Início Notícias Mercados

Chineses vão às compras em casa

Os consumidores mais abastados da China estão novamente a gastar dentro de portas, despertando de uma inércia de três anos provocada pela desvalorização do yuan, preços mais baixos e uma repressão dos agentes de compras no estrangeiro – uma boa notícia para a indústria mundial de luxo.

Os consumidores ricos da China representam quase um terço dos consumidores mundiais de luxo, em comparação com apenas 2% na viragem do milénio. Segundo a Reuters, são eles a força impulsionadora do mercado de luxo, mesmo depois de uma ligeira queda este ano, quando viajaram menos para o estrangeiro, em parte devido aos ataques terroristas na Europa.

Nos últimos três anos, a perseguição à corrupção e ao consumo ostensivo pelo Presidente Xi Jinping afetou as vendas e grandes nomes como o LVMH fecharam lojas, sobretudo em cidades de segundo ou terceiro nível.

Em 2016, contudo, as casas de moda, joalharias e compradores afirmam que isso está a mudar, com a China a afastar-se de uma economia impulsionada por grandes investimentos em infraestruturas para uma economia apoiada no incentivo ao consumo.

A Burberry, o Kering e a Tiffany registaram uma retoma nos resultados mais recentes na China, dando uma nota de otimismo numa altura em que a indústria entra nas semanas críticas entre a azáfama do Natal e o Ano Novo Chinês.

«Toda a gente está a beneficiar de mais tráfego nas lojas [de luxo] chinesas», afirma Bruno Lannes, partner sediado em Xangai na consultora Bain, que estima que um aumento de 4% nas vendas na China Continental depois de três anos de declínio. «Algumas marcas na China esperam que 2016 volte ao pico de 2012, embora a combinação seja diferente. Espero que algumas marcas ultrapassem esse recorde», aponta Lannes.

Nas ruas de Xangai e Pequim, os consumidores revelam que, de facto, estão a gastar mais em casa.

A desvalorização do yuan significa que a moeda já não permite comprar tanto no estrangeiro. Ao mesmo tempo, marcas de luxo como a Chanel fizeram mudanças desde o ano passado para diminuir a diferença de preços entre a China e os restantes mercados internacionais. O governo está ainda a desmantelar os “daigous”, os compradores “profissionais” que fazem compras no estrangeiro a pedido para enviarem para a China.

«Algumas marcas estão a estabelecer os preços dos seus produtos na China mais próximos do praticado nos mercados estrangeiros, como a Chanel», revela Emma Yu, uma dona de casa de 32 anos que a Reuters encontrou à saída de uma loja Cartier enquanto estava às compras por uma mala no bairro financeiro de Xangai. «Se há apenas uma diferença de alguns milhares de yuans, compro em casa», acrescenta.

Uma outra consumidora, no exterior de loja Louis Vuitton no centro de Xangai, que é contabilista numa multinacional, também indica que está a comprar mais na China, sobretudo se não viajar. «Definitivamente compro mais artigos de luxo em casa do que anteriormente desde o ano passado – muito mais – porque é conveniente comprar coisas aqui», explica, enquanto compara uma mala de 5.700 dólares (cerca de 5.300 euros) que comprou com a que está na montra.

A China Continental tem registado vendas positivas, confirmou Johann Rupert, presidente do conselho de administração da Richemont, durante uma reunião com os investidores no mês passado. «Parece que a intenção do governo chinês de promover o crescimento através do consumo em vez do investimento apenas está a dar frutos», referiu.

O Richemont, que detém a Chloé, a Cartier e mais uma dezena de outras marcas de luxo, deu conta de um «marcado» crescimento das vendas em outubro na China Continental.

O Kering, que detém a Gucci e a Saint Laurent, revelou que as vendas na Ásia-Pacífico subiram 24% no terceiro trimestre e a Burberry reportou um aumento de dois dígitos no segundo trimestre, excluindo o impacto das mudanças na sua oferta em Pequim.

As marcas locais beneficiaram menos, indicam os analistas. Um porta-voz do joalheiro Chai Tai Fook afirmou à Reuters que as vendas na Grande China estabilizaram em setembro e outubro em comparação com os declínios nos dois trimestres anteriores.

O cenário é, contudo, menos brilhante em Hong Kong, no passado um destino de eleição para os consumidores chineses que queriam evitar os impostos na China Continental sem fazer grandes viagens. Depois de quedas de mais de 20% em termos anuais nos últimos dois anos, as vendas estabilizaram, referem os analistas e as empresas de luxo. Mas os consumidores chineses que estão dispostos a gastar no estrangeiro preferem ir ao Japão, à Europa ou até a Macau, revela Mariana Kou, analista no banco de investimento CLSA. Os incentivos fiscais já não são suficientes. «Hong Kong tornou-se um pouco aborrecido», resume Mariana Kou.