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China vs. Índia – Parte 2

A China e a Índia pretendem realinhar os objetivos dos respetivos sectores de produção nacionais. Para tal, as duas economias emergentes adotam percursos distintos, distanciando-se naquele que é o rumo dos seus planos de produção domésticos.

A China pretende alcançar os países desenvolvidos, apostando em sectores de produção mais sofisticados, enquanto a Índia aspira à atual posição ocupada pela China. (ver China vs. Índia – Parte 1)

Mais fábricas
O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, pretende ocupar o vazio deixado pelo sector produtivo chinês, que se afasta agora de uma tipologia caracterizada pela mão-de-obra intensiva. Anunciado em setembro, o programa “Make in India” pretende atrair investimento estrangeiro e aumentar a quota de produção da terceira maior economia asiática, fixando-a em 25% até 2022, face aos atuais 18%, uma percentagem que se mantém inalterada desde 1947. Entre as empresas atraídas pela proposta de Narendra Modi figuram o Foxconn Technology Group e a FIH Mobile Ltd., que começará a fabricar smartphones no país já no próximo ano. Embora existam algumas sobreposições com a campanha chinesa, como a promoção da biotecnologia e da energia renovável, muitos dos 25 sectores de atividade incluídos no “Make in India” não são sectores de vanguarda, mas sim de produção tradicional, como os têxteis e o couro. «A promoção do sector da indústria transformadora na Índia começa a partir de uma base muito baixa e tem como objetivo capturar postos de trabalho pouco qualificados que estão a abandonar a China às dezenas de milhões», revelou Peter Martin, diretor-adjunto da APCO Worldwide para o território indiano.

A vez da Índia
A Índia parece estar preparada para tomar o lugar de China. A quota de produção na economia começa a aumentar quando o rendimento médio de um país – em termos de paridade de poder aquisitivo – supera os 5.000 dólares e irá continuar a crescer, fixando-se nos 10.000 euros, de acordo com um estudo da McKinsey & Co. O rendimento per capita indiano, nessa base, está fixado em 5.850 dólares, segundo as estimativas do Banco Mundial, contrastando com o rendimento chinês de 11.850 dólares. No entanto, os desafios são muitos. O pesado sistema burocrático indiano contribuiu para o seu posicionamento no lugar 142 do ranking, composto por 189 países – ficando aquém da Etiópia e da Serra Leoa, enquanto a China ocupa a 90ª posição – no mais recente Índice de Facilidade de Negócios emitido pelo Banco Mundial.

A burocracia é de tal forma impeditiva, que o registo de uma empresa no polo industrial de Noida, perto de Nova Deli, demora 30 dias e exige 12 autorizações, ou seja, três vezes mais do que num país da OCDE. E, apesar de ser ainda precoce avaliar os potenciais resultados das campanhas implementadas, o histórico chinês faz antecipar o sucesso deste país, em comparação com a concretização dos objetivos estipulados pelo governo indiano. Há três décadas atrás, ambas as economias apresentavam níveis semelhantes de desenvolvimento.

A economia chinesa cresceu exponencialmente desde então e ultrapassou os 10 biliões de dólares no ano passado, enquanto a economia indiana se fixou nos dois biliões de dólares. «O estado chinês é capaz de articular e conduzir de forma consistente um conjunto de metas», reconhece Martin. «É um desafio para a Índia alcançar esse tipo de consistência na implementação de políticas de produção. E isso está relacionado com uma diferença realmente fundamental entre os sistemas políticos, que se relaciona intimamente com a democracia descentralizada da Índia, face ao estado de partido único desenvolvimentista da China», acrescenta.