Início Notícias Mercados

Chineses apertam o cinto

A desaceleração económica e a instabilidade do mercado de ações na China impeliram a população a restringir as despesas efetuadas, trazendo consequências inestimáveis para a dinâmica da economia mundial.

Terry Xu considera-se um privilegiado. O jovem pai, de 32 anos, investiu 10% das suas economias no início deste ano em ações chinesas. Agora, com os mercados em baixo em cerca de 40% desde junho, está a vender o seu portefólio com perdas. Apesar de se tratar de um infortúnio, afirma, não é uma catástrofe – alguns colegas perderam mais e, ainda assim, ele aufere um salário mensal substancialmente acima da média nacional.

Mas a turbulência sentida nos mercados de capital, juntamente com os sinais de abrandamento da economia significam que Xu, assim como outros milhões de consumidores chineses de classe média, terão de reduzir os gastos, um sinal nefasto para os responsáveis políticos chineses e para a economia global. «A economia tem sido incerta este ano», afirma. «Não é como antes, quando costumávamos simplesmente comprar tudo para a nossa filha. Agora, só compramos e gastamos o que precisamos», explica.

Xu ganha 20.000 yuans, cerca de 3.140 dólares por mês, como gestor de desenvolvimento de produtos para um fabricante de fones ocidental, em Shenzhen. O apartamento que comprou em 2012 por 141.000 dólares, que partilha com a filha de 4 anos, esposa e sogros, vale agora 390.000 dólares. No entanto, planeia manter o seu Apple iPhone 4, ao invés de atualizar para a versão mais recente, e o seu próximo par de sapatilhas será da marca chinesa Anta Sports, no lugar da habitualmente eleita americana Nike.

As preocupações de Xu são comuns às famílias de classe média chinesas – relativamente menores face aos milhões de compatriotas que auferem rendimentos significativamente mais baixos. Mas as suas restrições contrastam com as esperanças do governo chinês, que antecipa uma revitalização do consumo, num momento em que as exportações caem e procuram reequilibrar a economia, afastando-a da dependência de longa duração do comércio e despesa governamental.

O consumo interno contribuiu 60% para o crescimento económico da China no primeiro semestre de 2015, face aos 51,2% assinalados no ano de 2014, sugerindo que o reequilíbrio desejado por Pequim está no rumo certo. Porém, considerando as perspetivas futuras, os indicadores e experiências das empresas na China revelam-se mais preocupantes. O índice de confiança do consumidor chinês, elaborado pelo ANZ Bank e pela empresa de sondagens Roy Morgan, atingiu uma baixa recorde em agosto.

As vendas de automóveis na China poderão diminuir este ano, pela primeira vez em duas décadas, enquanto as vendas de smartphones registaram a primeira queda no segundo trimestre do ano, revelou a empresa de pesquisa do consumidor Gartner. Se isto se traduzir numa desaceleração dos gastos do consumidor em geral, o impacto ultrapassará as fronteiras do território chinês.

A titular da Reserva Federal dos EUA, Janet Yellen, referiu que as preocupações face a uma desaceleração na China se deviam, parcialmente, à decisão do banco central em manter as taxas. O crescimento do PIB global, estimado pelo FMI em 3,3% este ano, seria inferior em cerca de meio ponto percentual caso se revele uma queda acentuada na procura chinesa, de acordo com o estudo divulgado este mês pela OCDE.

O estudo prevê que, se o crescimento da procura interna chinesa cair 2 pontos percentuais em dois anos consecutivos, combinado com uma queda de 10% nos mercados acionários globais, irá suprimir cerca de 0,25 pontos percentuais ao ritmo do PIB dos EUA e mais de metade de um ponto percentual ao decrépito crescimento japonês, pelo segundo ano.

As exportações japonesas com destino à China, o seu maior parceiro comercial, já estão a diminuir, tendo caído 4,6% em agosto face ao ano anterior, em parte devido à queda das expedições de peças de automóveis para fábricas chinesas, onde a atividade atingiu o valor mais baixo dos últimos seis anos e meio.

Boicote às marcas estrangeiras
Muitas das maiores empresas mundiais estão a sentir os efeitos da fraca procura do consumidor chinês. A marca Audi anunciou, este mês, ter diminuído a produção nas unidades fabris localizadas em território chinês. A rival alemã BMW reduziu o fabrico dos modelos séries 3 e 5, produzidos localmente.

Xie Kang, de 46 anos, dirige uma pequena fábrica de produtos de plástico em Dongguan, Em consequência da má prestação do negócio, cancelou os planos de aquisição de um Toyota Highlander, por cerca de 62.000 dólares, optando por manter o seu Volkswagen Polo. A sua empresa fornece peças para as indústrias de brinquedos, eletrónicos e bicicletas, mas o número de clientes caiu de 30 para 4. «Para ser honesto, preciso de um carro melhor. Mas as minhas dívidas estão a aumentar e não tenho lucro há vários meses», revela.

Zhao Wenke, de 32 anos, que administra uma empresa de peças automóveis em Xangai, também reduziu os gastos, apesar dos seus rendimentos mensais de 13.000 dólares. Pai de duas crianças, afirma que agora economiza 40% do salário mensal, dada a incerteza económica, superando os 30% anteriores. «Para as crianças, estamos definitivamente a cortar no vestuário, especialmente de marcas estrangeiras, como a Mothercare», afirma, acrescentando que, como Xu, não irá atualizar o seu smartphone para o recente iPhone 6S da Apple.

As ações da Apple caíram 13% desde 21 de julho, em parte devido à instabilidade sentida na China, apesar do diretor-executivo da empresa americana, Tim Cook, ter anunciado que o desempenho do terceiro trimestre foi «tranquilizador». Xu opta agora por investir o dinheiro em fundos bancários ou depósitos a prazo. As férias regulares no estrangeiro e as refeições em restaurante de que ele e a sua esposa costumavam desfrutar estão agora em espera. «Nao quero gastar cegamente como antes», conclui.