès ou Michael Kors, o mercado tem ainda um enorme potencial.

A China e os consumidores do país alimentaram dois terços do crescimento do sector do luxo na última década, mas o que foi um motor importante para os atores deste segmento de mercado pode agora voltar-se contra eles, acredita Luca Solca, diretor para bens de luxo no Exane BNP Paribas.

Num artigo publicado no Business of Fashion, Luca Solca explica que «a expansão inexorável da economia doméstica que alimentou o apetite voraz da China por coisas melhores na vida abrandou» e que este facto veio agravar os efeitos de arrefecimento que a campanha governamental anticorrupção teve na procura por bens e joalharia de luxo. O debate, por isso, tem estado concentrado sobre se há demasiada exposição à China por parte das marcas de luxo – algumas das quais abriram muitas lojas para responder à procura do mercado. É verdade que alguns pontos de venda têm encerrado, mas isso, afirma Solca, «não significa que a oportunidade do retalho local esteja a secar».

O analista aborda a avaliação das oportunidades no retalho para as marcas de luxo sob três perspetivas: a sua subexposição ou sobre-exposição local, a sua presença no mercado em comparação com a distribuição “normal” do retalho na China e a futura direção das suas cadeias de lojas.

Para isso, Luca Solca definiu mercados regionais dentro do mercado chinês de retalho de luxo em termos de clusters de cidades com base em ligações ferroviárias de alta velocidade (com uma ligação máxima de duas horas entre cidades) em vez das tradicionais delimitações administrativas oficiais.

Segundo refere, estes clusters de cidades representam 53% da população, 72% do PIB nacional e 65% das vendas a retalho. Para avaliar a distribuição do retalho em cada cluster, «distingui entre as marcas internacionais de artigos de luxo, retalhistas internacionais generalistas e os grandes retalhistas chineses de joalharia», explica.

A análise do diretor para bens de luxo no Exane BNP Paribas conclui que, no geral, as marcas de luxo estão muito sobre-expostas a Pequim e que, em menor grau, a Xangai, quando em comparação com os retalhistas generalistas e tendo em conta a riqueza e o potencial de vendas a retalho. Uma conclusão que, reconhece, não é particularmente surpreendente para ninguém.

Há, no entanto, algumas exceções. «As únicas grandes marcas que estão sub-expostas na China são a Hermès, a Tiffany’s e a Michael Kors. As três podem ser consideradas como tendo um potencial de retalho acima da média, mas a Michael Kors destaca-se quando se tem em conta na equação o PIB de cada cluster. A Hermès, embora ainda relativamente sub-exposta na China como um todo, está já bem posicionada nos clusters mais ricos», revela Luca Solca. Por seu lado, a Moncler, a Tod’s, a Dolce & Gabbana e a Versace «estão entre as marcas mais sobre-expostas na China», sublinha.

Para o diretor do Exane BNP Paribas, embora a expansão da rede de retalho esteja, no geral, terminada, a oportunidade de desenvolver as vendas a retalho não acabou, apesar do ritmo ter abrandado. E dá um exemplo: o grupo Kering, aponta, deve beneficiar do potencial de crescimento da Yves Saint Laurent, que tem uma oportunidade de expansão acima da média na China. «Contudo, o Kering tem de supervisionar a sua rede Gucci se quiser maximizar a sua situação no geral na China – a Gucci ficou consistentemente entre as marcas no fundo do ranking quando calculamos um “índice de qualidade” para as lojas de marcas de luxo na China», indica.

Já o grupo LVMH deverá ter a tarefa mais facilitada para otimizar a sua rede de retalho, estando, admite Solca, mais bem posicionado do que o Kering no que diz respeito à qualidade da rede de retalho. Três das suas marcas – Loro Piana, Givenchy e Céline – ficaram acima da média no ranking de qualidade das lojas na China, enquanto no caso do Kering apenas a Yves Saint Laurent conseguiu o mesmo feito.

Já a Burberry terá menos espaço para crescer. Juntamente com marcas como a Dolce & Gabbana, a Ermenegildo Zegna e a Louis Vuitton, tem oportunidades de expansão na China no retalho abaixo da média. «A rede de lojas da Burberry também ficou abaixo da média na qualidade, apesar de esforços significativos de supervisão nos últimos anos», refere Luca Solca.

Entre as marcas mais pequenas, o diretor para bens de luxo no Exane BNP Paribas aponta que Louboutin, Valentino e Armani tiveram boa classificação no ranking de oportunidades de retalho na China.