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China sem pressa de baixar preços de vestuário – Parte II

Depois de numa primeira parte se ter realizado uma incursão nos custos de produção e consequências do fim e reimposição das quotas,a segunda parte deste estudo analisa a recuperação da China e quais as ilações que se podem retirar deste processo. Fase 3: China recupera Os EUA e a UE não são os únicos compradores de vestuário no mundo, mas até ao meio do ano tinham colocado os produtores chineses numa posição extremamente difícil. As quotas foram impostas à China sem um período de pré-aviso muito alargado. A China e a UE “baralharam” totalmente os mecanismos de anúncio e imposição destas quotas e os EUA impuseram os seus limites muito depois de contratos de boa fé para produzir vestuário terem sido assinados. Muitas notícias foram publicadas sobre as peças de vestuário “amontoadas” nos portos em todo o mundo, mas o número foi muito mais reduzido sobre aquelas peças que tinham começado a ser produzidas nas fábricas chinesas e não puderam ser enviadas devido às barreiras impostas pela UE e pelos EUA. A reacção dos produtores chineses a esta atitude foi extraordinária. A China nunca dependeu de forma muito significativa da UE e dos EUA como “loja” única para a sua produção de vestuário. Mesmo no auge do boom pós-quotas apenas 33 por cento do vestuário exportado pela China tinha como destino final esses países. Desta forma, à medida que se tornou mais difícil enviar vestuário legalmente produzido para os mercados agora restringidos, os empresários chineses demonstram uma grande rapidez em encontrar mercados que estavam preparados para fazer negócios com eles. Como resultado as vendas de vestuário chinês continuaram a subir. Em Maio de 2005, enquanto a Europa e os EUA ainda estavam a cumprir contratos e as vendas para esses mercados continuavam a crescer, a China exportou mais 11 por cento de vestuário do que em 2004. As suas empresas desviaram a produção de outros mercados para os clientes europeus e americanos que os empresários chineses pensaram que seriam mais lucrativos. No entanto, apesar de as vendas para a Europa e EUA terem começado a abrandar, as exportações chinesas para outros mercados cresceram de forma mais do que suficiente para compensar esse abrandamento. Até Setembro, as exportações totais de vestuário da China subiram 18 por cento, mas a UE e os EUA eram responsáveis apenas por 23 por cento dessas exportações. Dez países de rendimentos médio (Rússia, Kazaquistão, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Singapura, Coreia, Quirguistão, Ucrânia, África do Sul e Malásia) importaram vestuário quase nas mesmas quantidades que a UE e os EUA. A China também viu aumentar as suas vendas para Hong Kong e Macau, as quais, em conjunto, foram responsáveis por 15 por cento das exportações de Setembro da China, registando assim uma subida dos cerca de 10 por cento do mês de Maio. Os cínicos descrevem estas vendas como uma manobra de diversão alegando que o vestuárioé apenas desviado do seu destino de origem com uma etiqueta ilegal extra “made in…”. Não existem dúvidas que isto de facto acontece, mas também existem formas legítimas através das quais as fábricas de Hong Kong e Macau acrescentam valor aos seus produtos e não existe forma de negar que estas duas antigas colónias têm vindo a recrutar muitos trabalhadores para o sector do vestuário. Que ilações se podem retirar de todo o processo É inquestionável que os muito elevados preços chinesespraticados antes de 2005 eram o resultado de ineficiências causadas pelo sistema de quotas. Contudo, presentemente, também parece que as reduções drásticas que as fábricas chinesas ofereceram no início de 2005 constituíam igualmente situações extraordinárias. Os preços para os países ricos parecem estar a estabilizar em cerca de 80 a 90 por cento das médias mundiais. Esses preços são, antes dos impostos de importação, um custo acrescido (em geral 10-20 por cento, dependendo do artigo e do país importador) que muitos dos competidores não-chineses não têm de suportar. Os vizinhos da Europa e dos EUA normalmente não pagam impostos de importação e uma grande percentagem de países de baixo rendimento podem frequentemente (embora não com a frequência que gostariam) recorrer a esquemas para acesso livre de impostos. Assim, o preço líquido, incluindo os impostos, de vestuário oriundo da China deverá estabilizar-se de acordo com a média mundial. Muitos dos compradores americanos e europeus preferirão comprar à China uma vez que os negócios nesse país são considerados muito mais fáceis e mais confiáveis. Contudo, existem poucas hipóteses de este país ser uma Meca dos preços espectacularmente imbatíveis. Existe uma grande probabilidade de alguns produtores chineses começarem a oferecer preços excessivamente baixos novamente em 2008 depois das quotas da UE deixarem de estar em vigor, ou em 2009, quando as quotas dos EUA desaparecerem. Os concorrentes não-chineses continuam a apostar na especialização, mas poderão achar nessa altura necessário recorrer a uma política de preços agressivos. Entretanto, os produtores chineses tiveram três ou quatro anos para descobrir o quão rentáveis os seus novos clientes da Ásia e a antiga União Soviética estão a revelar ser. Para já, não deve esperar-se uma pressão para descer os preços de vestuário, uma vez que a China não vai “arrasar” o nível dos preços mundiais nos próximos anos.