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China: Produtores sobem na cadeia de valor

Os custos salariais e de produção estão a aumentar rapidamente na China, mas os responsáveis locais estão a reagir. Publicado originalmente no Financial Times, esta análise explica como a China está a reagir ao acréscimo dos custos através do aumento do valor dos produtos que exporta. A paisagem da província chinesa de Guangdong está a sofrer alterações significativas. Com o Delta do Rio da Pérola a assumir-se como a maior base industrial ao nível mundial, as alterações paisagísticas da região são evidentes em todo o lado: as colinas estão a ser arrasadas, os postes de electricidade avançam sobre os campos e rapidamente aparecem as empresas industriais nas mais diversas áreas de actividade, inicialmente de forma esporádica e depois com maior concentração. «A alteração mais importante foram as fábricas ao longo da estrada. Não existia nenhuma há três ou quatro anos atrás», refere Winston Poon, director-geral do porto de Zhuhai. Localizado na proximidade de Gaolan, o porto foi o resultado de uma joint-venture detida em partes iguais pelo governo municipal e por Li Ka-shing, poderoso empresário de Hong Kong, que controla também 45% da principal central eléctrica de Zuhai. A rápida mudança na paisagem de Zuhai pode estar a tornar a região num local ambientalmente degradado, mas é também um indício de que as exportações do Delta do Rio da Pérola se encontram vigorosas. Desta forma, tal aparentemente contradiz as queixas dos produtores em relação aos aumentos no custo da mão-de-obra, matérias-primas, cambiais e regulatórios, os quais aumentaram ao longo dos últimos meses. Acrescentando relevo a estas queixas encontra-se a primeira evidência em mais de cinco anos de que o tão gabado «preço da China», pago pelos retalhistas nos Estados Unidos (EUA) e na União Europeia (UE), está também a aumentar. Outrora considerado como benchmark dos preços ao nível mundial, o preço da China suscitou ansiedade e entusiasmo no Ocidente, originando a corrida ao investimento estrangeiro em Guangdong e noutras províncias chinesas. No entanto, as exportações da região do Delta do Rio da Pérola continuam a aumentar a uma taxa anual de 30%, sugerindo que a região mantém a sua competitividade, apesar do aumento das pressões ao nível dos custos. A capacidade de manter a competitividade possui grandes implicações para a China, para os centros de produção rivais em todos os países em desenvolvimento e para os consumidores dos países mais desenvolvidos. No mais recente exemplo das pressões exercidas nos custos sobre os produtores locais, a zona económica especial de Shenzhen, na fronteira com Hong-Kong, informou os representantes dos trabalhadores e dos empresários que ia aumentar o salário mínimo mensal em 23%, passando dos 690 iuan (68 euro) para os 800 a 850 iuan (78,84 a 83,77 euro), com efeito a partir do mês de Julho. Um aumento deste tipo seria significativamente simbólico. A maior parte dos produtores com investimento estrangeiro localizados no Delta do Rio da Pérola, os quais são responsáveis por cerca de 60% das exportações da região, pagam acima do valor estabelecido para o salário mínimo e não foram afectados pela escassez de mão-de-obra da região. Mas, a mera escala do aumento no salário mínimo planeado para Shenzhen apresenta uma perspectiva do quão rapidamente os custos estão a aumentar. «Tudo aumentou. É inacreditável o que pagamos para a alimentação dos nossos trabalhadores», refere Donald Hay, director-executivo da Hayco, empresa produtora de produtos domésticos de limpeza e eléctricos, que emprega cerca de 6.800 trabalhadores em Shenzhen. «Acabamos por subcontratar as refeições», acrescenta Hay. Mas enquanto Hay admite que os custos laborais estão «a atingir o limite» e podem forçá-lo a considerar deslocalizar algumas operações para zonas mais baratas do interior, este responsável admite que no extremo deslocaria as linhas de produtos já estabelecidas que requerem menos atenção por parte da gestão. Outras vantagens de Shenzhen estão relacionadas com a proximidade dos fornecedores e os conhecimentos de gestão dos recursos disponíveis em Hong Kong, o que levam a que a região continue a ser uma óptima localização para a produção. A cerca de duas horas de distância a Norte de Zhuhai, no fortemente industrializado município de Foshan, o maior produtor mundial de fornos micro-ondas está também a lutar com os custos mais elevados e mantém a sua competitividade. Zhao Weimin, vice-director do gabinete do director-geral em Galanz, refere os desafios enfrentados pela sua empresa, a qual exporta 65% da produção. Os custos salariais dos 30.000 trabalhadores aumentaram à medida que as empresas aumentaram o custo do trabalho, os plásticos derivados do petróleo, o cobre e o ferro estão mais caros do que nunca e a eliminação de um desconto na taxa de valor acrescentado originou o aumento do IVA cobrado pelos componentes em cerca de 18%. Mas em vez de procurar novas defesas ou de deslocalizar para um lugar mais barato, Galanz procurou melhorar a eficiência na sua fábrica de micro-ondas. Estudando os processos de produção da Toyota, adoptou o princípio de produção por equipas e unidades de gestão. Outrora uma empresa expandida e controlada ao nível central, a Galanz separou-se em 16 unidades subsidiárias, cada uma controlada por um director-geral autónomo mas ligado à central. O aprovisionamento continua a ser realizado ao nível central, com o objectivo de maximizar