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Chineses espiam vestuário europeu

A violação da propriedade intelectual não é novidade para as indústrias da UE e dos EUA, mas a sua sofisticação, particularmente por parte dos chineses, em reproduzir os seus designs tomou recentemente novos contornos. Equipas de jovens alunos finalistas que falam inglês, normalmente mulheres, são enviadas para cidades europeias como Barcelona, Londres e Milão, para percorrer diariamente as lojas, comprar artigos “na berra” e depois enviá-los para a China, Coreia ou Taiwan.

A mercadoria certa

Um jornalista do just-style falou com um destes “escuteiros” que trabalha para um grande produtor de vestuário de Taiwan e que durante um ano viajou pela Europa na busca do “material certo”. Uma jovem estilista de 20 e poucos, que exigiu anonimato, foi contratada por um grande produtor de vestuário de Tapei como designer há três anos atrás juntamente com mais dois colegas, um dos quais mulher. Na altura pensavam que o seu novo chefe os tinha contratado para fazer o que qualquer jovem gosta de fazer, viajar e trabalhar num  projecto de sonho – ser pago para fazer compras nas cidades europeias mais glamorosas, com todas as despesas pagas. «Acho que é um trabalho clandestino, mas não é pior do que algumas empresas de vestuário europeias fazem quando compram vestuário de designers e depois lançam uma cópia mais barata para as massas», diz ela.

O modus operandi destes jovens espiões consiste em visitar as lojas das grandes cadeias como a Mango, Zara e Gap, tal como se fossem um dos milhares turistas asiáticos que normalmente o fazem. Escolhem as peças de vestuário que pensam corresponder da melhor forma às exigências do seu mercado interno, Taiwan, para onde as enviam devidamente embaladas e com os respectivos comentários. No destino final, Taipei, o design e o modo de produção são cuidadosamente estudados e reproduzidos, com o acréscimo de alguns pormenores, tais como uma nova cor ou um novo material.

«Existem imensos mercados que recorrem a esta estratégia, especialmente na China continental, onde gostam de contrafaccionar os artigos até ao último detalhe», afirma a designer. Os artigos têm geralmente como destino o mercado interno, mas, de acordo com a mesma fonte, não existe qualquer motivo pelo qual não possam “voltar” para o país onde foram originalmente desenhados.

Um grande problema

Stéphanie Le Berre, do departamento legal da Euratex, afirma que este é um grande problema para o qual é extremamente difícil encontrar uma solução.

«No caso específico de Taiwan, em que esta prática é recorrente, o que existe é a contrafacção de designs e não de marcas registadas. Este tipo de infracção é muito difícil de combater. A estrutura legal dificulta em muito qualquer tipo de justiça para os designers. As pequenas e médias empresas, que são as principais atingidas por estas “imitações”, não têm capacidade financeira para lutar contra a contrafacção. Ainda é preciso considerar que este tipo de combate às infracções se arrasta ao longo de vários anos».

Stéphanie Le Berre explica também que as dificuldades são ainda acrescidas já que, em muitos casos, na China as empresas que alegadamente copiaram artigos de designers ocidentais estão bem protegidas pelo seu governo. As leis de propriedade intelectual não têm qualquer vigor na China.

«A única resposta parece ser os nossos designers criarem e voltarem a criar. Os chineses são muito espertos e competem com as pessoas a quem “roubaram”; seria melhor para os produtores originais criar novos designs para o mesmo mercado, mantendo-se assim um passo à frente dos competidores “batoteiros”.

Custo da contrafacção

É difícil avaliar os custos da contrafacção de designs, mas é possível afirmar que em alguns casos os produtores de moda ocidentais estão a perder 40 por cento do mercado para estes “falsificadores”, uma vez que o produto é bom e, sobretudo, muito mais barato. Para ilustrar quão devastador é o efeito da contrafacção, Le Berre cita o exemplo de uma bem conhecida empresa holandesa que estava a vender em África. «A China roubava-lhe os designs e vendia-os no mesmo mercado fazendo-a perder mais de 40 por cento do seu mercado».

Na China a pirataria é praticada em várias indústria e não apenas na indústria do vestuário. Filmes, música, software (de trabalho e de entretenimento) e livros, são todos alvos de cópias vendidas ilegalmente. Os níveis de pirataria, que reflectem a percentagem dos produtos vendidos num mercado que é ilegal, situaram-se entre 85-95 por cento em 2004, para todas as indústrias copyright que anunciaram taxas de pirataria.

O sistema de cumprimento e inspecção chinês não tem sido capaz de diminuir significativamente esses níveis de pirataria, não oferecendo assim procedimentos adequados e medidas legais eficazes para proteger o copyright tal como é exigido pelo TRIPS (tratado sobre Direitos da Propriedade Intelectual), de acordo com a Euratex.

As perdas estimadas devido à pirataria de materiais com copyright ultrapassaram 2,5 mil milhões de dólares em 2004. Enquanto grande parte dos artigos pirateados no mercado chinês são produzidos na China, as importações de produtos pirateado vindos de outros países da Ásia são igualmente um problema, relembra a Euratex.

Le Berre afirma que «o “roubo” de design têxtil tem sido particularmente notório em feiras internacionais».

Designs originais próprios

Mas da China e Taiwan não chegam só más notícias. Segundo o New York Times, algumas empresas estão gradualmente a abandonar a estratégia da “cópia” para criar e proteger os seus próprios designs.

«Cai Meiyue, faz parte de uma pequena percentagem de empresários chineses, que estão a começar a exigir mais protecção da propriedade intelectual. Ela estima que por cada peça de vestuário vendida da sua marca (Tsai Mei Yue), outras empresas na China venderam pelo menos 10 cópias», escreveu o New York Times. Cai afirma que «temos de aprender com os designers estrangeiros, eles têm um bom sentido de responsabilidade e não copiam outros designs. É importante educar os nossos designers e alertá-los dos efeitos negativos de copiar os outros».

A fonte anónima acrescenta ainda que «copiar e modificar ligeiramente os designs ocidentais não reflecte o que a minha empresa faz. Eu tenho a oportunidade de criar um artigo desde o início. No entanto, no que diz respeito aos meus chefes, os designs europeus estão lá para ser “colhidos” a uma fracção do preço do que custariam se fossem desenvolvidos a partir da fase inicial».

Enquanto esta forma de pensar existir, as viagens à Europa para comprar e “investigar” peças de vestuário, quer seja uma atitude correcta ou incorrecta, vão continuar durante algum tempo.