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Chineses consomem menos

O abrandamento da economia na China tem conduzido a uma desaceleração do consumo no país, que vive em guerra comercial com os EUA. O declínio pode representar uma chamada de atenção para os retalhistas mundiais, que têm lutado por uma fatia do mercado no Império do Meio.

Zhao Na, natural da província de Henan, na China central, tem 29 anos, é agente imobiliária e admite à Reuters ser viciada em compras e apaixonada pelas bolsas da Louis Vuitton e da Prada. Zhao Na personifica, na verdade, uma onda de consumidores que fez com que as principais marcas do mundo lutassem por uma fatia do mercado de retalho na China, que vale mais 5 biliões de dólares (cerca de 4,7 biliões de euros). «Quando tenho muito dinheiro, sinto-me bem a gastá-lo», confessa Zhao Na que, uma vez, gastou cerca de 60 mil yuans (aproximadamente 8 mil euros) num conjunto de bolsas durante uma viagem a Paris em 2017. «Gastar faz-me sentir feliz», afirma.

No entanto, com o abrandamento da economia chinesa, o negócio de Zhao Na estagnou, afetando o seu salário, o que acabou por forçá-la a, pelo menos, suspender a sua fonte de felicidade. A chinesa pôs fim às viagens de compras à Europa e deixou de fazer compras excessivas no seu centro comercial favorito, o David Plaza, onde ecrãs digitais gigantes exibem anúncios publicitários de marcas de luxo como Gucci, Lancome e Ermenegildo Zegna. «Não poder gastar dinheiro como gosto faz-me sentir mal, mas não posso fazer grande coisa em relação a isso», admite.

Bem-vindos à realidade

O abrandamento da economia chinesa, depois de três décadas de crescimento contínuo, tem sido especialmente sentido por consumidores como Zhao Na, em Henan. A província, que conta com cerca de 100 milhões de habitantes, é um pilar essencial de transformação da economia para o governo chinês. Porém, de acordo com dezenas de entrevistas a consumidores e empresários de Henan, assim como dados de grupos comerciais, os cidadãos da região estão a gastar menos dinheiro em vários produtos, desde carros e eletrodomésticos até vestuário e cosmética. A queda do consumo de habitantes como Zhao Na pode ter repercussões sérias no crescimento económico da China, já abalado pela guerra comercial com os EUA.

Zhengdong

O declínio pode também ser uma chamada de atenção para os retalhistas mundiais. O grupo italiano Ermenegildo Zegna, a marca norte-americana Tiffany e a gigante tecnológica Apple já deram nota que os consumidores chineses estão a consumir menos.

Recentemente, o país asiático revelou ter registado um fraco crescimento nas vendas a retalho e uma descida nos gastos em vestuário, pela primeira vez numa década. A diminuição do consumo em cidades como Zhengzhou poderá mesmo abalar as ambições dos retalhistas mundiais, que colocaram as suas esperanças de crescimento em regiões como Henan.

A transformação da província

Nos últimos anos, Zhengzhou transformou-se numa metrópole, com edifícios altos e bastantes centros comerciais. Recentemente, a Foxconn, empresa de Taiwan, por exemplo, construiu na região uma fábrica de produção de iPhones, que emprega 230 mil pessoas.

Para Zhao Na, a cidade foi um sinal de esperança. Nascida numa família de agricultores na zona rural de Henan, Zhao Na sonhou desde pequena sair da sua vila. Foi bem-sucedida na escola, o que lhe permitiu frequentar a universidade em Zhengzhou, onde descobriu ter talento para vendas. Começou a trabalhar numa promotora imobiliária, onde vendia casas a clientes ricos. Rapidamente conseguiu experimentar o estilo de vida dos seus clientes, obtendo comissões lucrativas em vendas de apartamentos topo de gama. Tornou-se cliente habitual de lojas de luxo no David Plaza, comprou um carro e duas habitações, arrendando uma delas através de Airbnb. Zhao Na também acumulou dívidas em seis cartões de crédito. Atualmente, em dívida de cartão de débito tem cerca de 200 mil yuans, além da hipoteca mensal e dos pagamentos do carro, que totalizam 15 mil yuans. Com o arrefecimento do mercado imobiliário no ano passado, as vendas caíram, tal como as suas comissões. Deu-se assim o ponto final nas suas viagens até ao David Plaza.

