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China vs. Índia – Parte 1

Ambos os países investem nos respetivos sectores de produção nacional através da implementação de programas de transformação, que pretendem definir um novo rumo para a fabricação doméstica. No entanto, os caminhos que calcorreiam não poderiam ser mais divergentes.

Ambos os países investem nos respetivos sectores de produção nacional através da implementação de programas de transformação, que pretendem definir um novo rumo para a fabricação doméstica. No entanto, os caminhos que calcorreiam não poderiam ser mais divergentes. O governo chinês anunciou recentemente o plano “Made in China”, que pretende transformar o sector de produção nacional, antecipando-se ao anúncio do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, na divulgação do plano “Make in India”, também ele focado na renovação da produção doméstica.

O programa “Made in China 2025” é uma campanha de 10 anos que pretende elevar a produção do país, caracterizada pela mão-de-obra-intensiva, a sectores mais sofisticados, como a robótica e o ramo aeroespacial. O objetivo de Modi é conduzir a fabricação básica a uma economia que necessita de postos de trabalho mais bem remunerados. Em suma, a China pretende rivalizar com a Alemanha ou o Japão, enquanto a Índia aspira à posição atualmente ocupada pela China. «Quaisquer indústrias que a China dispense, a Índia irá capturá-las», afirmou Frederic Neumann, codiretor de pesquisa económica asiática da firma HSBC Holdings Plc. em Hong Kong. «Os [países] mais avançados vão finalmente ter de competir diretamente com a China e penso que será uma grande, grande dor de cabeça para esses países industrializados».

A China tem anos, se não mesmo décadas, de avanço face ao seu vizinho. De acordo com dados revelados pelo Fundo Monetário Internacional e pelo Banco Mundial, o produto interno bruto per capita da China é quase cinco vezes superior ao da Índia em 7.600 dólares e o seu sector de produção é 10 vezes maior, superando-o em 3 biliões de dólares. Porém, a China está a perder trabalhadores, uma tendência semelhante à vivida pelo Japão na década de 1990.

China ganha asas
Entre as suas ambições, a China pretende explorar as áreas da automação industrial e desenvolver os controlos informatizados necessários para produzir bens de alta precisão, como iPhones ou automóveis. O governo chinês pretende, também, desafiar o domínio do mercado detido pelo Airbus Group NV e Boeing Inc, explorando o sector da aviação. Na lista de desejos figura também a produção de dispositivos médicos avançados, veículos de poupança de energia, engenharia marítima e navios de topo, utilizados na exploração dos fundos oceânicos, e equipamentos para energia elétrica e para o sector agrícola.

Os analistas já começaram a explorar as várias vertentes do programa “Made in China 2025”, analisando as suas folhas de cálculo e emitindo previsões sobre as empresas que mais poderão beneficiar do programa. O Citigroup Inc. publicou uma lista dos 11 principais beneficiários, que incluem nomes sonantes da economia chinesa, como o Lenovo Group Ltd. e a Zhengzhou Yutong Bus Co. A lista do banco de investimento China International Capital Corp. inclui mais de 30 nomes e o Macquarie Group Ltd. identificou mais de 40 potenciais empresas beneficiárias.

Grandes ambições
Contudo, a campanha está ainda no início e a China nem sempre alcança as suas ambições. Por exemplo, o governo abandonou o objetivo de ter 5 milhões de carros elétricos em circulação até 2020, uma vez que as vendas nunca se concretizaram. No entanto, a China tem bons motivos para apostar na sofisticação do sector. O período de crescimento económico superior a 10% parece ter terminado, num momento em que a segunda maior economia do mundo ruma à mais lenta expansão económica desde a década de 1990. A escassez de mão-de-obra conduz a aumentos salariais e pressiona os produtores de pequena dimensão, como os fabricantes de vestuário.

Os lucros industriais diminuíram este ano, especialmente nas empresas estatais. Ilustrando as dificuldades enfrentadas pela China, os exportadores no centro de produção do Delta do Rio das Pérolas debatem-se com a escassez crónica de mão-de-obra qualificada e o aumento dos custos. Numa pesquisa recente realizada pela Standard Chartered Plc., os salários na região deverão aumentar 8,4% este ano e mais de 85% dos inquiridos afirmaram que a escassez de mão-de-obra qualificada é tão grave como no ano passado.

Cerca de 11% das empresas abordadas planeiam deslocar as suas fábricas para o exterior, como forma de manterem os custos baixos, com o Vietname e o Camboja a figurarem no topo da lista dos destinos preferidos. Na segunda parte deste artigo serão abordadas as ambições do governo da Índia para o crescimento do sector produtivo do país e os desafios que terá de enfrentar no decorrer desse processo.