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China olha para o umbigo

Enquanto Pequim vai reagindo às saídas de capital, as fusões e aquisições dos chineses no exterior começaram a abrandar depois de dois anos recordes. No entanto, os negócios dentro das fronteiras da China estão em crescendo e há um pacote de novas medidas a facilitar o acesso dos compradores estrangeiros ao potencial de consumo do país.

As fusões e aquisições internas chegaram aos 7,1 mil milhões de dólares (aproximadamente 6,7 mil milhões de euros) nos primeiros meses de 2017, quase o dobro em igual período do ano passado, estando bem posicionadas para suplantar o total de 46 mil milhões de dólares em 2016, enquanto as fusões e aquisições fora do país caíram mais de 40%, para 8,4 mil milhões de dólares, de acordo com os dados divulgados pela agência noticiosa Reuters.

Os negócios de retalho e bens de consumo representaram quase metade dessas transações, superando amplamente as transações imobiliárias e financeiras, que geralmente dominam as fusões e aquisições na China.

O poder político tem vindo a tentar reequilibrar a economia, deixando de apostar em infraestruturas, indústrias pesadas e no crescimento orientado para as exportações e voltando-se para o consumo interno, pelo que, teoricamente, o investimento estrangeiro deveria ser bem-vindo, mas é preciso enfrentar várias barreiras para que o capital estrangeiro corra no país. Ainda assim, a realidade parece estar a mudar. Depois de uma experiência em algumas das suas zonas de livre comércio, a China estendeu um novo programa de liberalização a todo o país em outubro. À exceção de uma “lista negra” de indústrias consideradas demasiado sensíveis, os investimentos estrangeiros já não precisam de passar por um sistema de aprovação. «Há uma maior flexibilidade para certos sectores nos quais o governo está a tentar encorajar investimentos estrangeiros», revelou Tracy Wut, do escritório de advocacia da Baker McKenzie, em Hong Kong

A CDIB Capital, que faz parte do grupo financeiro China Development Financial Holding (CDF), está a aproveitar as oportunidades. Em agosto passado, investiu 200 milhões de yuans (aproximadamente 27 milhões de euros) numa participação na retalhista de outdoor Tutwo Outdoor, procurando capitalizar com a procura de equipamentos para caminhadas, esqui e camping. «Claramente, haverá um maior foco no crescimento doméstico e o consumo será um dos temas», afirmou Lionel de Saint-Exupéry, presidente e CEO da CDIB. «Não estamos apenas à procura de um crescimento médio, estamos à procura de um híper-crescimento e isso pode ser visto nas novas categorias», explicou.

O maior desafio, segundo David Cogman da McKinsey, é a alta valorização dos ativos chineses. As empresas de consumo e serviços listadas em Shenzhen e Xangai têm múltiplos de 30 para os seus lucros, em comparação com um múltiplo de 17 para empresas similares que operam em Hong Kong e cerca de 20 para empresas listadas nos EUA, de cordo com os dados da Thomson Reuters.

«No final do dia, especialmente se estivermos a falar de um fundo de investimento que está a analisar vários mercados, os comités de investimento vão pensar onde colocar o capital e isso é difícil de fazer com os números atuais que se encontram na China», admitiu Cogman.