Zhao Na

Zhao Na não está sozinha nas mudanças de estilo de vida. A confiança dos consumidores em cidades como Zhengzhou diminuiu ligeiramente no ano passado, depois de ter atingido os seus níveis mais altos em nove anos no ano de 2017, segundo a Nielsen. O crescimento das vendas a retalho abrandou no ano passado, pela primeira vez em cerca de duas décadas.

Em dois centros comerciais no centro da cidade, os retalhistas a vender marcas de cosmética como a Kiehl’s ou a Clinique afirmam à Reuters que os consumidores estão a tornar-se mais prudentes. «Costumavam comprar muito e gastar o seu dinheiro com menos preocupações», assegura Li Mengru, gestora de vendas de cosmética na Dennis Department Store, que vende artigos de marcas como Chanel, Dior e Estée Lauder. «Agora estão a tornar-se mais seletivos e a ter mais cuidado com o dinheiro que gastam», acrescenta.

Dinheiro fácil

Um fator que impulsionou o consumo na China nos últimos anos foi a exploração de novas opções financeiras, incluindo empréstimos e inúmeras oportunidades de aquisição de cartões de crédito. Tal colocou uma vasta gama de artigos ao alcance de pessoas que anteriormente não tinham condições para os obter.

Chai Maofeng, distribuidor de carne em Xuchang, uma cidade de Henan com cerca de 4 milhões de habitantes, abriu 10 contas de cartão de crédito em 2016 para mobiliar o seu apartamento com um conjunto de sofás, frigorifico, ar condicionado e televisões – tudo completamente novo. «Abrir uma conta de cartão de crédito era fácil – os bancos estavam dispostos a fazê-lo e tudo o que era necessário era um número de telefone fixo que provasse que se trabalhava num escritório», explica Chai Maofeng.

Contudo, o chinês teve que alterar o seu estilo de vida com a desaceleração da economia, que começou a afetar o seu negócio, também atingido por medidas punitivas como indústria poluidora, que aumentaram os preços da carne. Chai Maofeng admite que teve que adiar os seus planos de comprar de uma segunda propriedade e um novo carro. «Na verdade, este veículo da empresa é suficiente», reconhece, referindo-se à carrinha que a sua empresa lhe permite usar.

O pior está para vir?

A economia chinesa deu sinais de recuperação no primeiro trimestre, com o PIB a crescer mais do que o esperado pelos analistas. Não obstante, a intensa guerra comercial com os EUA, uma atividade produtora lenta e o abrandamento na procura mundial por produtos chineses sugerem que o abrandamento irá continuar em 2019, apontam muitos economistas.

Os esforços governamentais para travar o acesso fácil ao crédito nos últimos anos, para conter bolhas especulativas, reduziu a quantidade de dinheiro facilmente disponibilizado a muitos consumidores.

Pequim deu, contudo, passos para impulsionar o consumo, anunciando, em janeiro, subsídios para aumentar a compra de automóveis, uma indústria que registou, no ano passado, um declínio, pela primeira vez em duas décadas. O governo também pretende subir o salário líquido dos chineses, reduzindo os impostos. No entanto, a ajuda governamental dificilmente irá compensar uma descida na confiança decorrente de um crescimento lento dos salários e um incremento do endividamento das famílias, acreditam os analistas.

Refira-se que, na verdade, os consumidores não colocaram um travão definitivo no consumo. Numa tarde no centro de Zhengzhou, o centro comercial David Plaza estava lotado, com os consumidores a manterem-se a par das novidades. Contudo, Zhao Na não estava entre eles. Tendo pela frente cerca de 30 anos de pagamentos de hipotecas e com empréstimos do carro ainda por pagar, a chinesa assume que pode demorar algum tempo até voltar às compras no centro comercial. «Com a redução do salário, tenho que fazer com que cada cêntimo conte. Gastos desnecessários de luxo têm que ser evitados, pelo menos por agora», lamenta.