a capacidade de negociação com os fornecedores. A empresa também se diversificou significativamente ao construir uma fábrica com 2 milhões de metros quadrados para a produção de aparelhos de ar-condicionado (a maior empresa do género em termos mundiais) na vizinha Zhongshan, onde produz os aparelhos com a sua própria marca e para marcas estrangeiras. «Quanto mais filhos tiveres, maior a felicidade», refere Zhao. «Assim como acontece com os micro-ondas, os aparelhos de ar-condicionado são produtos de baixa tecnologia e mão-de-obra intensiva, área em que nos destacamos». A Galanz produziu 2,5 milhões de aparelhos de ar-condicionado em 2005 e prevê o crescimento da produção em cerca de 60% ao longo deste ano. No entanto, a Galanz tem ainda de passar o aumento dos custos para os seus consumidores, principalmente na Europa, principal mercado de exportação da empresa. Mas este caso não é único. Em Março, a Li & Fung, empresa de comercialização sedeada em Hong Kong com vendas anuais na ordem dos 5,6 mil milhões de euro, também referiu que o preço médio unitário no retalho dos diversos produtos de consumo que subcontrata para os compradores nos EUA e na UE registou um aumento na ordem dos 2% a 3% após seis anos de deflação. Os preços mais elevados reflectem em parte uma estratégia deliberada pelos produtores e retalhistas para mudarem para produtos com maior valor acrescentado, o que origina margens maiores. «Tenho a impressão que o mundo está a ficar um pouco farto de competir com base no preço», refere William Fung, director-geral da Li & Fung. «A diferenciação do produto é fulcral. Ninguém quer vender um bem de consumo e competir contra a Wal-Mart», acrescenta Fung. A investigação da Global Sources, empresa de organização de feiras e publicação com sede em Hong Kong, refere que os valores de exportação estão a aumentar mais rapidamente do que os volumes para todos os produtos, desde secadores de cabelo até pneus. «As empresas não estão apenas a fabricar a mesma coisa e a cobrar mais. Estão a acrescentar valor», refere Michael Kleist que dirige a equipa de investigação da Global Sources em Shenzhen, acrescentando que «Quase toda a gente está a tentar sair do fundo, porque depois de baixarem o preço, não o recuperam». «A nossa gama de produtos transitou para o maior valor», acrescenta Hay, cuja empresa começou a fabricar o seu primeiro artigo eléctrico (escovas de dentes eléctricas) em 1999 e tem expandido a sua gama de produtos de gama alta desde essa altura. A Hayco também conseguiu uma medida de integração vertical através da aquisição uma empresa de moldes de plástico em Shenzhen. Estas medidas no sentido ascendente da cadeia de valor, ajudam a explicar o porquê de aparentemente existir pouca correlação entre o aumento de custos e o desempenho geral das exportações do Sul da China, as quais permanecem robustas. As exportações de Guangdong, a maior parte das quais são produzidas no Delta do Rio da Pérola, aumentaram 24% em 2005 e 29% no primeiro trimestre de 2006. Para além deste desempenho, numa mostra da capacidade de exportação da região, mais de 250.000 compradores oriundos de mais de 200 países visitaram a China Export Commodities Fair (mais conhecida como feira de Cantão) em Guangzhou, e três feiras de subcontratação em Hong Kong. A geografia do Delta do Rio da Pérola também fornece aos produtores um certo grau de flexibilidade. O desenvolvimento tem sido tradicionalmente concentrado a Este do rio, local onde se situam os dois únicos portos naturais de águas profundas da região: Kwai Chung em Hong Kong e Shenzhen em Yantian. Como resultado, os custos de produção são mais elevados em Shenzhen e em Dongguan, que faz fronteira com a zona económica especial a Norte. O desenvolvimento do Delta a Oeste, onde Zhuhai está localizada, ficou para trás. Os investidores que deslocalizaram para a outra margem beneficiam de custos mais baixos ao nível do terreno e de bens de primeira necessidade, apesar de não poderem escapar ao impacto da modesta reavaliação do iuan e dos custos de matéria-prima mais elevados. O florescimento industrial que existe actualmente ao longo das margens de Zhuhai é a evidência de que esta mudança na gravidade económica do Delta está efectivamente em desenvolvimento. Assim como as grandes quantidades de carvão e madeira que se encontram nas docas de Gaolan, à espera de transporte para as centrais energéticas e empresas de mobiliário localizadas a Oeste do Delta. Foi antecipando esta mudança que Li Ka-shing, o décimo homem mais rico do mundo segundo a revista Forbes, investiu pela primeira vez em Gaolan em 1994. Apesar de ser ainda um porto pouco desenvolvido, cujo objectivo é alimentar o grande apetite da região por matérias-primas, Gaolan é também o último porto de águas profundas natural do Delta do Rio da Pérola e por conseguinte um promissor porto para contentores. Uma maqueta no edifício principal da administração do porto apresenta a visão de Li para Gaolan, com seis ancoradouros a servirem enormes navios de contentores e pilhas de contentores a ocuparem as docas actualmente atulhadas de carvão e madeira. Os dois primeiros ancoradouros de Gaolan estão previstos entrar em funcionamento em 2007. Em 35 anos, Li Ka-shing transformou um ancoradouro para contentores em Hong Kong num império de 42 portos espalhados por 20 países valorizado actualmente em 22 mil milhões de dólares. Gaolan é a sua aposta: o Delta do Rio da Pérola vai continuar a ser um centro de produção internacional ao longo das próximas décadas.